A beleza está nas pequenas coisas

Revista Casa D’Italia, Juiz de Fora, Ano 2, n. 18, 2021 – Valéria Galvão |  A beleza está nas pequenas coisas


Meu nome é Valéria Galvão, nasci, cresci e moro na cidade de Juiz de Fora — Minas Gerais há 57 anos. Doméstica com orgulho, foi nesta profissão extremamente digna que criei minhas filhas, ajudei minha família. Fotógrafa amadora, tenho a natureza como uma tela que se apresenta à minha frente para fazer meus registros. Eu é que acabei sendo capturada pela arte de capturar imagens. Considero-me uma autodidata do hobby de fotografar, mas não me canso de aprender e aprimorar as técnicas. Para mim, a fotografia é uma forma de revelar às pessoas como a beleza está nas pequenas coisas. Basta parar, olhar com cuidado para ver o belo em cada criatura criada por Deus.

Meu primeiro contato com a fotografia foi em 2009, época em que era voluntária de várias atividades pastorais na Paróquia Nossa Senhora do Perpétuo Socorro, no bairro Floresta. O então Pároco, Pe. Ronaldo Oliveira, C.Ss.R. convidou-me para fazer parte da Pastoral da Comunicação (Pascom). No primeiro momento recusei o convite, pois nem sabia direito o que era a Pascom. Como ele insistiu, acabei entrando para o grupo pastoral, tornando-me a coordenadora da Pascom da Paróquia. Não fazia fotos, apenas ajudava a escolher as melhores para o material de trabalho. Nem sabia pegar direito em uma câmera, mas estava tranquila, porque confiava em minha equipe para isso.

Certo dia, aconteceu um evento e nenhum dos agentes da pastoral poderia fazer as fotos. Então, sobrou para mim. Com muito medo de como os registros iriam ficar, sem sequer conhecer as funções da câmera, fui ao evento e comecei a clicar sem dar trégua. Pensei comigo mesmo: seja o que Deus quiser! Oh, dia tenso, meu Deus, mas hoje agradeço, pois assim iniciei minha jornada fotográfica amadora, meu amor pela fotografia (se assim posso dizer). A partir daí, comecei a registrar tudo o que achava interessante: paisagens, pássaros, aves, céu, nascer e pôr do sol e, pode-se dizer, minha maior paixão: a lua. Eram apenas registros; como eu clicava, as imagens saíam, sem técnica, ângulos, edições e detalhes.

Na época, postava as fotos no Orkut e muitas pessoas elogiavam. Uma amiga minha, a Fátima Aparecida, dizia que eu registrava com a alma. 

Hoje, olhando estas fotos, jamais publicaria algumas delas. 

Mas as críticas construtivas me incentivaram e até hoje me incentivam, aguçando meu olhar fotográfico e me fazendo aperfeiçoar os registros. Gosto de dizer que não sou fotógrafa; gosto de registrar. 

Sei que, quando comecei, houve pessoas que riam de mim, outras não acreditavam que eu seria capaz de realizar bons cliques. Hoje essas pessoas vêm e falam comigo: “nossa, não acredito que foi você fez esta foto…”.

Em 2017, vi um anúncio no Facebook de um concurso de fotografia, o Brasília Photo Show, e pensei: vou arriscar, até mesmo para saber sobre as qualidades de meus registros. Entrei para o concurso com este objetivo: ver a avaliação da qualidade de meus registros. Enviei duas fotos e, no dia do resultado, qual foi a minha surpresa quando, na relação geral dos classificados e na classificação de posição (lugar), meu nome estava lá. Fiquei tão perplexa que cheguei a pedir para uma das minhas filhas: “Não comente com ninguém… Pode ser um erro. Aguardemos o resultado final”.

Passados alguns dias, minha surpresa foi ainda maior: uma de minhas fotos, entre 9 mil trabalhos, ficou em sétimo lugar, garantindo a categoria Platinum,  acima do ouro. Imagina a minha alegria, emoção, gratidão… Ser valorizada, um trabalho meu ter essa notoriedade. Na apresentação do livro do concurso, foi colocada até uma frase a mim dedicada, juntamente com de demais vencedores: “A Lua de Valéria Galvão, que transformou o satélite em um cenário no qual desfila a natureza da terra”. (Edu Vergara — Editor).

