Prendas domésticas, comerciantes e rabinos: breve histórico sobre a imigração judeoitaliana para o Brasil

Revista Casa D’Italia, Juiz de Fora, Ano 2, n. 18, 2021 – Washington F. Londres |  Prendas domésticas, comerciantes e rabinos: breve histórico sobre a imigração judeoitaliana para o Brasil


Os judeus configuraram-se por muito tempo como um povo sem nação e, desde sua última grande diáspora, ocorrida entre os anos 40 e 70 d.C., espalharam-se por quase toda a extensão do norte da África, da Europa e da Ásia.

Em seu passado histórico viveram em meio às grandes civilizações do mundo antigo, percorrendo momentos gloriosos. No entanto, também não lhes faltaram fases tempestuosas que foram amplamente relatadas por seus escribas e profetas, fazendo das velhas Canaã e Judeia o centro do seu mundo. Com o passar do tempo, todos esses registros acabaram por lhes dar o título de “povo do livro”, podendo ser considerados, talvez, como os únicos a mencionar em seus textos históricos os termos: a.e.c (antes da era comum) e d.e.c (depois da era comum), em nítida oposição ao marcador temporal utilizado pelo ocidente.

Com a consolidação da diáspora judaica no primeiro século, centenas de comunidades foram se formando ao longo do Mediterrâneo e se espalhando continente adentro, geralmente guiadas por caravanas nômades. Conforme a Europa ia se organizando socialmente, os judeus também o faziam de forma paralela; suas relações iniciais eram sóbrias e basicamente ligadas ao comércio de especiarias, tecidos ou animais. 

Ao longo dos anos, dividiram-se entre vários subgrupos, dentre os quais os mais significativos são os “sefaradim” e os “asquenazim”. Os sefaradim, ou sefarditas, eram os judeus que historicamente se fixaram em Portugal e na Espanha; o termo vem da palavra hebraica “Sefarad”, que faz referência a toda a Península Ibérica. Caracterizaram-se basicamente pelo desenvolvimento de habilidades comerciais distintas, além de terem desenvolvido um dialeto próprio chamado ladino, que reúne, em suas palavras, termos do hebraico, do árabe e formas medievais das línguas portuguesa e espanhola.

Concomitante a esse período surgem também os asquenazim. O termo deriva da palavra hebraica “Askenaz” e faz referência ao centro da Europa, em especial ao território que compreende hoje a Alemanha e seus países circunvizinhos. São culturalmente distintos dos demais judeus, com tradições particulares e uma vasta cultura baseada no  iídiche, língua que se formou a partir de palavras hebraicas e de porções arcaicas do alemão e polonês e que não servia apenas como um dialeto, mas principalmente como um selo de identidade, garantindo a esse grupo uma vasta produção literária que durou energicamente por séculos e sustentou movimentos religiosos, políticos, teatrais e jornalísticos.

Voltando um pouco mais no tempo, em especial na Idade do Ouro que perdurou entre os anos 711 e meados do século XII, as comunidades judaicas ibéricas fizeram parte das significativas produções artísticas e científicas da época, junto de seus vizinhos árabes muçulmanos e cristãos. Contudo, mas com o advento do catolicismo, essa parceria começa a perder força até seu pleno declínio, culminando nos tribunais do Santo Ofício organizados pelas gestões da Igreja Católica da época. A inevitável turbulência contribuiu para anos de perseguições, expulsões, conversões forçadas e uma dinâmica movimentação da comunidade judaica entre a Península Ibérica, a Península Itálica e os Balcãs.

A fixação de comunidades judaicas na Itália deriva de vários fluxos imigratórios que convergiram até a Península Itálica; e é muito comum encontrarmos, ainda hoje, grupos inteiros que dizem pertencer a comunidades que precederam a própria Roma ou que a viram crescer. Entretanto, é notório que muito dos judeus que viveram na Itália derivavam do período imperial de Roma, que teve como um de seus maiores desafios a dominação plena da própria Judeia, tanto que há um monumento chamado Arco de Tito, que possui uma iconografia que mostra episódios da história das conquistas romanas. Esse monumento próximo ao Fórum foi erguido pelos romanos para celebrar sua vitória sobre a Judeia e em seus baixos-relevos é possível ver prisioneiros judeus trazidos como escravos, carregando os utensílios do seu antigo templo e deixando notória a influência da cultura romana em sua antiga nação, como as cidades de Tiberíades, Acro e partes de Asquelon, ainda hoje de pé.

Ao longo dos anos, os judeus italianos deram para si o nome de “Italki”. O termo parece ser uma corruptela do hebraico usada para designar esse grupo que diz não possuir origens sefarditas ou askenazitas, muito embora se saiba que partes dessas comunidades derivam de fluxos migratórios vindos da Líbia e da Alemanha que chegaram até a Itália e que, muito provavelmente, podem possuir, sim, essas origens. Suas maiores concentrações foram nas cidades de Roma e nas regiões de Gênova, Torino, Gorizia e Florença; eram indistinguíveis dos demais italianos, exceto por algumas restrições comerciais que os impediam de adquirirem grandes porções de terras, levando-os aos ofícios de sapataria, alfaiataria, doceria e prestações gerais de serviços.

O hebraico foi, por muitos anos, uma língua restrita apenas aos ofícios religiosos. A comunidade se comunicava pelo dialeto chamado “italkian”, que era uma junção de palavras baseadas em um hebraico rudimentar e termos italianos, e um dos seus mais destacados membros foi o rabino Moshe Chaim Luzzatto, que viveu entre os anos de 1707 e 1746 e contribuiu para a literatura religiosa e ética.

