História Oral e Memória: significados e importância para a valorização das identidades e dos lugares

Revista Casa D’Italia, Juiz de Fora, Ano 3, n. 19, 2022 – Camila Gonçalves Figueiredo |  História Oral e Memória: significados e importância para a valorização das identidades e dos lugares


“Tempo e espaço têm na memória sua salvação. (…) Ambos são esteios das identidades. São suportes do ser no mundo. São referenciais que tornam os homens sujeitos de seu tempo.”

DELGADO, L.A.N. História oral e narrativa: tempo, memória e identidades. HISTÓRIA ORAL, 6, 2003, p. 9-25 

Para compreender a importância da memória e a sua estreita relação com a História Oral é preciso, antes de mais nada, entender o que vem a ser a História Oral. A História Oral é uma metodologia de pesquisa utilizada por inúmeros pesquisadores, com destaque para historiadores, antropólogos, sociólogos, psicólogos e cientistas políticos. Essa metodologia tem a finalidade de, a partir da realização e gravação de entrevistas, registrar, dentre as variadas possibilidades, as experiências e relatos de sujeitos que testemunharam fatos históricos, movimentos sociais, culturais, trajetórias pessoais e institucionais. Trata-se de uma metodologia de carácter multidisciplinar cujo emprego não está circunscrito apenas aos profissionais das ciências humanas e sociais. Muito pelo contrário, esse método possibilitou o enriquecimento de estudos relacionados tanto às histórias das elites quanto das minorias e dos marginalizados, como os estudos sobre gênero, sexualidades, classes trabalhadoras, religiosidades e tradições locais.

Por ser um método de pesquisa, o emprego da História Oral requer rigor técnico. De modo breve, é possível indicar algumas das etapas percorridas pelo pesquisador: leitura e estudo das principais obras que tratam do tema de pesquisa, escolha dos entrevistados, preparação do roteiro das entrevistas, agendamento e realização das entrevistas, transcrição dos depoimentos e análise do conteúdo das entrevistas. Os depoimentos coletados tornam-se fontes para a constituição dos estudos. Desse modo, a história utiliza-se da memória como fonte. Mas, afinal, o que é memória? 

Ao consultarmos qualquer dicionário de língua portuguesa, encontraremos como significado de memória a noção de que esta representa a reconstrução psíquica do passado, o relato das lembranças de experiências. Antes do registro da escrita, inúmeras sociedades recorriam à oralidade para a transmissão de valores e costumes entre as gerações, a partir do folclore, das lendas, das músicas, dos relatos, das poesias, das fábulas… 

A memória individual, como bem posiciona Michael Pollack, está entrelaçada à memória coletiva. Na medida em que o sujeito expõe o seu relato a respeito de um dado fato, impressões sobre sua experiência individual se mesclam às experiências coletivas. A memória é, pois, um elemento que contribui para a coesão social e para construção da identidade individual em um universo coletivo. De acordo com o historiador francês Jacques  Le Goff: “A memória, a qual cresce a história, que por sua vez a alimenta, procura salvar o passado para servir ao presente e ao futuro”. 

Atualmente contamos com inúmeros pesquisadores que fazem uso da Metodologia da História Oral em projetos e estudos. Mas nem sempre foi assim. A História Oral passou a ser adotada nos Estados Unidos, principalmente a partir da década de 1950, com a expansão do uso do gravador e devido ao interesse em registrar experiências dos sobreviventes às grandes Guerras Mundiais e das vítimas do holocausto, sejam eles judeus ou as minorias que também foram brutalmente exterminadas pelos nazistas. 

De acordo com as pesquisadoras Janaína Amado e Marieta de Moraes Ferreira, a História Oral desponta no Brasil a partir da década de 1970, com a criação do Centro de Pesquisa e Documentação da Fundação Getúlio Vargas. A partir da década de 1990, com a criação da Associação Brasileira de História Oral, houve significativa ampliação do espaço de discussão no cenário nacional, com a realização de eventos regionais e nacionais, além da introdução nos programas de graduação e pós-graduação de debates e desenvolvimento de projetos de pesquisas.