Nos anos de 2018 e 2019 ganhei a menção honrosa, tendo então três livros do Festival de fotografia Brasília Photo Show contendo fotos minhas. Sem dúvida, uma grande conquista para quem, há poucos anos, não sabia sequer pegar direito em uma câmera.

Esse mesmo concurso de fotografia confecciona, todos os anos, alguns quadros com as fotos vencedoras de todas as edições e os coloca em leilões, sendo o primeiro com renda revertida para obras de caridade e o segundo com o valor de venda dividido entre autor e produtor. Do meu registro, existem alguns quadros vendidos. É gratificante saber que seu trabalho estará disponível em galerias, eventos e outros vários outros lugares, sendo admirado por outras pessoas.

Sigo participando de concursos, ganhando uns, perdendo outros. Sou persistente e valorizo muito minha participação. Com isso, me atualizo, me aperfeiçoo, num aprendizado constante, diário, em permanente transformação.

Hoje sou a fotógrafa da família, dos amigos, de alguns vizinhos, principalmente das crianças. Atuo em várias áreas fotográficas amadoras, mesmo sabendo que cada gênero possui diferentes requisitos. Faço alguns trabalhos particulares, mas a maior parte de meus registros são por hobby, ambientados principalmente na natureza, onde mais me encontro. Procuro os lugares que me transmitem paz, inspiração, tendo como alguns dos cenários o Parque da Lajinha, Museu Mariano Procópio, lugares para os quais viajo e, principalmente, as redondezas de onde resido, com muita área verde. Tenho o privilégio de morar perto da natureza, em um bairro cercado por matas fechadas, fazendas, árvores nativas, cachoeiras, o que facilita muito na hora de captar meus flagrantes. Uno o útil ao agradável: saio para caminhar e observo tudo ao meu redor. Dessa forma, registro as belezas que cruzam meu caminho, vivendo e sentindo a natureza. E, assim, vou criando meu portfólio.

Quando estou junto à natureza, parece que ela fala comigo, com os seus aromas, cores, sons, toda sua grandeza, os detalhes que a envolvem e sua beleza. Fico horas registrando, hoje com um olhar diferenciado. Antes de clicar, já vejo os registros mentalmente.

Retratar pássaros, aves ou qualquer animal, para mi,  é um desafio, pois eles não dependem do fotógrafo, e sim o fotógrafo é que depende deles: quando vão aparecer, quanto tempo vão ficar ali, se o local onde aparecem possibilita o registro… É necessário silêncio, concentração, muitas vezes ligeireza. Capturar com rapidez assim que eles aparecem, pois vão e vêm quando querem. Na maioria das vezes, ter sorte de estar no lugar certo e na hora certa. Quando se trata de paisagens e lugares, mesmo tendo a luz natural a favor, temos que tomar cuidado com a posição do sol e a sombra, para ter um bom arranjo, uma boa composição. Uma foto leva-nos a diversas interpretações e ideias sobre o cenário registrado. Há animais que, às vezes, me dão medo de registrar, como o macaco bugio, pois receio que podem achar que sou uma predadora, caçadora, sei lá. 

Tenho plena consciência de que não sou “a fotógrafa”, mas sei que muitos se inspiram nos meus registros postados e, seguindo meu exemplo, começaram a registrar, admirar e respeitar a biodiversidade da natureza e tudo o que ela traz. Sou grata por isso, pois realizo meus registros com dedicação, amor, tentando ser melhor a cada dia, ter mais resultados com precisão. 

