Respeitável público: A trajetória de dois palhaços, com encontros, achados e (com) partilhas

Revista Casa D’Italia, Juiz de Fora, Ano 2, n. 16, 2021 – Mara Bontempo e Revelino Leonardo Pires de Mattos | Respeitável público: A trajetória de dois palhaços, com encontros, achados e (com) partilhas


Todo começo é um marco e o marco precisa de uma data e alguém para dar aquele empurrão: janeiro de 2011, no antigo Espaço Mezcla1, na oficina sobre Commedia Dell’Art oferecida pelo ator e diretor Marcos Marinho. A inscrição na oficina tinha uma intenção despretensiosa, mas, ao término dos encontros, um portal se abriu para nós e, ao atravessarmos, vimos que não tinha mais volta.

Há mais de 14 anos tivemos, nós, Mara Bomtempo e Revelino Mattos, um encontro com algo que estava dentro de cada um e que nem mesmo sabíamos. Surgia, assim, a Palhaça Maria Pudim e o Palhaço Arfrânio. Esse texto é sobre encontros, achados e (com) partilhas. É sobre a arte da palhaçaria que nos propomos a contar um pouco aqui.

A busca pelo palhaço é feita por um contínuo processo de construção. Desde o momento em que ele nasce, começa a se desenvolver e não para mais. Os primeiros passos da palhaça Maria Pudim e do palhaço Arfrânio foram no Largo do Riachuelo, próximo ao Mezcla, com uma breve, mas louca palhaceata composta por outros artistas, uns nascendo, outros se desenvolvendo, mas todos sendo o seu palhaço possível naquele momento. Esses passos iniciais foram dados pela imitação. Eram passos de cachorro, macaco, águia e avestruz, não exatamente nessa ordem e, às vezes, eram macaco-avestruz, águia-cachorro ou todos ao mesmo tempo. Depois disso vieram as vozes, o rosto, as roupas, ou seja, a caracterização que cada palhaço precisa ter para ser um “alguém” no mundo, mas isso já é o desenvolvimento.

Os primeiros espetáculos vieram inicialmente nas praças e ruas, com cortejos, bailes de carnaval em volta de estátuas e pequenas intervenções/ensaios. Todos com uma busca: o encontro com o público. Depois vieram os palcos das escolas, dos teatros e novamente ruas e praças, mas dessa vez não eram estátuas ou um público ao acaso, eram pessoas que estavam lá para ver a Caravana Mezcla de Palhaços em festivais nacionais e internacionais de circo e teatro.

Da primeira oficina em 2011 para cá, passamos a fazer parte da Caravana Mezcla de Palhaços, um grupo que estuda a arte da palhaçaria e realiza espetáculos em vários espaços, como teatros, centros culturais, escolas, ruas e praças no Brasil e em outros países, como Peru, Bolívia, Chile, Equador e Colômbia. Nossos espetáculos são inspirados nas reprises dos circos tradicionais. Em 2018, junto à Caravana, participamos de dois festivais no Equador: “9º Festival Internacional de Las Artes Callejeras — Artecalle Maio/2018 — Cuenca — Equador” e “6º Festivalle Encuentro Internacional de Titeres Y Payasos — Quito — Equador — Outubro/2018”.

A arte da palhaçaria sobrevive há séculos em várias partes do mundo. Alguns estudiosos destacam que o palhaço conviveu com reis em seus palácios até chegar o momento em que a rua e o picadeiro passaram a ser os seus principais palcos. Esse longo processo contribuiu para que a palhaçaria se tornasse uma arte sem limites. Os próprios nomes dados aos palhaços ao longo da história demonstram a figura excêntrica e louca capaz de despertar risos e tantos outros sentimentos.

Clown, bobo, augusto, tonto, excêntrico, grotesco e outros inúmeros nomes. Todavia preferimos “palhaço” para definir as mais diversas maneiras de nos apresentarmos e, nas palavras do mestre Márcio Libar2, a arte do palhaço é definida como uma “nobre arte”. Uma nobre arte que desde os primórdios se colocava como uma forma de subversão perante os poderosos, por meio do riso. Essa origem pode ser trazida pela figura do Bobo da Corte que, além das habilidades corporais e com objetos, tinha autorização para contradizer e ridicularizar o soberano.

