Quais são as memórias menos valorizadas na cidade de Juiz de Fora?

Revista Casa D’Italia, Juiz de Fora, Ano 2, n. 17, 2021 – Vanessa Lopes | Quais são as memórias menos valorizadas na cidade de Juiz de Fora?


As memórias são construídas, herdadas, disputadas e até mesmo enquadradas de formas conflituosas. De certo, nem sempre esses processos são conscientes, mas como o sociólogo Michael Pollack já sinalizava, mesmo em nível individual, ela continua sendo indissociável da organização social. A memória não é algo que se constrói independente de interferências políticas, sociais ou econômicas. Algumas são marginalizadas e outras ressaltadas. As memórias individuais, coletivas, subterrâneas e nacionais. São recuperadas por determinados objetivos e silenciadas por outros, ora propondo um sentimento de identidade daquilo que se é ou pelo menos almeja ser.

Desde criança, em alguma medida, eu refletia sobre as memórias de minha família e dos meus colegas de escola. Ficava pensando por qual motivo todos buscavam algum parente antigo que fosse espanhol, português ou, principalmente, italiano. Seja uma bisa ou tatatataravô. Assim, observando as imagens que traziam desses grupos, não achava semelhanças comigo ou a própria turma que apresentava. Éramos todos majoritariamente negros. Percebia semelhanças com nossas feições muito mais diretamente nas imagens de africanos escravizados nos livros didáticos, mas isso era um pensamento que causava vergonha e dor. As imagens eram reproduzidas de uma forma quase animalesca. Eram humanos ou bichos? Todos nós queríamos ser príncipes ou princesas e, pelo que era apresentado em sala de aula, isso era apenas para uma descendência europeia.Ao olhar no espelho, destacava a pele escura e os cabelos crespos que tanto nos envergonhavam. Essa palavra ecoa em mim.

Carnaval de 1977
Escola de Samba União de Santa Luzia
Rubens Dutra comentou: Ai sou eu e meu amigo Poeira com as meninas do Bairro
Acervo Rubens Dutra, retirada do Centro Virtual da Memória Negra de Juiz de Fora (LABHOI/Afrikas UFJF).

A vergonha da nossa própria origem e das memórias dos nossos antepassados. Agora, como historiadora social e que estuda a memória negra na cidade de Juiz de Fora, essas relações começam a fazer mais sentido. A cidade realmente tem uma forte hierarquização de memórias e que desde cedo é passada para as crianças. A Princesinha de Minas, a Manchester Mineira… Essas são as memórias valorizadas publicamente e que são naturalizadas no subconsciente coletivo como identidade local. E para ser uma pretensa identidade local não precisa necessariamente corresponder a grande maioria na cidade ou país. No caso do Brasil, trago números para evidenciar o que quero dizer. De 1850 a 1953 o território nacional recebeu: 

Italianos: 1,5 milhão
Portugueses: 1, 4 milhão
Espanhóis: 644.469 mil
Alemanhães: 210.825 mil
Japoneses: 190.282 mil

Em se tratando da população africana, recebemos cerca de  4,8 milhões (de 1550-1850), explicitando a demografia da cidade de Juiz de Fora, temos:

AnoLivresPorcentagemEscravizadosTotal
183154641%79059%1.336
18532.44138%4.02562%6.466
18729.08656%7.17144%16.257
FONTE: Núcleo de Pesquisa em História Econômica e Demográfica. Lista nominativas de Minas Gerais na década de 1830. Link para acesso: http://www.poplin.cedeplar.ufmg.br/. Acesso em setembro de 2019.

Juiz de Fora (antigo arraial de Santo Antônio do Paraibuna) chegou a ter 62% da população composta por africanos escravizados. Então, por qual o motivo de mesmo com destacada preponderância da presença africana e afrodescententes diretos, ela não é conclamada na memória coletiva local. Seria a vergonha por residirmos em um local que alocou um dos maiores crimes contra a humanidade? E que ainda hoje são celebradas famílias escravocratas, nomeando os principais logradouros e praças públicas na cidade?

A presença negra aparece timidamente em alguns logradouros, como o largo Rosa Cabinda,  praça Negro Theophilo ou o monumento do “Ex-escravo louvando aos céus pela sua libertação”. Mas também poderia ser os barracões de escolas de samba, os terreiros de umbanda, candomblé, acervos familiares ou a construção de vários patrimônios municipais que foram construídos com o suor da população negra. Nesse sentido, o questionamento que faço é como a população de uma forma geral desconhece todo o significado disso, porque não houve educação sistemática para a memória negra e relações étnico-raciais na cidade. 

