As africanidades e suas representações no acervo do Museu Mariano Procópio

Revista Casa D’Italia, Juiz de Fora, Ano 2, n. 18, 2021 – Aloysio de Paula Gerheim, Eduardo de Paula Machado, Priscila da Costa Pinheiro, Rosane Carmanini Ferraz, Sérgio Augusto Vicente |  As africanidades e suas representações no acervo do Museu Mariano Procópio


Sabemos que os chamados museus históricos enfrentam inúmeros desafios quando o assunto é se abrir ao diálogo com os diferentes grupos sociais e as múltiplas identidades brasileiras, ainda muito silenciados por narrativas e discursos canônicos e colonizadores. Na tentativa de estabelecer esse diálogo, o Museu Mariano Procópio vem se empenhando de diversas maneiras, não obstante as dificuldades enfrentadas. Acompanhando esse processo ressemantizador, a instituição produziu um vídeo (https://youtu.be/qUl6mllmoGQ) com cinco obras de arte relacionadas aos aspectos das africanidades presentes na sociedade brasileira. Para além das comemorações do “Mês da Consciência Negra”, o objetivo dessa ação consistiu em aprofundar e consolidar abordagens acerca de representações de sujeitos históricos negros e negras, suscitando reflexões sobre sua inserção e ativa participação no campo artístico-cultural do país.

Para começar, chamamos a atenção para a tela “Etíope”, de Henrique Bernardelli, que passou a compor a coleção de Alfredo Ferreira Lage em 1937, como parte do espólio do artista, destinado ao Museu Mariano Procópio. Nela, vemos uma mulher que veste uma rústica túnica branca; com a mão direita, segura uma ventarola de palha e, com a esquerda, um dos colares que contornam seu pescoço. Sua cabeça está envolta por turbante. Seu olhar é direto, com semblante calmo e traços finos. Sob uma perspectiva distante, possivelmente influenciada pela tradição “orientalista”, percebe-se que o artista representa a negra como tipo social, com trajes africanos típicos e aspectos exóticos, revelando um interesse nitidamente antropológico ou folclórico.

A segunda tela apresentada, “Limpando metais”, é de autoria de Armando Viana. O pintor, neto de negra alforriada, representa uma mulher no cotidiano doméstico. A obra, que foi doada ao Museu Mariano Procópio pelo próprio autor, em 1967, traz à tona contradições sociais no interior dos ambientes domésticos. Diferentemente do quadro anterior, aqui o pintor humaniza a personagem, que é representada com o olhar distraído, sugerindo uma não submissão mecânica a uma ordem que lhe foi imposta. A negra brasileira é representada com o rosto erguido, desprendendo-se do trabalho para pensar. A tela convida, assim, o observador a refletir sobre a humanidade dos personagens negros.

Na sequência, apresentamos a tela “Baiana”, de Alcides Cruz, doada pelo artista ao Museu Mariano Procópio, em 1975. Nela, vemos uma mulher negra com traje de baiana, pano-da-costa no ombro esquerdo, pulseiras, colares, brinco e turbante na cabeça. A personagem olha atentamente para a panela, concentrada no preparo do alimento — provavelmente, destinado a um orixá. A concentração da personagem, que se dedica a uma tarefa familiar à sua cultura, contrapõe-se à distração da negra retratada por Armando Viana ao executar a tarefa que lhe foi ordenada.

Por fim, destacamos duas telas de autoria de Valdir da Conceição Silva, que também representam aspectos das africanidades presentes no cotidiano brasileiro. As telas são provenientes do Salão Oficial Municipal, evento anualmente realizado em Juiz de Fora. Ambas foram premiadas no referido salão, na década de 1970, e chegaram ao Museu por meio de uma lei municipal criada em 1950, ano do centenário do município. Essa lei determinava que as cinco obras premiadas nesse evento fossem encaminhadas à instituição, o que indica sua qualidade e relevância.  