São incontáveis os tipos de palhaço, porém se pode dizer que existem pelo menos duas importantes características que dão base a todos eles: palhaço branco e palhaço augusto. O palhaço branco surge dos palhaços clássicos do continente europeu, sobretudo dos carnavais de Veneza e Florença. De um modo geral é um palhaço que se apresenta de forma elegante, altivo e carrega consigo alguns traços daqueles que mandam, mas no final ele acaba sendo um perdedor. Já o palhaço augusto ocupa o outro lado da comicidade em relação ao palhaço branco. Também conhecido como tonto, o palhaço augusto é aquele atrapalhado que tropeça, que não sabe exatamente onde está, que precisa receber ordens, ou seja, é o estereótipo do perdedor convicto.        

Para ilustrar os dois tipos de palhaços citados, podemos destacar uma das mais famosas duplas do cinema mundial, os personagens Gordo e Magro, interpretados pelos artistas Oliver Hardy e Stan Laurel, respectivamente. Nesse caso, o Gordo é o palhaço augusto e o Magro é o palhaço branco. As cenas aconteciam tendo o Magro como o mais inteligente e esperto e o Gordo como o bobalhão. No meio da trama, as gagues típicas dos palhaços tradicionais aconteciam com chutes, bofetadas e objetos jogados no personagem de Laurel por Hardy, construindo o enredo da comédia pastelão protagonizada por eles.  

No Brasil, a relação das festas populares, dentre elas as folias de reis e o carnaval, são exemplos de uma das vertentes formadoras do palhaço por aqui, ainda no período colonial. Essa herança trouxe a musicalidade como um dos seus elementos artísticos. Outra característica formadora dos palhaços brasileiros foi o circo. Embora não fosse o palco exclusivo dos palhaços, foi sob as lonas montadas em terrenos nas diversas cidades brasileiras que os palhaços conquistaram maior espaço junto ao público. Muitos desses circos eram de propriedade de famílias italianas, como a Cia de José Chiarini, que trazia uma bagagem de mais de 300 anos de tradição circense e que circulou pelo Rio de Janeiro e por São João del-Rei nos anos de 1830. 

A existência de ser ou estar palhaço envolve outras nuances além das que foram ditas aqui. A relação que o palhaço estabelece, por meio do olhar, com o público, com a plateia, é a busca pelo lá, pelo outro, pela relação original. “É aí que o palhaço existe, no encontro, no meio do caminho, no encontro dos olhares” (Ricardo Pucetti). O palhaço não finge, não representa, ele brinca, ele joga, ele é vivo, inteiro e verdadeiro no tempo presente. Esse é o universo no qual mergulhamos em 2011, nele insistimos e persistimos, acreditando que a arte sempre vale a pena.

“Na vida a gente tem que fazer aquilo que a gente sabe fazer: o gato bebe leite; o rato come queijo e eu sou palhaço. E você?” (Filme “O Palhaço”).

[1] O Espaço Mezcla foi durante muitos anos em Juiz de Fora um espaço voltado para a difusão da cultura latino-americana coordenado pelo artista Marcos Marinho. Atualmente existe como uma produtora itinerante promotora de diferentes linguagens artísticas e a Caravana Mezcla de Palhaços é um dos seus projetos.

[2] Márcio Libar é um mestre da palhaçaria e autor do livro “A nobre arte do palhaço” (2008).


Referências bibliográficas:

CASTRO, Alice Viveiros de. O Elogio da Bobagem: palhaços no Brasil e no mundo. Rio de Janeiro: Editora Família Bastos, 2005.

LIBAR, Márcio. A Nobre Arte do Palhaço. Rio de Janeiro: Marcio Lima Barbosa, 2008.

O Palhaço. Direção: Selton Mello. Produção: Globo Filmes, 2011. Bobina cinematográfica.

PUCETTI, Ricardo. Lume Teatro. Disponível em: http://www.lumeteatro.com.br/o-grupo/atores/ricardo-puccetti. Acesso em: 15 ago. 2021.

Revista Anjos do Picadeiro: Encontro Internacional de Palhaços. Volume 6, 2007.

Revista Anjos do Picadeiro: Encontro Internacional de Palhaços. Volume 10, 2011.


Mara Bontempo

Ma. em Ciência da Religião pela UFJF e pesquisadora no campo religioso católico com ênfase nos estudos sobre materialidade do sagrado e religiosidade popular. Licenciatura em Educação Física e Especialista em Educação de Jovens e Adultos. Palhaça integrante da Caravana Mezcla de Palhaços. Contadora de Histórias e Professora.

Revelino Leonardo Pires de Mattos

Graduado em História pela UFJF. Me. em Estudos Literários pelo CES-JF Doutorando em Psicologia pela UFJF na área de desenvolvimento humano, com ênfase na psicologia do humor. Palhaço integrante da Caravana Mezcla de Palhaços.


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