Um respiro no presente e um suspiro do passado: A Associação Cultural e Beneficente Ítalo-Brasileira Anita Garibaldi – “Casa de Anita

Revista Casa D’Italia, Juiz de Fora, Ano 2, n. 18, 2021 – Letícia Bedendo | Um respiro no presente e um suspiro do passado: A Associação Cultural e Beneficente Ítalo-Brasileira Anita Garibaldi – “Casa de Anita”


O processo de formação da paisagem urbana de Juiz de Fora contou com a influência de uma parcela significativa de imigrantes italianos e alemães, que desde o século XIX deixaram sua marca na cultura e na arquitetura local. A chamada Casa de Anita, localizada na região do Mergulhão da Avenida Rio Branco, é um exemplar da resistência da população italiana recém-chegada ao Brasil nos primeiros anos do século XX, mas também traz na sua bagagem histórica uma série de usos distintos e em adaptação às necessidades da sociedade como um todo.

A Avenida Rio Branco se configura como um espaço singular no contexto de Juiz de Fora desde o início da ocupação do território. Assim denominada por força da Resolução 672 de 18 de outubro de 1912, a avenida originalmente era chamada de Rua Direita, nome dado à principal rua das cidades, vilas e arraiais mineiros, sendo ainda a mais antiga estrada de rodagem da região. Vai do Largo do Riachuelo até o bairro Alto dos Passos e, de acordo com o relato de Azevedo (1889), “é tão larga como os boulevards de Paris, e mais extensa que qualquer deles.” Segundo Genovez (1998), por acreditar-se que lugares mais altos tinham o ar mais puro e, portanto, menos doenças, a burguesia do princípio do século XX se instalou na região da Rua Halfeld em direção ao Alto dos Passos, enquanto que o proletariado situava-se ao lado oposto. Barbosa (2013) lembra que as políticas de infraestrutura obedeciam uma lógica diferente do que se é determinado nos dias atuais:

É importante destacar que até 1892 não é possível falar em políticas públicas urbanas, os serviços urbanos essenciais não eram responsabilidade das Câmaras Municipais, sendo a maior parte resultado da iniciativa particular, o que faz com que esses serviços estejam em consonância com um consumo privilegiado, sem conexão com um caráter público. A ação pública, por sua vez, estava mais preocupada em direcionar seus recursos para os embelezamentos urbanos. (BARBOSA, 2013, p. 74)

Em vista disso, na parte baixa da Avenida Rio Branco, surgem bangalôs, fábricas e casas de aluguel, justamente por ser uma área de mais fácil alagamento e, portanto, de menor valor. Não se pode dizer, contudo, que o espaço destinava-se a pessoas de baixa renda; apenas, salvo raras exceções, não tinham ligação com as famílias mais tradicionais relacionadas aos barões de café.

No Brasil, de modo geral, a presença de imigrantes italianos e alemães se intensificou durante a segunda metade do século XIX, quando o Governo Imperial promoveu a Política Imigratória. Em Juiz de Fora, o primeiro impacto significativo da imigração aconteceu durante a construção da Estrada União Indústria, em meados do século XIX, com a vinda de mão de obra alemã e, em um segundo momento, entre o final do século XIX e início do século XX, dos italianos (PEREIRA, 2010).

Ainda segundo a autora, em 1887, cafeicultores e industriais organizaram a Sociedade Promotora da Imigração em Minas Gerais, tendo como objetivo a introdução e o estabelecimento de imigrantes na província, sendo Juiz de Fora a cidade escolhida para centro do serviço de imigração. Bertante (2015) acrescenta que, no final do século XIX, houve a criação da Hospedaria Horta Barbosa, marcada por uma vasta presença de pessoas vindas da Itália. A hospedaria foi criada em 1888 e encerrou suas atividades em 1906 e, durante esse período, documentou a passagem de grande parte dos italianos que chegavam ao país. Parte dos imigrantes desembarcados nos portos do Rio de Janeiro iam para a hospedaria, onde eram sediados e registrados. De um total de 24.572 registrados, 2.804 permaneceram em Juiz de Fora, direcionando-se para trabalhos em zona rural e zona urbana, esta que recebia mão de obra especializada para o trabalho no crescente número de indústrias.

Livro de Registro de Entrada de Imigrantes na Hospedaria Horta Barbosa. 
Fonte: http://familiafazzion.blogspot.com.br/2016/10/hospedaria-horta-barbosa-de-juiz-de.html.

A permanência italiana no município tendenciou o surgimento de locais voltados ao associativismo, como é o caso da Casa de Anita. Os desafios na adaptação de uma nova cultura, língua e clima provocaram a necessidade de união das populações vindas de regiões diferentes, mas que unidas formaram uma identidade italiana. 

A procura por respostas a essas questões começaram a aparecer junto a leituras sobre a imigração italiana na cidade de Juiz de Fora. Essas leituras mostraram que muitos desses imigrantes procuravam se associar a grupos filantrópicos ou de ajuda mútua, em busca de uma estabilidade e uma melhor adaptação à nova realidade (BERTANTE, 2015, p. 6).