No final de 2019 atravessei um momento difícil. Tive um problema de visão e quase não enxergava, por causa da diabetes. Essa situação me abalou profundamente. Fiquei meses sem registrar qualquer imagem. Nesse período, minha neta se formou e eu queria registrar a formatura dela. Mesmo com pouca visão, fiz algumas fotos com a ajuda de minhas filhas, perguntando se a câmera estava certa, o que estava descrito na câmera quando eu nela mexia, para saber o que eu estava fazendo. Sou obstinada, não desisto fácil. No dia 2 de fevereiro de 2020, estava eu de novo com a visão límpida, e a primeira coisa que fiz, podem acreditar, foi sair e fotografar. Lembro-me que estava neblinando muito nesse dia. As pessoas passavam na estrada perto de onde costumo ir para registrar e falavam: “Você está doida, está chovendo”. Eu apenas ria, pois não sabiam o que eu estava sentindo naquele momento, o que eu queria era registrar…Levo minha amiga câmera para todo lugar e, quando estou com ela nas mãos, não tenho pressa em deixá-la. Apenas quero captar com ela o melhor, sendo nos registros mais simples, alegres ou tristes, expressar uma história com o meu olhar do coração. Pois tudo é registrável.

Meu sonho é investir em equipamentos fotográficos, ir a lugares incríveis que possibilitem realizar imagens extraordinárias. Mas, enquanto isso possível não é, continuo registrando dentro da minha realidade.

Leio e estudo muito sobre fotografia, assisto tutoriais, acompanho grandes fotógrafos e seus trabalhos, como Sebastião Salgado, Araquém Alcântara, Luis Cláudio Marigo (que nos deixou há poucos anos), Marcus Terra, Ansel Adams (que gosta de fotografar paisagens em preto e branco), Tania Esteban, Steve McCurry, Varun Aditya, Garrett King, e centenas de outros.

Gostaria aqui fazer alguns agradecimentos: À minha família, que, direta ou indiretamente, embarcou neste mundo fotográfico comigo. À Sandra Procópio Villela, pelo apoio financeiro e por permitir que eu sempre usufrua de toda a área externa de sua fazenda para realizar meus registros. À professora e jornalista Silvia Carvalho, que muito me ensina e auxilia. Aos amigos que sempre torceram e torcem pelo meu crescimento. E aos editores da Revista Casa D’Italia pelo convite, com o qual sinto-me lisonjeada.

Sequência das fotos!

Primeira foto: a lua vencedora do sétimo lugar no festival internacional de fotografia Brasília Photo Show, no ano de 2017; ficou na galeria dos iluminados, sendo Platinum. O nome da foto é “Não importa a fase seu pôr é sempre lindo!”.

Foto: Valéria Galvão

Segunda foto: Minha primeira foto do Macaco Bugio, que vive livre nas matas. Tipo de registro que eu adoro, pois tem que se andar  pelas matas fechadas a procura deles.

Terceira foto: Paisagem, pôr do sol.

Foto: Valéria Galvão

Quarta foto: Eu em Brasília, com o certificado e o livro de 2018, que contém foto minha, no evento de premiação, cujo nome foi a Cidade da Fotografia Brasilia Photo Show.

Quinta foto:
Nome da foto: Pose! Por causa da posição do tucano, que é uma bela pose.

Foto: Valéria Galvão

Referências bibliográficas:

FIGUEIREDO, Angela. Carta de uma ex-mulata à Judith Butler. Revista Periódicus, v. 1, n. 3, p. 152-169, 2015.

MATOS, Ivanilde Guedes. (2015).Estética Afro Diáspora e Emponderamento Crespo. Revista do Programa de Pós-Graduação em Crítica Cultural, v. 5, n. 2

MATOS, Lídia de Oliveira. (2016) Não é só cabelo, é também identidade: transição capilar luta política e construções de sentido em torno do cabeloafro. 30ª Reunião Brasileira de Antropologia, João Pessoa, 2016.


Valéria Galvão

Meu nome é Valéria Galvão, nasci, cresci e moro na cidade de Juiz de Fora – Minas Gerais há 57 anos. Doméstica com orgulho, foi nesta profissão extremamente digna que criei minhas filhas, ajudei minha família. Fotógrafa amadora, tenho a natureza como uma tela que se apresenta à minha frente para fazer meus registros. Eu é que acabei sendo capturada pela arte de capturar imagens. Considero-me uma autodidata do hobby de fotografar, mas não me canso de aprender e aprimorar as técnicas. Para mim, a fotografia é uma forma de revelar às pessoas como a beleza está nas pequenas coisas. Basta parar, olhar com cuidado para ver o belo em cada criatura criada por Deus.