Importante pontuar que o emprego da história oral como subsidiária para os estudos históricos não se deu de maneira amena. Conforme explica Philippe Joutard, a história enquanto ciência se solidificou enquanto área/disciplina no século XVII, com enfoque no uso dos registros impressos. Sendo assim, a utilização da memória como fonte se pautou inicialmente na perspectiva do seu uso como complemento — ou, para os mais ácidos, como fonte de “segunda categoria”. Foi somente a partir do intenso debate sobre a sua contribuição para as várias áreas do conhecimento, aperfeiçoamento da técnica e realização de eventos internacionais — criação da Associação Internacional de História Oral na Suécia em 1996 —, que conferiu espaço e democratização para o aperfeiçoamento do método de trabalho e enquanto fonte para constituição de estudos. 

Ao recapitularmos o que são a História Oral e a memória, falaremos sobre a contribuição para a valorização das identidades e dos lugares. Muito embora a reconstrução da memória seja uma ação individual e detenha elementos particulares da vivência de cada sujeito, é inerente no processo de rememorar a exposição de fatos e acontecimentos vividos “por tabela”. Os chamados “fenômenos vividos por tabela”, conforme explica o sociológico Maurice Halbwachs, podem ter sido presenciados ou não pelos indivíduos que narram suas experiências. Para exemplificar nossa argumentação, podemos citar a ocorrência de um fato traumático, tal como o falecimento de um ente querido que estava sob um tratamento médico. A pessoa que relata essa perda pode ter sido munida de informações que subsidiem a descrição de todo o tratamento, com riqueza de detalhes, mas sem que necessariamente tenha testemunhado com seus próprios olhos todo o processo. A dor da perda e o impacto do falecimento contribui para que aquele momento fique marcado em suas lembranças e, ao recordar determinado contexto, suas impressões pessoais sejam intercambiadas ao evento experienciado pela coletividade, isto é, pela sua família e, essencialmente, por aqueles que acompanharam o parente que estava em seus últimos dias e relataram a rotina.

Algo semelhante ocorre com fatos históricos emblemáticos de âmbito nacional ou internacional, a exemplo dos relatos de sobreviventes de conflitos bélicos ou de eventos como a queda das torres gêmeas em 11 de setembro de 2001, na cidade de Nova Iorque, nos Estados Unidos. Não são poucos os relatos, tanto dos moradores da cidade de Nova Iorque, quanto de pessoas de outros países, que se recordam exatamente do que estavam fazendo no momento em que as torres gêmeas sofreram os ataques terroristas. Ao descreverem o acontecimento, ouvimos lembranças de um evento de natureza macro que “flutuam” em meio às experiências individuais, no universo micro de cada existência. Ainda no século XVI o poeta John Donne afirmou: “Nenhum homem é uma ilha”. E continuamos não sendo.

Novamente nos deparamos com o significado da memória: elemento importante na constituição das sociedades, tanto na formação do sujeito em seus valores morais, culturais, no repasse das tradições e costumes, a memória contribui para a formação de sentimento de identidade, ou seja na noção de pertencimento a um dado agrupamento social. Há detalhes coletados durante a realização de uma entrevista que dificilmente estarão registrados em documentos impressos. Particularidades das experiências individuais que, utilizadas como fontes, permitem ao pesquisador compreender o universo das relações cotidianas. O pesquisador analisa criticamente o relato mediante o intercâmbio de outras fontes que se complementam e dialogam entre si. Cada entrevista tende a contribuir com o “quebra-cabeça”, com uma versão dos fatos do objeto de pesquisa, seja ele um personagem, uma instituição ou um acontecimento.

Além de favorecer como fonte para a realização de estudos nos quais fatos e personagens históricos podem ser analisados, a memória nos permite compreender e registrar a relevância dos lugares de memória para a sociedade. Em seus estudos, Michael Pollak nos propõe refletir sobre o papel dos lugares em nossas lembranças. Os lugares podem nos marcar seja por meio de um vínculo cronológico, isto é, uma data importante, seja pelo estabelecimento das relações afetivas que podem congregar. Além disso, os chamados lugares de memória podem representar uma experiência real, a vivência de fatos públicos, ou se constituírem como locais em que se consolidam homenagens e comemorações. 

