Onde está a história da população negra juizforana?

Revista Casa D’Italia, Juiz de Fora, Ano 2, n. 17, 2021 – Luan Pedretti | Onde está a história da população negra juizforana?


No ano de 2019, o rapper Emicida lançou o seu novo projeto AmarElo, que inclui: um álbum, um documentário, a realização de um show no Theatro Municipal de São Paulo e a publicação da gravação desse show na plataforma virtual de stream Netflix. Nesse show, ao introduzir a canção “Princípia”, Emicida faz um relato que pode nos ajudar como introdução à reflexão que aqui pretendemos realizar. Segundo o cantor:

A primeira vez que eu fui na África, meu amigo Chapa me levou num museu que tem em Angola, que eles chamam de Museu da Escravidão e naquele lugar tinha uma pia, e tava escrito um texto na parede que era mais ou menos assim: “foi nessa pia que os negros foram batizados e através de uma ideia distorcida do cristianismo, eles foram levados a acreditar que eles não tinham alma”. Eu olhei pro meu parceiro e naquele dia eu entendi qual era a minha missão. A minha missão cada vez que eu pegar uma caneta e um microfone é devolver a alma de cada um dos meus irmãos e das minhas irmãs, que sentiram que um dia não teve uma. (Trecho do documentário AmarElo).

A partir desse pequeno relato de experiência, podemos entender, que talvez a missão que o rapper tomou para si, seja tornar sujeitos todos aqueles afetados pelo tráfico e pela diáspora de pessoas do continente africano para alimentar o sistema de escravidão, o sistema colonial europeu e que ainda, nos dias de hoje, sofre com a colonialidade, um sistema de dominação ideológica e cultural ainda persistente na atualidade, no qual se define um padrão hegemônico a ser seguido, e aqueles que escapam a estas características são considerados inferiores. Tais sujeitos, vítimas do colonialismo e da colonialidade, seriam os que não se enquadram na ideia de homem moderno europeu: não-brancos, mulheres, não-cristãos, pertencentes à comunidade LGBTQIA+, entre outros recortes de gênero, de raça e de classe. 

Cabe ponderar que por diversas vezes esses grupos não são reconhecidos enquanto sujeitos, muito menos como agentes históricos, com a participação no desenvolvimento e na construção das sociedades que temos atualmente. Este apagamento, apresenta-se de forma intencional e política, com o objetivo de exaltar apenas aqueles que se aproximam das ideias de modernidade europeia, e apagar os que receberam heranças genéticas e culturais, sendo lidos como primitivos, atrasados e obsoletos. Essas ideias se aproximam daquela defendida pelas teorias eugenistas e pelo racismo científico que ganhou força no final do século XIX e início do XX no continente europeu, e que teve expressão relevante na sociedade brasileira da mesma época. 

Diante desses apontamentos, acredito que algumas questões e alguns recortes sejam necessários, para que a nossa reflexão atinja um objetivo, mesmo que não seja possível esgotar o tema a ser tratado.

Você já se perguntou sobre o passado da cidade, na qual vive? Como esse passado está representado? Quem nos dias de hoje recebe homenagem como “herói” desse passado ou de figura “ilustre” da cidade? Ou quando essa homenagem foi feita ou por quem foi feita? Ou porque esta pessoa está sendo homenageada? E quem não está sendo homenageado? Imagina o porquê essas pessoas ou esses grupos não recebem homenagem?

O lugar de produção desse texto localiza-se na cidade de Juiz de Fora, em Minas Gerais, e, consequentemente, o objetivo é pensar sobre o passado dessa mesma cidade. Para isso, considero importante trazer alguns dados para amparar esta reflexão.

Uma pesquisa desenvolvida pela ONU, em 2017, investigou o nível de desigualdade das cidades brasileiras. Essa pesquisa sondou algumas cidades brasileiras e produziu um ranking do nível de desigualdades delas, a partir de alguns critérios. Entre esses critérios está a desigualdade entre a qualidade de vida por meio do recorte étnico-racial, ou seja, a comparação da qualidade de vida entre as pessoas negras e as pessoas brancas. Neste sentido, a cidade de Juiz de Fora, no ano de 2017, foi considerada a terceira cidade mais desigual de todo o Brasil. Essa mesma cidade que no censo de 2010, apontou que compreendia cerca de 46% da sua população autodeclarada preta ou parda (IBGE, 2010). E que no ano de 1870 apresentava aproximadamente 53% da sua população como escrava (BATISTA, 2006). Vale ressaltar que Juiz de Fora utilizou-se até os últimos momentos da escravidão, tanto rural, quanto urbana. Ou seja, a exploração fazia parte do cotidiano da cidade, durante o seu surgimento. Nos dias atuais, existem algumas produções historiográficas, sociológicas, geográficas e de outros campos de pesquisa, analisando a presença e a atuação da população negra na região de Juiz de Fora.

