O mito da mulher forte

Revista Casa D’Italia, Juiz de Fora, Ano 3, n. 19, 2022 – Camila Wendling |  O mito da mulher forte – Ilustração: Laura Coury


Testei dez maneiras diferentes de começar este texto, mas nenhuma das introduções que eu havia escrito faziam sentido e nem mesmo pareciam dialogar com o tema. Acontece que falar sobre o mito de ser uma mulher forte passa por um lugar de dor que até pouco tempo eu nunca tinha encarado.

O sentimento de ter que atender as expectativas de terceiros e sempre ser forte diante das mais diversas situações já me atravessou tantas vezes que nem mesmo sei falar sobre esse lugar que nunca me pertenceu, mas que, ao mesmo tempo, sempre foi tão meu.

Se enxergar como alguém que também tem um limite e inúmeras fraquezas nos deixa em um estado de fragilidade com o qual, muitas vezes, não sabemos lidar. Principalmente, quando se é mulher.

É esperado que sejamos fortes diante das adversidades, mas não fortes o bastante para reagir de forma que possa soar agressiva. Devemos ser firmes, mas não tão firmes a ponto de parecermos grosseiras ou arrogantes. Ser uma mulher guerreira é louvável, contanto que aquela guerra não tenha começado porque você simplesmente decidiu se posicionar em uma situação.

Vivemos na corda bamba para conseguir atender a uma série de cobranças contraditórias e, quando não correspondemos a elas, somos obrigadas a lidar com o sentimento de que falhamos de alguma forma. Mas, afinal, o que acontece quando essa corda se rompe? Qual o peso de se desfazer? 

O paralelo entre a mulher imaginária e a mulher real

Em um de seus poemas, Clarice Lispector fala sobre a complicada missão de se redescobrir e encarar suas próprias inseguranças. Nas palavras da própria autora: “É difícil perder-se. É tão difícil que provavelmente arrumarei depressa um modo de me achar, mesmo que achar-me seja de novo a mentira de que vivo”.

A mulher contemporânea é colocada diante de uma multiplicidade de identidades, que embora esteja em constante evolução, ainda ocupa o lugar central no que se refere às cobranças sociais para ser uma boa filha, mãe, esposa ou até mesmo para receber o reconhecimento desejado por um trabalho. 

O que muitas vezes é deixado de lado é que o preço de ser uma mulher forte, múltipla e que consegue abraçar o mundo é alto demais. 

De acordo com o levantamento de Estatísticas de Gênero, realizado pelo IBGE em 2019, as mulheres dedicam mais horas aos afazeres domésticos e aos cuidados com outras pessoas, mesmo em situações profissionais iguais às dos homens. As pesquisas apontam que, enquanto as mulheres despendem 21,4 horas por semana aos cuidados domésticos, os homens gastam apenas 11 horas. 

Esses dados ficam ainda mais alarmantes quando falamos sobre a realidade da mulher negra no país. Segundo estudos do Centro de Desenvolvimento e Planejamento Regional (Cedeplar), 63% das casas comandadas por mulheres negras com filhos de até 14 anos sobrevivem com R$ 420. Além disso, é importante ter em vista que o Brasil bateu o recorde de 41,4% dos trabalhadores em situação informal e que, no país, 47,8% das mulheres negras têm trabalho informal.

Mas como isso se relaciona com o mito da mulher forte? As consequências de ter que lidar com duplas e triplas jornadas de trabalho ficaram ainda mais claras durante a pandemia, porque, uma vez que se está em casa, o trabalho com o lar e os filhos aumenta, sem que a pressão da vida profissional diminua. 

Quando a sobrecarga vai além do cansaço físico 

Uma pesquisa feita pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj), no ano de 2020, mostrou que os casos de depressão e ansiedade aumentaram em 80% desde o ano passado e que as mulheres ficaram mais propensas do que os homens a sofrer com ansiedade e estresse durante a pandemia. 

Em uma entrevista realizada anonimamente com mulheres entre 40 e 75 anos, uma das entrevistadas relatou que, embora as noções sobre o papel da mulher tenham mudado com o passar dos anos, as cobranças e pressões sociais permanecem as mesmas. 