Na primeira tela, intitulada “Tradição do Brasil II”, observamos uma cena carnavalesca. Uma das personagens usa um traje de baiana, enquanto os outros personagens usam trajes típicos de carnaval. A segunda, intitulada “Baianas”, traz uma baiana sentada à direita, com turbante branco na cabeça, blusa verde, saia branca e lenço vermelho sobre o ombro direito; à sua frente, uma mesinha com tabuleiro. Ao centro, outra baiana em pé, de costas, com blusa bege, saia comprida azul e com o tabuleiro sobre a cabeça. As duas mulheres, representadas com um colar amarelo da orixá Oxum, nos deixam entrever a luta diária na busca pelo sustento. 

O vídeo veio chamar a atenção para a importância de se dar visibilidade às representações de negras e negros em museus históricos brasileiros, cujos acervos ainda são bastante carentes a esse respeito. Além disso, enfatiza a necessidade de se enxergarem as contribuições de artistas negras e negros dentro dos museus, descortinando, assim, novas possibilidades de construção de afetos, pertencimentos e conhecimentos. 

Contudo, nada disso é possível sem o empreendimento de esforços coletivos para desconstruir dois olhares ainda bastante cristalizados sobre a participação de negras e negros na história do Brasil, que incorrem na folclorização e no enquadramento de suas memórias sob as lentes da história da escravidão e da opressão. O desafio é decolonizar, humanizar e sensibilizar os espaços culturais para a abertura urgente aos lugares de fala e às narrativas plurais. Sem continuar insistindo no “mito da democracia racial”, devemos agregar, refletir, dialogar, expor as feridas e as dívidas históricas que tanto dificultam a diminuição das desigualdades sociais e o avanço da cidadania no Brasil.

O “Mês da Consciência Negra” nos convida a pensar, entre outras coisas, sobre o sentido do “silenciamento” da participação de negras e negros na história. Afinal, suas enormes contribuições e influências num país tão mestiço e culturalmente diverso como o nosso são inegáveis.


Referências bibliográficas:

CHRISTO, Maraliz de Castro Vieira. Entre a cozinha e o exótico: representações do negro no acervo do Museu Mariano Procópio. In: Coleções em diálogo: Museu Mariano Procópio e Pinacoteca de São Paulo. São Paulo: Pinacoteca do Estado, 2014. 

CHRISTO, Maraliz de Castro Vieira. Negros em espaços brancos: 3 quadros uma só história. Nava: Revista do Programa de Pós-Graduação em Artes, Cultura e Linguagem/ Universidade Federal de Juiz de Fora. v. 1, n. 1 (jul./dez. 2015). 

FUNDAÇÃO MUSEU MARIANO PROCÓPIO. Catálogo de pinturas da pinacoteca do Museu Mariano Procópio. Juiz de Fora, 2010.


Aloysio de Paula Gerheim

É graduado em Educação Artística pela Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF). Professor da Secretaria Municipal de Educação de Juiz de Fora. Atua na Fundação Museu Mariano Procópio como conservador e restaurador do acervo em suporte de papel.


Eduardo de Paula Machado

É bacharel em Ciências Humanas e graduando em Ciências Sociais pela Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF). Atua na Fundação Museu Mariano Procópio como assistente de museologia, dedicando-se às atividades relacionadas à Reserva Técnica.


Priscila da Costa Pinheiro

É graduada e mestre em História e especialista em Cultura e História dos Povos Indígenas pela Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF). Professora da Secretaria Municipal de Educação de Juiz de Fora. Atua como historiadora na Fundação Museu Mariano Procópio, dedicando-se à pesquisa e difusão do acervo arquivístico e bibliográfico da instituição.


Rosane Carmanini Ferraz

É graduada em História, especialista e mestre em Ciência da Religião e doutora em História pela Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF). Professora da Secretaria Municipal de Educação de Juiz de Fora. Atua na Fundação Museu Mariano Procópio e na Fundação Caed/UFJF.


Sérgio Augusto Vicente

É graduado, mestre e doutorando em História pela Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF). Professor da Secretaria Municipal de Educação de Juiz de Fora. Atua como historiador na Fundação Museu Mariano Procópio, dedicando-se à pesquisa e difusão do acervo arquivístico e bibliográfico da instituição. Escritor colaborador da Revista Trama: arte, cultura e criatividade. Desenvolve pesquisas campo da história social da cultura/literatura, sociabilidades, trajetórias e memórias.