A presença italiana na cidade de Juiz de Fora se estende de forma significativa na área da construção civil. A cidade, até os dias de hoje, apresenta, no seu perímetro urbano, a forte presença das construções projetadas e/ou construídas pelas empresas desses imigrantes ou de seus descendentes, tanto nos pontos mais centrais, como também nos bairros mais afastados. Muitos desses edifícios fazem parte da lista de bens tombados de Juiz de Fora, o que sugere o quanto a arquitetura de influência italiana está imersa na história da cidade. De fato, a principal empresa de origem italiana no ramo foi a Pantaleone Arcuri, sendo ela, com o tempo, a maior construtora da cidade até o início do século XX (OLENDER, 2014). A companhia tinha o papel de, assim como várias empresas do setor que eram dirigidas por imigrantes italianos, servir de porta de entrada e estabelecimento para outros profissionais da mesma origem.

Durante a II Guerra Mundial, com a ascensão de Getúlio Vargas ao poder e a instauração do Estado Novo, instaurou-se um endurecimento por parte do governo brasileiro contra manifestações culturais italianas. Dentre as medidas de restrição, estava a proibição do uso do idioma italiano publicamente e de saudações ligadas à pátria, fazendo com que as associações italianas se tornassem pontos de refúgio da cultura imigrante (FERENZINI, 2007, p. 8). 

A edificação hoje conhecida como Casa de Anita tem sua história iniciada com a fundação da Associação Beneficente dos Irmãos Artistas, em maio de 1908. Com 25 sócios, a finalidade era socorrer seus associados em diversos casos, como doenças, invalidez e auxílio aos necessitados. Foi fundada e era mantida por operários, só admitindo pessoas do sexo masculino. Seu quadro social era composto por tipógrafos, carpinteiros, pintores, metalúrgicos, cozinheiros, dentistas, entre outros. Os membros faziam reuniões cujos assuntos eram diversos, mas a carência de recurso financeiro era sempre um destaque. 

A associação, que permaneceu sem sede por muitos anos, em 1925 adquiriu um terreno na Avenida Rio Branco, o que motivou os membros a colocarem como prioridade a construção de um espaço físico destinado às atividades. Assim, festas e jogos eram promovidos para sua manutenção e, com os benefícios e donativos, foi construída uma sede definitiva. O orçamento ficou em doze contos e quatrocentos mil réis e a firma Jacob Kneip ficou responsável pela construção da edificação, que foi inaugurada em 17 de outubro de 1926. O projeto englobava a construção de um salão de 7,85m x 6,50m, paredes de alvenaria, pé direito de 4,20m e cobertura em telhas francesas. A edificação foi inserida em um terreno retangular de dimensões 11m x 27m, com afastamento em todas as faces do terreno. 

Inauguração da Casa de Anita, na época sede da Associação Beneficente dos
Irmãos Artistas, 1926. Fonte: http://casadeanitajf.blogspot.com.br/2011/10/associacao-cultural-e-beneficiente.html.

A maior parte da ornamentação do edifício ficou concentrada na sua fachada principal, contendo elementos ligados à benevolência, filantropia e caridade, como uma estátua de uma mulher com uma criança no colo e outra nos pés, simbolizando a proteção materna, tal qual a associação deveria garantir aos filhos-sócios em todos seus momentos de vulnerabilidade. A Irmãos Artistas atuou fortemente no município, passando pela crise da década de 1920 e decretando falência no fim da década de 1940, em um contexto do desenvolvimento de políticas públicas voltadas para a seguridade e ao atendimento à saúde, bem como do surgimento de seguradoras. 

No ano de 1946, foi fundada a Associação Cultural Beneficente Ítalo-Brasileira Anita Garibaldi, cuja finalidade era a mesma que a Associação Beneficente dos Irmãos Artistas e que contava com 420 sócios, dentre brasileiros e imigrantes italianos. Ela não apresentava sede, o que motivou a proposta de fusão das duas entidades pelo então presidente da Associação Irmãos Artistas, Antônio Scanapieco. Assim, em 1951, a edificação passou a pertencer à Associação Cultural Beneficente ítalo-Brasileira Anita Garibaldi, que permaneceu até o encerramento das atividades da associação, em 1960, por motivos desconhecidos. A casa, que sediou aulas de música ou até mesmo reuniões de outras associações, então encontrou-se em estado de abandono, permanecendo apenas um zelador como responsável.

Na década de 1990, foram iniciadas atividades de ampliação e reforma da casa, que foi reinaugurada em 1995. O que se tem de registro é que, até esse momento, a casa tornou-se um espaço destinado a diversas manifestações culturais, contando regularmente com eventos como shows musicais, cursos, apresentações teatrais, palestras e exibições, como de grupos punk e anarquista de Juiz de Fora.

