Sobre afro danças, tranças, salão, resistência, vento, movimento…

Revista Casa D’Italia, Juiz de Fora, Ano 2, n. 17, 2021 – Rita de Cássia Félix | Sobre afro danças, tranças, salão, resistência, vento, movimento…


O lazer e a recreação nos territórios de maioria negra no Brasil podem ser associados a uma necessidade estrutural de sobrevivência e reordenamento da ordem imposta. Tal ordem perpassa por formas diferenciadas de expressões de racismos e discriminações existentes na sociedade desde a implantação do sistema escravista criminoso, perpassando os séculos XVI, XVII, XVIII até os dias atuais, sem perspectiva de solução do problema a curto prazo, mesmo com o envolvimento dos diversos setores da sociedade. Ressalto que as diferentes modalidades de manifestação do racismo e da discriminação se apresentam justificadas por setores dominantes e se atualizam ao longo dos séculos no intuito de perpetuarem suas dominações. As classes dominantes aqui referidas travestiram-se, em diversos períodos históricos, de grandes latifundiários, senhores de engenhos, grande segmento da tradição religiosa judaico-cristã, comerciantes, banqueiros, exportadores de açúcar, café, cientistas ‘iluminados’. Tais classes dominantes mercadejaram pedras preciosas e também traficavam. Na tentativa de justificar a apropriação criminosa, os setores dominantes se alinham com o intuito de que a dominação se efetive por um período de longa duração. 

Pessoas aos milhares reconstituíram suas ordens de vida, a partir do que lhes era possível, tendo o legado africano como escopo. Reinventaram experiências, reconstruíram processos culturais, criaram novos sistemas simbólicos, recriaram seus sonhos a partir da dor e dos sofrimentos contínuos em movimento ascendente. De acordo com historiadores e cientistas sociais atuais, a resistência negra no Brasil manifestou-se sob diversificadas maneiras, incluindo suicídios, abortos, assassinatos, fugas, rebeliões, organização de quilombos, formação de famílias, manutenção dos cultos ao sagrado, produção de arte, lazer.

Destarte, a ancestralidade africana é introjetada na sociedade brasileira a partir, principalmente, da existência do povo negro no processo de construção da nação em todos os seus aspectos; considera-se o desenvolvimento econômico, a produção de bens e riquezas, a inserção na política, na arte, na cultura, na religião. A sociedade brasileira acumula em seu cotidiano aspectos da cultura africana em todas as áreas de conhecimento e em todos os níveis das relações sociais. Cheik Anta Diop, Jan Vansina, Frantz Fanon, Hampatè Bá, Antônio Altuna, dentre outros inúmeros autores, dissertam sobre a relevância da forte influência das civilizações africanas nos países da diáspora. Importa observar a cosmovisão contida nos aspectos religiosos como a dança, os cânticos, a musicalidade, a circularidade, a oralidade, o cooperativismo, dentre outros. A herança dessa concepção de vida é externada nas mais diversas manifestações culturais apresentadas nas diferentes regiões do Brasil. Destarte, citamos as celebrações e as solenidades, enquanto cerimônias ritualísticas: a festa, a alegria e a recreação, enquanto cerimônias aglutinadoras, necessárias e existentes na diversidade da vida humana em suas mais diversas manifestações. A partir dessa contextualidade, pode-se conceber a propensão da população negra, escravizada ou livre, em se refazer perante as asperezas vividas e buscar meios que pudessem se solidarizar juntamente com os seus. Criou espaços próprios. Inventou meios de se sobrepor aos obstáculos. Teceu negociações com o convívio grupal e tornou-se elemento essencial para que a sobrevivência fosse garantida. Acrescentou nova dimensão aos valores familiares, individuais e societários, tradicionalmente concebidos.

As formas associativistas se perpetuaram com bases sólidas e, em Juiz de Fora, desde o pós-abolição até meados dos anos 1970/80, os clubes esportivos e sociais impediam o acesso do povo negro a seus recintos, de acordo com Sr. Ivan Barbosa, Sr. Betim Silva, Sra. Sebastiana Moura e D. Luzia de Souza. A constatação foi ratificada inúmeras vezes e torna-se mais robusta ao constatarmos a relevância da criação dos Clubes Sociais Negros em inúmeras cidades brasileiras. Juiz de Fora/MG tornou-se uma das cidades que se destacou na criação desses territórios negros enquanto lugar de socialização, lazer, prática de dança, com requinte em sua maioria. Ali se expressavam saberes da dança, o movimento coordenado dos corpos em harmonia com a vibração das canções. A dança de salão, com seus ritmos múltiplos, expressa, em linguagens diferenciadas e em tempos diversos, mais uma das modalidades de resistência ao sistema opressor que aparta e exclui cidadãos do convívio social.  

Em Juiz de Fora, foram criados espaços de sofisticação para a dança em salões alugados ou compartilhados, O maior clube social da cidade foi denominado Elite Clube Mineiro, localizado na Rua Halfeld 405, segundo andar. O maior de todos os Clubes Sociais Negros de Juiz de Fora. Todavia, os registros afirmam terem existido dezenas desses lugares na cidade e aqui podem ser citados o Lunar, localizado no bairro Santa Luzia; o Clube Social e esportivo Montesinas, no Bonfim; a Casa D’Italia, Fogão e Têxtil, localizados no centro da cidade. No decorrer das décadas de 70 e 80 do século XX, o ‘Charme’ entoava um dos ritmos predominantes dos salões. Frequentadores dos clubes em Juiz de Fora nos períodos citados afirmaram, em entrevistas, que, nos salões de Clubes Sociais, a frequência era assídua e o número de pessoas, expressivo. Destacamos a necessidade de uma produção social dos trajes, calçados, cabelos e acessórios. Ali era o lugar possível para a valorização da beleza e da sofisticação negada aos negros A mulher negra se percebia e era percebida com o reconhecimento de seus direitos de ser mulher e irradiar  contentamento, satisfação, felicidade, bem-estar, exultação. Os clubes permitiram a vida social.   

Pesquisar os Clubes Sociais Negros são estudos ontológicos, uma vez que orientam a busca da essência do ser humano em sua natureza: o ser humano em coletividade como em tempos idos, que o sistema hegemônico faz questão de negar. Mas o povo negro reafirma. Eis uma das metas do ofício do historiador: encontrar artefatos de histórias e transformá-los em História. História que promova o ser humano e a ser humana.


Rita de Cássia Félix

Rita de Cássia Félix é Gerente do Departamento de Memória e Patrimônio Cultural da FUNALFA. Graduada em Ciências Sociais na UFJF com Mestrado em História pela UNESP/Franca e Doutora em Educação pela UFCeará