O historiador francês Pierre Nora afirma que “há locais de memória porque não há mais meios de memória”. No contexto de sua fala, Nora trata da massificação das informações e da mediatização da cultura. A intensa profusão de informações a que somos continuamente submetidos desponta na sociedade a necessidade de soerguer elementos que possam se tornar referência para as gerações futuras, como se fossem um tipo de “suporte de lembranças”. Os lugares de memória podem ser entendidos como uma herança simbólica, elo entre passado e futuro. 

Assim, os lugares de memória podem ser aqueles existentes e preservados, tais como os campos de concentração de Auschwitz, abertos à visitação justamente com o fito de promover a noção de relembrar para que nunca mais aconteça. Ou, ainda, aqueles edificados mediante a construção, como, por exemplo, memoriais, museus e estátuas em homenagem a personagens ou fatos históricos.

Sobre os locais de memórias, temos a Casa D’Italia Juiz de Fora, que, a partir de 1939, ano de sua inauguração, passou a atuar com a finalidade de prestar apoio e articular a comunidade de imigrantes italianos. Ao desenvolver ações de caráter social, cultural, educacional e de assistência às famílias dos imigrantes italianos na cidade, o local se tornou referência tanto para os imigrantes italianos, quanto para seus descendentes. Construído em estilo urbano e de traços retos, com o objetivo de expressar grandiosidade, o edifício é denotado de arquitetura clássica e urbana, tendência conhecida como Stile Littorio, que sofreu influência dos governos fascistas da Itália da década de 1930. Após 82 anos da sua abertura, a Casa D’Italia de Juiz de Fora tem o mérito de configurar-se como um lugar de memória pelo seu valor histórico arquitetônico e por ter sido erguido pelo desejo de preservar os laços e tradições das origens dos colonos italianos. Além disso, tornou- se local responsável pela realização de programas culturais ainda na atualidade. 


Referências bibliográficas:

FERREIRA, Marieta de M.; AMADO, Janaina; (org). Usos e abusos da história oral. Rio de Janeiro: ed. Fundação Getúlio Vargas, 1998.

HALBWACHS, Maurice. A memória coletiva. Tradução de Beatriz Sidou. 2ª ed. São Paulo: Centauro, 2013. 

JOUTARD, Philippe. Reconciliar História e Memória? Revista Escritos. Ano 01, n° 01, 2017, p.223-235.

NORA, Pierre. Entre memória e história: a problemática dos lugares. Projeto História, São Paulo, n.10, dez. 1993, p.7-28.

POLLACK, Michael. Memória e Identidade Social. Estudos Históricos, Rio de Janeiro, vol. 5, n. 10, 1992, p. 200-212. 


Camila Gonçalves Figueiredo

É Mestre e Doutora em História pela Universidade Federal de Juiz de Fora/UFJF. Editora de Livros com experiência na elaboração de material didático instrucional. Especialista em Administração Escolar, Supervisão e Orientação Educacional; Especialista em Educação a distância: Gestão e Tutoria em EaD e, Especialista em Inspeção Escolar e Atendimento Educacional Especializado (AEE). Tem experiência no desenvolvimento e coordenação de projetos de pesquisa e extensão a partir da Metodologia da História Oral com enfoque na valorização das memórias, dentre os quais o trabalho desenvolvido enquanto Coordenadora Executiva do projeto “História da UFJF” e estudos na pós-graduação. Desenvolve pesquisas relacionadas ao contexto do Brasil Republicano (1945-1964), com enfoque na atuação do Partido Comunista Brasileiro no estado de Minas Gerais, bem como na articulação do partido com os trabalhadores urbanos. Além disso, desenvolveu estudos sobre o contexto do Regime Militar Brasileiro (1964-1985), com publicações de artigos e dissertação com esta temática.