Cervejas especiais para quem aprecia bons vinhos

Revista Casa D’Italia, Juiz de Fora, Ano 2, n. 18, 2021 – Mariana Pena |  Cervejas especiais para quem aprecia bons vinhos


Um jantar importante, uma comemoração, um final de semana com um clima mais friozinho pedem um bom vinho, não é?! Os vinhos são uma ótima opção para proporcionar momentos gostosos em volta da mesa. Eles geram harmonizações interessantes com vários pratos e trazem no aroma e na boca aspectos frutados, amadeirados, de couro, taninos que podem ser suaves ou marcantes, etc. Mas, quando falamos de gastronomia, as combinações e as experiências sensoriais são capazes de gerar inúmeras possibilidades aprazíveis. Então por que se limitar sempre ao mesmo universo de sabores dentro da taça? 

Colorado Ithaca (Cervejaria Colorado) – Foto: Mari Pena

Se você é amante dos vinhos, garanto que as cervejas especiais também podem lhe proporcionar experiências incríveis e sabores perfeitamente bem harmonizados com seus momentos especiais. O universo das duas bebidas tem características muito semelhantes. Ambas são milenares, apresentam grande variedade de estilos, rótulos e nacionalidades, têm uma forte relação com a cultura europeia e seus ingredientes variam com o “terroir” (no caso das cervejas, o clima e o solo influenciam na qualidade e no perfil dos cereais, dos lúpulos e até mesmo da água). E safra? É exclusividade do mundo dos vinhos? Nada disso. Também existem cervejas safradas e os valores de garrafas de séries limitadas e raras podem chegar a várias centenas de reais. 

Para começar a apreciar as cervejas especiais, é importante se desvincular da ideia da cerveja como sendo “a loura gelada”: cerveja popular, dourada, com espuma branquinha e servida estupidamente gelada com o objetivo de refrescar. A cerveja especial vai muito além disso: são mais de 150 estilos certificados no mundo com sabores que podem trazer características herbais, florais, frutadas, cítricas, amadeiradas, ácidas/azedas, dentre outras. Isso porque, além da receita clássica com água, malte, lúpulo e levedura — que gera cervejas com perfis bem distintos, pois existe grande diversidade desses ingredientes —, as cervejas também podem receber adição de café, chocolate, flores, especiarias, grãos, frutas, demais adjuntos, e passar por longos períodos em barricas de madeira. 

Belgian Quadruppel (Cervejaria Leopoldina) Foto: Mari Pena

Por falar nas barricas e ampliando ainda mais os horizontes, as cervejas especiais podem ser maturadas em barris de carvalho e amburana que contiveram outras bebidas anteriormente, tais como conhaque, rum e uísque. Elas agregam às cervejas notas não só da madeira, mas também das bebidas que ali repousaram anteriormente. Não precisa nem dizer que o resultado traz sabores bem diferentes daquelas cervejas que nós, brasileiros, costumávamos tomar em grandes volumes, não é? 

Quando o assunto é envelhecimento, a clássica frase “com o passar dos anos, os vinhos ficam melhores” não é uma verdade absoluta apenas para o mundo das bebidas produzidas a partir das uvas viníferas. Alguns estilos de cerveja, as chamadas “cervejas de guarda”, também ganham mais complexidade de aroma e sabor com o passar do tempo, desde que bem conservadas na posição vertical, em locais isentos de luz e de cheiros fortes. Cervejas de estilos que tenham alto teor alcoólico (acima de 8%), escuras, com elevada carga de maltes, refermentadas na garrafa, que passaram por barricas e com bom residual de açúcar, são boas candidatas para a “guarda”. Aquelas defumadas e com ácido lático também costumam performar bem no envelhecimento.