Desocupação da área onde havia uma antiga Favela, chamada Vila da Prata, na década de 1970, dentro da área da antiga Fazenda da Lajinha – Vanessa Lopes

  Nos últimos anos, os pesquisadores de diversos campos de humanas, na cidade, têm munidos esforços coletivos e sistemáticos para trabalhar a memória negra local. O Centro Virtual da Memória Negra de Juiz de Fora, organizado pelo LABHOI (o qual faço parte), propõe mapear e sistematizar todas as produções, relacionadas à temática feitas sobre Juiz de Fora (livros, teses, artigos, dissertações, fotografias), a fim de facilitar o acesso a pesquisadores e a população como um todo. Além do referido mapeamento, a produção de entrevistas de história oral com os moradores com o intuito de resguardar as suas memórias, que dificilmente estarão em arquivos públicos, mas que efetivamente fazem parte da história da cidade. Em um texto escrito, anteriormente, por parte da equipe do projeto, aqui, mesmo na Revista Casa de Italia, já respondemos sobre “quais os signos recebem a chancela de traduzir a cultura e as memórias de uma cidade direta e visceralmente ligada à ancestralidade negra?”.

Algumas professoras fantásticas vêm trabalhando isso há muitos anos isoladamente na cidade. Destaco aqui especialmente Giovana Castro, Jussara Alves e Rita Felix, professoras, pesquisadoras e ativistas que me inspiram. A nova gestão da FUNALFA, sob o comando da diretora e educadora, Giane Elisa Sales de Almeida, tem feito um trabalho fantástico, em um curto espaço de tempo, nesse sentido. Cito como exemplo a visita guiada: “Nosso Povo, Nossa Vila”, um circuito por locais de memórias da população negra de Juiz de Fora, que aconteceu nesse novembro de 2021. Também menciono Dona Adenilde Petrina, professora aposentada, e que hoje trabalha de forma magnífica a educação popular no bairro Santa Cândida e no Coletivo Vozes da Rua. Todas essas mulheres (e diversas outras que não cabe aqui citar), plantam sementes em cada um que as escuta. Eu mesma posso dizer que germinei a partir de seus regar. 

      A memória da “Princesinha de Minas” e “Manchester Mineira” evoca uma ideia de modernidade, que cria um falso paradoxo de incompatibilidade com o passado escravista local. Contudo, uma coisa não anula a outra. Sempre retomo a frase da historiadora Ynaê Lopes dos Santos ao falar que as cidades globais surgem por conta da escravidão e não apesar dela. A própria Elione Guimarães e Valéria Guimaraes destacam, em sua obra, porque no século XIX a economia de abastecimento e força geradora de riquezas era diretamente relacionada à capacidade de produção e aquisição de escravizados na cidade. A população africana que aqui veio teve um papel determinante na história da cidade como um todo, não só para a população negra.

Construção do Edifico das Clínicas

De imediato, pode até parecer que esse passado escravista é algo muito distante, mas isso não é verdade. Podemos perceber que de famílias negras em três ou quatro gerações anteriores, é possível encontrar um familiar que viveu nessa condição. E como que todas as gerações posteriores são impactadas por isso. Como diz a historiadora Hebe Mattos, os passados que são presentes nas relações sociais de negros e de brancos na nossa sociedade. A persistência do controle da vida social, política e a demarcação de espaços dessa população. Em alguma medida tudo isso impacta diretamente a classificação de Juiz de Fora, atualmente, como a primeira cidade mais desigual do estado de Minas Gerais e a terceira em âmbito nacional, superada apenas por Porto Alegre e Niterói. Por que, mesmo com tantas informações explícitas e problemáticas da memória e presença negra na cidade, isso ainda não está no subconsciente coletivo?        

  A resposta para a última indagação é a vitória do mito da democracia racial, a partir da abolição da escravatura e do consenso das elites em todo o território nacional de “apagar” ou “limpar” a mancha da escravidão na sociedade, compreendida como o motivo do “atraso” do desenvolvimento intelectual, cultural e econômico do país. Demograficamente, a atitude adotada foi o incentivo à imigração de povos de origem europeia. Em publicações do governo estadual de Minas Gerais, publicamente foram divulgados o incentivo e auxílios para imigrantes ao estado e especificamente para Juiz de Fora (hospedagem gratuita, passagens, frete e bagagens e auxílios mensais). Tudo isso simultaneamente a marginalização daqueles que viviam em condição de cativos e que não eram permitidos a integração plena socialmente.      

  Quando comento da vitória do mito da democracia racial é analisando os discursos meritocráticos e na concepção de que racismo só existe nos EUA ou África do Sul, por conta da segregação racial, legalizada pelo próprio Estado. Contudo, como a escola de samba Estação Primeira de Mangueira já falava no samba de 2018: são histórias para ninar gente grande. 

