Avenida Getúlio Vargas

Revista Casa D’Italia, Juiz de Fora, Ano 2, n. 16, 2021 – Célio Faria de Paula | Avenida Getúlio Vargas


Numa noite qualquer de dezembro de 1961 o ônibus procedente de Visconde do Rio Branco, Minas Gerais, estacionou em frente ao Restaurante Chave de Ouro, na Avenida Getúlio Vargas, 916. Prestes a completar 15 anos, desembarquei em Juiz de Fora, juntamente com meus pais e seus sete filhos.

Na bagagem, poucas malas e renovadas esperanças de dias melhores naqueles anos cinzentos da década de 60. Jamais poderíamos imaginar que passados mais de 50 anos aquele local seria o marco da presença de minha família na cidade que nos acolheu e da qual um dia honrosamente me tornaria cidadão honorário.

Oriundo de uma pequena cidade da Zona da Mata, naquela noite memorável, fiquei deslumbrado com o tamanho e a movimentação da cidade e da avenida. Larga, iluminada e com poucos carros transitando em suas duas pistas, nela trafegaram também os meus sonhos de menino. Limpa e bela, infelizmente muito diferente de hoje, devido à presença das surradas barracas de camelôs em toda a sua extensão.

Atravancada por pessoas apressadas, carros e ônibus, pouco restou daquela época romântica em que as famílias nela passeavam tranquilamente e os amigos se reuniam em seus bares preferidos para simplesmente conversar e beber uma cerveja ou tomar um cafezinho. Acreditem: havia crianças circulando e brincando alegremente pelos passeios.

O Restaurante Chave de Ouro, sem dúvidas um dos melhores da cidade na época, recebia diariamente para as refeições os ônibus da Viação Expresso Real procedentes de Brasília com destino ao Rio de Janeiro. Nessa época em que o restaurante pertencia ao meu Tio Juca e aos seus filhos, fui garçom mirim, servindo cafezinho aos frequentadores.

Jamais saiu de minha memória suas mesas com toalhas vermelhas e brancas. Hoje as Lojas Brasil ocupam o local onde existiu outrora o charmoso restaurante.

Na esquina da Rua São Sebastião ainda existe o Bar dos Primos, resistindo à especulação imobiliária. Ao lado, uma loja de calçados destacava-se com as suas vistosas vitrines repletas de artigos masculinos e femininos.

Em frente, no outro lado da avenida, um enorme terreno vago, quase um matagal em cujas trilhas poderíamos chegar à Avenida Rio Branco, o que nos permitia também enxergar a loja Olavo Papéis & Cia Ltda., de propriedade de Olavo Costa, um dos prefeitos da cidade e cliente permanente do restaurante. Tive a honra de lhe servir muitos cafezinhos. Nesse terreno encontra-se edificado o prédio que um dia já foi a rodoviária e hoje abriga repartições da Prefeitura municipal.

No sentido ao centro da cidade uma grande loja abrigava a revenda de caminhões, “A Internacional”. Ao lado funcionava um bar enorme onde se podia jogar boliche, uma novidade na época, de propriedade de um radialista esportivo controvertido, baixinho e gordinho, muito conhecido por Bié.

Mais à frente, no mesmo lado, o Cine-Teatro Popular, fundado em 1927 pelo cartazista, cenógrafo, exibidor e produtor cinematográfico João Gonçalves Carriço (1886 — 1959), se destacava gerando grande movimentação. 

Fui um de seus fiéis frequentadores.

O lugar, na época glamoroso e de grandes recordações para a criançada e marmanjos amantes da tela grande, ocupou desde a sua fundação o número 890 e acomodava aproximadamente 500 frequentadores, que pagavam valores módicos pela entrada.

Filas extensas se formavam nas matinês de domingo para se assistir aos filmes nacionais, como as chanchadas, nas quais Oscarito, Ankito, Grande Otelo e as vedetes da época brilhavam, além de Amácio Mazzaropi, campeão das bilheterias, e aos famosos épicos seriados americanos. Não pode deixar de ser lembrado que o filme Paixão e Morte de Jesus Cristo, exibido na semana santa todos os anos, garantia recordes de bilheteria.

Mesmo após a morte do fundador, seu filho Manuel Carriço manteve o cinema aberto até 1966. Hoje, no local, há um improvisado estacionamento que em nada lembra esses saudosos tempos.

Antes das sessões, um jornal cinematográfico feito pela Carriço Film, criada em 1934, exibia notícias importantes da cidade. A última edição a cargo do fundador ocorreu em 1959, cobrindo a sua própria morte, filmado pelo seu filho e diretor artístico Manuel Carriço. Depois de anos de descaso de nossos governantes, o rico acervo encontra-se atualmente na Cinemateca Brasileira, em São Paulo. Um ciclo que se foi, mas a história resgatada fará com que jamais seja esquecido.

A avenida é longa e muito há para ser contado pelas gerações que por ela tiveram o privilégio de viver ou transitar — daria um livro. Nesse pequeno trecho tive a felicidade de viver e sonhar ao pisar pela primeira nessa cidade que foi o palco de minha existência. A ela sou eternamente grato.


Célio Faria de Paula

É contador e memorialista. Há várias décadas morador de Juiz de Fora, da qual é cidadão honorário, tem escrito crônicas sobre o passado da cidade, nas quais reúne relatos pessoais com o de pessoas e fatos marcantes da história local.


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