Contudo, ao realizar uma breve pesquisa na internet sobre os bens culturais tombados a nível municipal, percebemos que muitos deles fazem referência ao passado da cidade que se relaciona diretamente com a presença europeia na cidade, ou seja, a história da “Manchester mineira” e muito pouco ou nada faz menção à presença negra ou escravista na região1. Com relação ao patrimônio imaterial, percebemos que há a preservação de um bem cultural que faz alusão à presença negra na cidade, que é o Batuque Afro-brasileiro Nelson Silva, registrado pelo decreto 9085 de 15 de janeiro de 20072.

O questionamento que aqui está sendo feito é com relação à preservação da memória local, em termos de valorização desse grupo e também em termos de proporcionalidade. Como uma cidade, que chegou a ter mais de 50% da sua população escravizada, não tem um patrimônio, material ou imaterial, que resgate e questione esse passado da localidade? De que forma uma cidade que, no ano de 2010, mantinha mais de 45% da sua população autodeclarada preta ou parda, só tem apenas um patrimônio registrado que faça menção direta a esse grupo?

Da mesma maneira que o Emicida percebeu a necessidade de “devolver a alma” de pessoas que sofreram e sofrem com a colonização e seus resquícios, talvez seja importante reconhecer a população negra que habita a região de Juiz de Fora, enquanto sujeitos. Percebo que iniciativas como essas já existem na região, quando se trata de grupos políticos, que tornam a pauta racial, uma pauta de reivindicação e de militância. No entanto, ainda falta a construção de políticas públicas e o fortalecimento de iniciativas já existentes.

[1]  https://www.acessa.com/turismo/arquivo/pontosturisticos/2006/08/04-pontos/benstombados.php Acesso em 01/11/2021 às 09h30

[2] https://www.pjf.mg.gov.br/administracao_indireta/funalfa/patrimonio/lista_registro.php Acesso em 01/11/2021 às 09h50


Referências:

– documentário AmarElo – disponível na Netflix

– Texto: “Por uma história pública dos africanos escravizados no Brasil” – https://www.scielo.br/j/eh/a/DRBxk7Y7Kff8DttZjHjfkYC/abstract/?lang=pt 

-Livro: Rita de Cássia Souza Félix – O negro: trabalho, sobrevivência e conquistas em Juiz de Fora de 1888 a 1930. Juiz de Fora (MG)

BATISTA, Rita de Cássia Souza Felix. O negro: trabalho, sobrevivência e conquistas em Juiz de Fora de 1888 a 1930. Juiz de Fora (MG): Funalfa, 2006.

 https://www.acessa.com/turismo/arquivo/pontosturisticos/2006/08/04-pontos/benstombados.php Acesso em 01/11/2021 às 09h30

 https://www.pjf.mg.gov.br/administracao_indireta/funalfa/patrimonio/lista_registro.php Acesso em 01/11/2021 às 09h50

Programação mês da consciência negra – FUNALFA/JF – https://www.instagram.com/p/CVqDSgnhAPU/ 

Instituto Feijão D’Ogum / Feijão D’Ogun 2021 – https://www.pjf.mg.gov.br/noticias/view.php?modo=link2&idnoticia2=72796 / https://tribunademinas.com.br/noticias/cultura/14-10-2021/18a-edicao-do-feijao-de-ogun-comeca-nesta-quinta-feira.html 

Frente Preta UFJF – https://www.instagram.com/frentepreta/ 

Coletivo Negro Resistência Viva – https://www.instagram.com/coletivoresistenciaviva/ 


Luan Pedretti

Luan Pedretti de Castro Ferreira, é Mestrando pelo Programa de Pós-Graduação em Educação – PPGE/UFJF, Licenciado e Bacharel em História pela mesma universidade. Professor de História da educação básica, integrante do Coletivo Negro Resistência Viva e da Frente Preta da UFJF. luanpedretti@gmail.com