“Já foi o tempo em que a mulher vivia para o lar e seus desdobramentos, porém as atitudes das pessoas não mudaram em relação a isso. Na minha casa eu trabalho, estudo e, quando chego dessas obrigações, tenho tudo me esperando, mesmo com o meu companheiro tendo uma carga horária menor que a minha”, conta a fonte.

Quadro Eugenio Zampighi

Além disso, de acordo com a pesquisa, 75% das entrevistadas afirmaram que as relações familiares são as principais fontes de cobrança e, consequentemente, de sobrecarga.

Outro relato, também anônimo, deixa claro como a ideia de força, que é cobrada da mulher, se sobrepõe a inúmeros fatores e necessidades. “Uma das situações que mais me marcou foi quando amigos e parentes me cobraram ser forte diante de uma ameaça de despejo provocada pelo meu ex-marido. Não tive espaço pra me abalar porque eu precisava ser ‘forte’ em meio ao caos.”

A ideia da mulher guerreira, que é capaz de dar conta de tudo e consegue passar por cima de qualquer situação, leva em consideração apenas a necessidade de ser forte, excluindo por completo a mulher que precisa reagir a essas situações. Em muitas situações, a “mulher forte” não precisaria resistir tanto se as pessoas a sua volta fizessem o mínimo. 

A pequena história da mulher que nunca se desfez

“Quando se acumulam muitas coisas duras, é mais difícil se dissolver.” Se eu tivesse que escolher uma frase para amarrar todo o meu sentimento em relação ao mito da mulher que deve ser constantemente forte, seria essa. Uma mulher que une forças não apenas para se erguer, mas para garantir que todos ao seu redor não caiam.

Na ilustração “A pequena história da mulher que nunca se desfez”, a artista Gabriela Alves fragmenta as dores da mulher que nunca havia se permitido se dissolver em milhares de pedacinhos de si. 

Crédito: Gabriela Alves

Ao contrário do que nos é ensinado, se desfazer não é um sinal de fragilidade, pois é preciso muita força para reconhecer que nem sempre conseguimos carregar tudo. “Saber se desfazer das coisas e, mais do que isso, saber o momento de se desfazer delas é algo que nos faz mais fortes. Sinto que me torno cada vez mais madura e ocupo cada vez mais o meu corpo, ao passo que entendo e respeito os momentos em que não posso estar inteira e, portanto, preciso recuar ou ‘desfazer’”, conta Gabriela Alves.

A necessidade de “estar inteira” a todo momento nos impede de ver que foi preciso caminhar muito para chegar até este ponto e que cada uma de nossas vivências é fundamental, até mesmo as quedas. De acordo com Gabriela, a ilustração foi uma forma de ela se comunicar com suas próprias cobranças e dores em relação a se desfazer.

“Eu sempre vivi sob a pressão de me comparar com os outros e quase nunca me sentir boa o bastante, isso me levava a uma eterna competição comigo mesma e consequentemente a uma autopunição constante e um desconforto em vestir minha própria pele.” 

Ela ainda conta que a ilustração foi também uma espécie de alerta para si mesma. “Essa arte foi uma forma de gritar pra mim mesma que eu posso errar, que eu não preciso carregar o peso de cada falha de uma forma esmagadora, que as memórias difíceis não precisam me endurecer, que eu devo me desfazer de algumas coisas para continuar inteira.”

A missão de ser forte passa por lugares diferentes para cada mulher, mas o saber se desfazer se mostra necessário quando o peso da cobrança fica grande ao ponto de nos sufocar. Em “A pequena história da mulher que nunca se desfez”, a personagem se expande ao se ramificar e, como afirma a própria artista, se desfazer é “sobre deixar algo ir para que se mantenha o movimento constante da vida.”


Referências bibliográficas:

Mulheres são as que mais sofrem com acúmulo de tarefas e sobrecarga durante a pandemia

http://sppaic.fae.edu/sppaic/article/view/58#:~:text=A%20entrada%20da%20mulher%20no,aumento%20de%20casais%20sem%20filhos. https://www.scielo.br/j/prc/a/QKJzcmZ8cNJg39nwSgTm7QG/?format=pdf&lang=pt

Economia e trabalho


Camila Wendling

Estudante de jornalismo pela Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF), redatora e analista de marketing.