A reflexão que faço não é mirando uma disputa de memória, que não é possível, plausível e tampouco necessária. A questão posta é sobre a necessidade de questionarmos e de agirmos coletivamente para a valorização de todas as memórias e as presenças de grupos étnicos na cidade de Juiz de Fora. Enquanto a memória coletiva e oficial da cidade se restringir apenas a grupos etnicamente brancos, a história de Juiz de Fora estará incompleta. E, consequentemente contribuirá para a perpetuação de privilégios de uns e a marginalização social de outros. A democracia só será plena a partir da integração e do acesso a direitos por todos.

[1] Localizado entre as ruas “Moacyr Amado dos Santos” com “Professor Lander”. Ver mais em: https://www.camarajf.mg.gov.br/sal/textop.php?num=47501&sequencia=2

[2] Localizada na Avenida Brasil, próximo à Subsecretaria de Defesa Civil. Ver mais em: https://www.pjf.mg.gov.br/noticias/view.php?modo=link2&idnoticia2=15710

[3] Fixada na rotatória em frente ao Parque da Lajinha, no Bairro Teixeiras.Ver mais em: https://tribunademinas.com.br/noticias/cultura/23-06-2015/ultimo-icone-desnudo.html

[4] Acesse em:  https://www.ufjf.br/labhoi/juiz-de-fora-cidade-negra-centro-de-referencia-sobre-a-memoria-negra-em-juiz-de-fora/

 [5] Artigo disponível em: https://casaditaliajf.com.br/2021/02/23/revista-casaditalia-giovana-castro-luis-roberto-silva-cruz-e-vanessa-lopes-pelo-centro-da-memoria-negra-virtual-de-juiz-de-fora/

[6]  A expressão “isoladamente” aqui utilizada é no sentido de ausência de apoio público. Conjuntamente e em coletivos conseguem estabelecer redes de apoio para o alcance e prosseguimento dos trabalhos.

[7] Juiz de Fora é a terceira cidade do país com maior desigualdade racial. 7 min.  https://globoplay.globo.com/v/7177920/ . Exibido em 21 nov 2018

[8] BATISTA, Rita de Cássia Souza Félix. O negro: trabalho, sobrevivências e conquistas em Juiz de Fora de 1888 a 1930. p.39-40. Juiz de Fora-MG: Funalfa, 2006.

[9] Durante a graduação tive a oportunidade de produzir um vídeo analisando de forma historiográfica o referido desfile. Acesse em: https://www.youtube.com/watch?v=BaduHyjodUw&t=339s


Referências bibliográficas:

ALMEIDA, Patrícia Lage. Elos de permanência: o lazer como preservação da memória coletiva dos libertos e seus descendentes. Juiz de Fora, 2006. Dissertação (Mestrado em História) – UFJF, Juiz de Fora, 2006.

BATISTA, Rita de Cássia Souza Félix. O negro: trabalho, sobrevivências e conquistas em Juiz de Fora de 1888 a 1930. Juiz de Fora-MG: Funalfa, 2006.

OLIVEIRA, Mônica Ribeiro de. Famílias solidárias e desafios urbanos: os negros em Juiz de Fora. In BORGES, Célia Maia (Org). Solidariedades e conflitos: histórias de vida e trajetórias de grupos em Juiz de Fora. Juiz de Fora/MG: Ed. UFJF, 2000. 

MATTOS, Hebe Maria, Ana Maria L. Rios. Memórias do cativeiro: família, trabalho e cidadania no pós-abolição. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2005.

GUIMARÃES, E. S.; GUIMARÃES, Valéria Alves. Aspectos Cotidianos da Escravidão em Juiz de Fora. 1. ed. Juiz de Fora: FUNALFA, 2001. v. 1. 96p .

POLLAK, Michael. “Memória, esquecimento, silêncio.” In: Estudos Históricos, Rio de Janeiro: vol. 2, nº 3, 1989.

 _______________. “Memória e identidade social”. In: Estudos Históricos, Rio de Janeiro, vol. 5, nº 10, 1992. 

LOPES, Ynaê. Global porque escravista: uma análise das dinâmicas urbanas do Rio de Janeiro entre 1790 e 1815. In: Almanack, n. 24, ed00519. Guarulhos, UNIFESP, 2020.


Vanessa Lopes

Professora de História e pesquisadora. Atualmente, mestranda no programa de pós graduação em História (UFJF) com o projeto de pesquisa “A gênese do movimento negro em Juiz de Fora/MG”. Articuladora do Centro Virtual da Memória Negra de Juiz de Fora (LABHOI/Afrikas UFJF), membro do Conselho Municipal de Promoção a Igualdade racial (COMPIR JF) e do grupo de pesquisa do CNPq Emancipações e Pós Abolição em Minas Gerais.