Show punk sediado na Casa de Anita, década de 90. 
Fonte: http://casadeanitajf.blogspot.com/2012/01/eventos-realizados-na-casa-de-anita-nos.html

O tombamento a nível municipal aconteceu em 1999, pelo decreto 6466 e processo número 0014/97, objetivando a preservação da sua volumetria e fachada. Apesar de sua importância sócio-cultural, o local encontra-se hoje em estado de abandono pelo poder público, dependendo apenas da iniciativa de voluntários para que haja a manutenção de cursos de música que atendam a população local. Com a ampliação no número de prédios na Avenida Rio Branco e o crescente volume de veículos que passam pelo Mergulhão diariamente, o trecho onde localiza-se a Casa de Anita hoje é um ponto crítico na malha do centro urbano. Marcado por muitos trechos murados, pouca mescla no uso e ocupação do solo e pela predominância dos sistemas viários em detrimento dos pedestres, faltam ações para a manutenção da vida na região, como implantação de iluminação noturna, fazendo com que o entorno vire uma região hostil para permanência e ocupação da edificação. 

O caso da Casa de Anita traz à tona a necessidade de se entender o patrimônio material como parte de um conjunto espacial e histórico, cuja importância depende de ações de educação patrimonial acerca do passado, como também de estímulo a apropriações no presente. A casa protagonista deste artigo é um respiro na malha urbana em meio a vida agitada do cotidiano, um vestígio de nossa história que por muitos anos se adequou às necessidades da população local, e, por isso, traz tantas marcas afetivas em diversas gerações juizforanas. 


Referências bibliográficas:

ARQUIVO DORMEVILLY NÓBREGA. Arthur Azevedo – Carta a um amigo: Três dias em Juiz de Fora, 27/03/1889. Publicada no Jornal Novidade

BARBOSA, Yuri Amaral. O processo urbano de Juiz de Fora–MG: Aspectos econômicos e espaciais do Caminho Novo ao ocaso industrial. Monografia-Faculdade de Geografia, UFJF, Juiz de Fora, 2013.

BATISTA, Caio da Silva. O poder público e os cativos urbanos na Zona da Mata mineira: Juiz de Fora, segunda metade do século XIX (1850 – 1888). Anais do XV Encontro Regional de História da ANPUH – RIO, 2016. 

BERTANTE, Rafael de Souza. O Associativismo Italiano em Juiz de Fora: Memória e Sociabilidade. XVIII Simpósio Nacional de História. Florianópolis, 2015.

Blog Ricardo Arcuri. Estrada União e Indústria. Disponível em <http://www.ricardoarcuri.com.br/jfora/uniao/index.html>&nbsp;

COLCHETE FILHO, Antonio Ferreira; RIBEIRO, Tiago Goretti; NASCIMENTO, Victor Hugo Godoy. Transformações urbanas em Juiz de Fora/MG: a Avenida Barão do Rio Branco e a história da cidade. REDES: Revista do Desenvolvimento Regional, v. 22, n. 1, p. 162-183, 2017.

DEMOGRÁFICO, IBGE Censo. Disponível em: http://www. ibge. gov. br.

FABRIS, Annateresa. “ O Ecletismo à luz do modernismo”. In: FABRIS, Annateresa (org.) Ecletismo na arquitetura brasileira. São Paulo: Nobel/Edusp, 1987, p.283. 

GENOVEZ, Patrícia Falco. Núcleo Histórico da Avenida Barão do Rio Branco (Parque Halfeld e Largo do Riachuelo). Nota prévia de pesquisa. Juiz de Fora: Clio Edições Eletrônicas, 1998.

JUIZ DE FORA. Decreto nº 6466 de 16 de junho de 1999. Publicado no Tribuna de Minas em 17 de junho de 1999.  BLOG MAURÍCIO RESGATANDO O PASSADO.

PEREIRA, Lígia Maria Leite. Imigração Italiana e Desenvolvimento em Minas Gerais. Revista de Imigração Italiana em Minas Gerais. Recife, 2010. 

PREFEITURA, DE JUIZ DE FORA. Plano diretor de desenvolvimento urbano de Juiz de Fora. FUNALFA Edições, 2004.

OLENDER, Marcos. A Contribuição da Imigração Italiana na Consolidação da Paisagem Urbana de Juiz de Fora. Belo Horizonte, 2014. 

VISCARDI, Cláudia M. R. e OLIVEIRA, Mônica R. de.(orgs.) A margem do caminho novo: experiências populares em Juiz de Fora. Rio de Janeiro: FGV, 2011. ARQUIVO DORMEVILLY NÓBREGA. Arthur Azevedo – Carta a um amigo: Três dias em Juiz de Fora, 27/03/1889. Publicada no Jornal Novidade


Letícia Bedendo

Arquiteta Urbanista graduada pela Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF) e mestranda no Programa de Pós-Graduação em Arquitetura e Urbanismo da Universidade Federal de Minas Gerais (NPGAU-UFMG). Atualmente, trabalha profissionalmente como ilustradora e tem como foco de estudo a formação dos espaços urbanos de Minas Gerais, especialmente da cidade de Diamantina.