Cervejas especiais – Vitis Ale (Cervejaria Leopoldina e Zoz), Bourbon County (Goose Island) e Reserva (Dama Bier) Foto: Mari Pena

Para as pessoas interessadas em aumentar o repertório sensorial e conhecer o universo das cervejas especiais, sugerimos aqui alguns estilos que trazem afinidade com os vinhos:

Barley Wine: um dos estilos que mais se aproxima dos vinhos, sobretudo do sabor intenso e adocicado do vinho do Porto (“barley wine” na tradução literal significa “vinho maltado”). É uma cerveja encorpada, complexa, com elevado teor alcoólico e alta carga de maltes especiais. Seus aromas e sabores remetem ao toffee, caramelo, frutas passas, madeira e vinho. O teor alcoólico também se assemelha ao dos vinhos, aproximando-se dos 12%.

Catharina Sour: nosso primeiro estilo brasileiro de cervejas. Frutada e bem refrescante, essa cerveja combina muito bem com praia e piscina (assim como os vinhos brancos e rosés). Ela é bem leve, tem baixo amargor, tem presença de acidez e adição de frutas frescas. A vantagem: seu teor alcoólico mais baixo (variando entre 4 e 5,5%)  favorece o consumo durante os dias de calor.  

Bière Brut: parece champagne, mas é cerveja. Até mesmo as garrafas desse estilo são como as de champagne: imponentes, com 750ml, e arrolhadas. A taça de serviço é a flauta, também utilizada para espumantes. Essa cerveja passa por uma segunda fermentação na garrafa, através do método champenoise,resultando em uma bebida leve, delicada, elegante, bem refrescante e com elevada carbonatação (formando aquelas bolinhas de champagne chamadas perlage). Tem amargor médio e acidez presente.

Grape Ale: o universo dos vinhos e das cervejas pode se aproximar de tal forma que é possível fazer uma bebida híbrida. A Grape Ale é produzida através do processo cervejeiro com adição de uvas viníferas na etapa de fermentação ou maturação. Uvas Pinot Noir e Chardonnay são bastante utilizadas nessas criações. As Grape Ales ou Italian Grape Ales tiveram origem na Itália, devido a grande variedade de uvas em todo o país. 

Cervejas que passaram por barricas de madeira: gosta das características que a madeira entrega para a bebida? Experimente cervejas que passaram por barricas durante seu processo de maturação. Estilos potentes como Imperial Stout, Tripel e Strong Ale são boas pedidas. Elas apresentam corpo elevado, alto teor alcoólico e geram bom aquecimento na garganta. As Lambics e Barrel Sours trazem um perfil mais ácido/azedinho e são uma experiência interessante a cada gole (muitas pessoas não conseguem acreditar que é cerveja!). 

Importante: não confunda “chopp de vinho”, bebida que vem se tornando popular no Brasil, com estilo de cerveja. 

Para saber mais sobre sabores dentro da taça, siga o Instagram maribeerlover.etc. Lá você tem acesso a bastante conteúdo sobre bebidas especiais para criar e brindar bons momentos bebendo menos, melhor e com responsabilidade. Saúde!


Referências bibliográficas:

BEER JUDGE CERTIFICATION PROGRAM. The BJCP Style Guidelines, 2015.

MORADO, Ronaldo. Larousse da Cerveja. São Paulo. Alaúde Editorial, 2017. 

MOSHER, Randy. Tasting Beer. 2 ed. North Adams: Storey Publishing, 2017. 

OLIVER, Garrett. A mesa do mestre cervejeiro. São Paulo: Editora Senac, 2012.

Associação Brasileira de Bebidas: www.abrabe.org.br

Associação Brasileira de Cerveja Artesanal: www.abracerva.com.br

Rate Beer: www.ratebeer.com


Mariana Pena

Uma jornalista encantada pelo universo das cervejas e das bebidas especiais que produz conteúdo sobre o assunto desde 2013. Através da enorme curiosidade e da paixão pelo entretenimento, viagens, culturas e sabores, compartilha conhecimento no instagram @maribeerlover.etc a fim de brindar momentos especiais e colecionar boas memórias.  É Beer Expert pelo Science of Beer, tem workshops de vinhos pelo CIAS Innovation, um MBA em Marketing pela UFJF e um MBA em Negócios pela London School of Business and Finance, em Londres, onde a relação com a cultura cervejeira começou.