A vida é doce?

Revista Casa D’Italia, Juiz de Fora, Ano 2, n. 18, 2021 – Daniel Giotte |  A vida é doce?


Fellini é substantivo próprio a designar cinema. Substitui a pobre expressão sétima arte, que apenas reflete a sequência cronológica de criação das artes.

Se Fellini é cinema, temos palavra, deliciosa na fala, com vogais deslizando lá e cá, “doiselles” prolongando a pronúncia, como o prazer dos filmes e da vida.

Nunca tinha visto completamente “La Dolce Vita”, até ontem, mesmo já sabendo que Marcello Mastroianni dera vazão ao que seria um latin lover naquele filme com seu Marcello Rubin, e tendo a imagem voluptuosa de Anna Ekberg, deusa nórdica atemporal, sendo a atriz sueca Sylvia Rank.

Eu tinha na cabeça a famosa cena entre os dois na Fontana di Trevi, um dos grandes momentos de Fellini, digo do cinema, o que dá no mesmo. Lembrava-me de já ter visto o início do filme, com aquele helicóptero com um santo sendo levado ao Vaticano, ainda adolescente ao lado de meu pai.

O filme de belíssima fotografia seria sobre Marche, Marcello, um devorador de mulheres, que “só anda atrás de mulheres e acha que isso é amor”. Sylvia, Maddalena, Emma e outras mulheres são devoradas. Não sabemos se o sexo para ele é doce — Fanny sugere que sim —, mas a vida de fato não é.

Ele esconde seu tédio, a frustração por ser o que é, um “jornalista” à busca de notícias sensacionalistas com os paparazzi, e não escritor.

Aliás, o leitor pode tentar encontrar a vida doce de alguma personagem entre pequenos e grandes burgueses, pobres, homens e mulheres. A vida parece sem sentido, com medo, típica de quem teve um pós-guerra marcado n’alma: “a paz amedronta”.

O filme é sobre a vida, passa-se numa Itália que poderia ser o interior de Minas, de religiosidade intensa, ao tratar da relação do povo com os milagres.

Para mim, isso é marcante, pois em criança tive sério problema de vista e, no Granbery, bairro de minha Juiz de Fora, descobriram que Santa Maria, mãe de Jesus, deu-se a chorar pelas árvores. Passaram-me seu choro nos olhos e enxergo bem, obrigado. A exagerada cena em Fellini me rememora isso tão italiano, tão brasileiro, tão latino.

(Falta de) limites entre público e privado, sexo e amor, tédio e ansiedade, machismo e conservadorismo são os temas do filme e, para quem estiver atrasado sessenta anos como eu em sua lista de filmes duma vida, ajuda a entender mais “A grande beleza” de Paolo Sorrentino com seu Jep Gambardella, um Marcello Rubbin modernizado.

Roma é como uma floresta onde podemos nos esconder, diz Marche, mas em “La dolce vita” nossas dificuldades existenciais não se escondem.


Daniel Giotte

É juiz-forano apaixonado, escritor, autor de versos e crônicas que estão nos livros “Inverso Direito” e “1981 Ficou marcado na história”. Também é jurista e professor de Direito com vários artigos e livros publicados na área. Escreveu, ainda, recentemente com Cleber Antunes o livro “Caridade e Firmeza: origem, rito e história”