A Grande Beleza

Revista Casa D’Italia, Juiz de Fora, Ano 3, n. 19, 2022 – Daniel Giotti |  A Grande Beleza


“A grande beleza”, o imprescindível filme de Paolo Sorrentino, um dos melhores diretores da nova geração, ganhador por essa obra do Oscar de melhor filme estrangeiro em 2014 e que também dirige o irresistível “Juventude” e o sarcástico “Divo”, traz questões éticas a partir de uma procura estética.

A beleza, “a grande beleza”, estaria no fim da vida ou existe durante? É uma abstração para filósofos se preocuparem? Devemos tentar achar beleza em tudo?

Somos convidados a uma jornada juntamente com Jep Gambardella, o personagem humano principal do filme, um escritor bon vivant, famoso por um só romance e atormentado por isso.

Em meio a festas que lhe entediam, há um trabalho de jornalista que lhe dá pequenas satisfações, como se contrapor à atriz Talip Concept, que sequer sabe os conceitos com que trabalha, e às mulheres que ele tem e continua a ter por ter enquanto procura a grande beleza.

O personagem vive em Roma: existiria algum lugar mais bonito para se viver, na forma como ele vive?

Com outros personagens intrigantes e interessantes, em diálogos entremeados pela fofoca à italiana, percebe-se um tom de superficialidade nas pessoas, de falta de sentido à existência.

Estão lá dois senhores de seus sessenta anos, Romano e Lello, sem o glamour de Jep, é verdade, mas também jogando charme ou algo parecido com isso Roma afora; Stefania, uma escritora presunçosa e chique, que também faz a  figura de mulher prática e que não se importa com as traições do marido; Viola, uma rica senhora que tem um filho que só lhe traz problemas; a chefe de Jep, Dadina, que brinca com sua própria estatura, mexendo com o politicamente incorreto, e é casada com Sebastiano Paf, talvez o maior dos poetas italianos vivos, de quem se recitam os versos: “Viva a vida, abaixo as recordações”.

Sebastiano é calado. Já teria encontrado “a grande beleza” e se calado para todos? Existiria uma verdade objetiva sobre a grande beleza decifrável, sobre a qual quem encontra deve se calar?

Nada sabemos dele, pouco sabemos de sua esposa, quase nada sabemos sobre a origem ou mesmo como vão muitos dos personagens, como Ramona, que parece ter aquecido o gélido coração de Jep em dado momento.

Fala-se sobre tudo, sobre todos, sobre si como busca de uma essência perdida, mas a beleza é convidada a ser vista pelas lentes do diretor e pela preciosa trilha sonora, que combina música sacra, clássica, dance e belas canções italianas, a nos provocar o contraste entre passado, presente e futuro.

Ficamos com poucas citações da grande obra de Jep, “O aparelho humano”, que lhe garantiu o Prêmio Bancarella, mas ele talvez pudesse ser escrito por um transcritor inteligente do filme.

Um intertexto fabuloso não?

A fotografia do filme é belíssima, surgindo a cativante Roma no verão — seria Roma a personagem principal, com sua Fontana di Trevi, Piazza Navona, Vaticano, Coliseu, palacetes escondidos aos olhos comum, a cujo acesso um amigo de Jep garante a ele e a sua Ramona.

Entre esses privilegiados de Roma, um consenso, talvez o único: os melhores habitantes da cidade são os turistas, com o que concorda Orietta,  uma bela mulher de Milão que se encanta pelas curtidas e comentários de suas fotos no Facebook, em uma era pré-Instagram — e que enfada Jep, após tê-la em seus braços.

A beleza feminina pode completar um homem, beleza estendida no seu supremo sentido existencial.

O que Jep procura é o que viu em sua primeira namorada, o que Orietta não tem, Ramona quem sabe, Stefania talvez possa ter tido em algum momento, pois lhe pergunta se já transaram.

No transcurso do filme, a cidade é explorada, devorada, devassada. Padres, bispos e cardeais circulam pela cidade, e Jep vê que um cardeal, egocêntrico e que só fala sobre como prepara bem algum prato, não pode ter resposta para suas inquietações.

Freiras também aparecem, cuidando de crianças em orfanatos ou escolas, e até uma santa, que se cala também e sobre quem se diz ser aficionada pela única obra de Jep. Uma quase santa: bastaria morrer para ser canonizada.

Se esquecermos a religião, falando de algo mais tranquilo, a política, além do vizinho grande empresário mafioso procurado, a turma de Jep parece concordar que o marxismo, que existiria em Roma, deixou-lhes uma marca: a cidade é coletivismo puro. Queriam-na só para si?

O tema do machismo tem sua vez também, não só pela interpretação impecável de Toni Sevillo na pele de Jep, que pelo olhar, pelo sorriso e pelo jeito, mostra a mulher como mero objeto para seu deleite, além de vestir com ares modernos o figurino que coube à Marcello Mastroiani em “La dolce vita”, outro grande machista italiano.

Religião, futebol, comida, o que falta? O futebol, o cálcio, o único personagem que para mim deveria ter aparecido.

Jep flana por Roma, e Sorrentino aparece para mim rindo quando vejo a cena em que Romano, amigo de Jep, decide deixar Roma. Como assim um romano escolhe deixar Roma, eu me pergunto atônito. É a cidade da Itália onde sempre quis estar.

Vemos uma encantadora cena no filme quando dois homens choram pela morte de uma mesma mulher: a que foi fiel companheira para um, sem amá-lo; e a que nunca foi casada com o outro, mas sempre o amou.

O amor não se basta em si, precisa ser realizado, é claro.

Ao final, sabemos porque Jep não consegue escrever, incomodado por um objetivo que leva consigo e compartilhado de Flaubert, mas entre laivos de beleza me permito sugerir a ele os “Aprendimentos”, que extraio de belo poema de Manoel de Barros:

“os mestres pregavam que o fascínio poético vem das raízes da fala. Sócrates falava que as expressões mais eróticas são donzelas. E que a Beleza se explica melhor por não haver razão nenhuma nela. O que de mais eu sei sobre Sócrates é que ele viu uma ascese de mosca”.

Esta é “A Grande Beleza”, este é “A grande beleza”, um dos filmes de minha vida.


Daniel Giotti

É juiz-forano apaixonado, escritor, autor de versos e crônicas que estão nos livros “Inverso Direito” e “1981 Ficou marcado na história”. Também é jurista e professor de Direito com vários artigos e livros publicados na área. Escreveu, ainda, recentemente com Cleber Antunes o livro “Caridade e Firmeza: origem, rito e história”