A vida deste grupo foi, durante muitos anos, sóbria e quase imperceptível às demais comunidades judaicas do resto do mundo, a não ser por um momento ou outro de atividades antijudaicas muito ainda ligadas a resquícios da inquisição e que costumavam aflorar principalmente nas regiões mais interioranas. Um fato histórico, porém, marcaria por definitivo a presença judaica na Itália — na verdade por toda a Europa —, fato esse que foi sustentado pela ascensão no nazifascismo entre os anos de 1919 e 1945. Nesse período, dezenas de sanções foram impostas aos grupos de minoria ou opositores ao governo. E, muito embora os judeus somassem por volta de cinquenta e sete mil pessoas, entre homens, mulheres e crianças, em toda Itália, havia descrições específicas que sustentavam a ideia de perseguição aos judeus italianos e estrangeiros refugiados a partir de 6 de outubro de 1938, organizadas pelo Grande Conselho do Fascismo, tornando insustentável a continuidade dos judeus ou de qualquer outro grupo não apreciado na Itália.

A saída de judeus da Itália naquele momento era necessária, principalmente para garantir a sobrevida, e muitos países chegaram a receber esse contingente de pessoas, dentre os quais Espanha, Portugal, Argélia e Líbia. A proximidade geográfica e a afinidade política, no entanto, favoreciam muitas deportações, de modo que não foi possível evitar a ideia de migrarem para as Américas, em especial para o Brasil.

Anna Rosa Campagnano, em sua obra “In difesa della razza”, publicado em 2011, relatou com detalhes a chegada de mais de duzentas pessoas, entre homens, mulheres e suas crianças, em território brasileiro entre os anos de 1938 e 1945, todos eles judeus refugiados do nazifascismo e que, inevitavelmente, não deixaram de se chocar com as restrições impostas por Getúlio Vargas, o então presidente da época. Getúlio realizou duras críticas e restrições à entrada de estrangeiros alemães e italianos, principalmente se fossem de origem israelita, sendo que estes, em especial, eram considerados indesejáveis para ingressar no país, ainda que tenham ocorrido flexibilizações e muitas famílias tenham conseguido acessar o Brasil.

In Difesa – Capa Livro

As maiores representações imigratórias de judeus italianos no Brasil foram nas cidades de São Paulo e Rio de Janeiro, mas muitas outras famílias se espalharam por outras cidades brasileiras. Na amostragem dos vistos deferidos pelo Itamaraty entre os anos de 1938 e 1941, nota-se a grande concentração de prendas domésticas, título usado para o registro de mais de cinquenta mulheres que deram entrada no país naquele momento. Outro termo frequentemente encontrado foram os comerciantes, a grande maioria formada por homens. Há também registros de profissionais liberais, industriários, estudantes e a curiosa emissão de entrada de Ricardo Pacifici, o único rabino mencionado nos registros. No Brasil, a vida desses judeus de origem italiana se misturou com os demais judeus que já estavam no país; o comércio de porta em porta ou a prestação de serviços domésticos foram seus principais ofícios de entrada. Desfrutavam de uma vida comunitária difícil, como para todo imigrante no começo, mas aos poucos foram se integrando à sociedade brasileira.

Lista de entrada Deferido – Fragmento livro In difesa della razza

Geralmente se juntavam mais aos patrícios italianos do que aos judeus de outras origens e contribuíam ativamente para a manutenção de clubes e confrarias ítalo-brasileiras, como a Fascio Filippo Corridoni em São Paulo ou com o Jornal Fanfulla, que era o principal jornal de imigrantes italianos da época. Muitas vezes eram contrariados, pois era inevitável que tanto os clubes quanto algumas edições do jornal fizessem homenagens ou exaltações à Itália e a seu período sombrio de política. As famílias geralmente se casavam entre si e formavam núcleos sólidos como os Mopurgo, Del Veccio, Faldini, Dal Seno, Tedeschi, além dos habituais Cohen, Levi e Foà. Com o passar do tempo, muitos se tornaram tão ativistas das suas colônias que são indistinguíveis de seus patrícios.

Familia Levi Morpurgo – Acervo: Marília Levi Friendenson

A Biblioteca Hebraica de Juiz de Fora recebeu em seu acervo uma coleção de jornais da comunidade judaico-italiana produzida entre os anos de 1948 e 1972 e está organizando o material para futura exposição, contando com o apoio especial de Marina Lemle para detalhamentos sobre os jornais. Enquanto isso, continuamos com as pesquisas e levantamentos de possíveis nomes dos judeus italianos que vieram para cidades de Minas Gerais.


Referências bibliográficas:

BELOCH, Israel, et al. Dicionário dos refugiados do nazifascismo no Brasil. Petrópolis, Exlilio Editora, Casa Stefan Zweig, 2021.

CAMPAGNANO, Anna Rosa. In Difesa della Razza: Os judeus italianos refugiados do facismo e o antissemitismo do Governo Vargas, 1938-1945. São Paulo, EDUSP, 2011.

KESTLER, Izabela Maria Furtado. Exílio e Literatura: escritores de fala alemã durante a época do nazismo. São Paulo, EDUSP, 2003.

UNTERMAN, Alan. Dicionário judaico de lendas e tradições: Rio de Janeiro, Jorge Zahar Ed., 1992.

WOLFF, Egon; WOLFF, Frieda. Dicionário Biográfico IV. Processos de Naturalização de Israelitas. Século XIX. Rio de Janeiro, 1987. 


Washington F. Londres

Professor. Diretor Acadêmico da Biblioteca Hebraica. Consultor em Reabilitação Física e História da Saúde. Mestrando em História (UFJF).