Quando as mulheres deixam de ser musas e tornam-se… escritoras

Revista Casa D’Italia, Juiz de Fora, Ano 2, n. 16, 2021 – Laura Junqueira | Quando as mulheres deixam de ser musas e tornam-se… escritoras


Você já parou para se perguntar por que conhecemos autores como Machado de Assis, José de Alencar, Joaquim Manuel de Macedo e nunca ouvimos falar em Delfina Benigna da Cunha, Beatriz Francisca de Assis Brandão e Ana Luísa de Azevedo Castro? Por que não nos importamos em questionar o conceito de genialidade? Por que há tantos homens considerados geniais e tão poucas mulheres?

Beatriz Francisca

Nesse artigo, pretendo te convencer a se deixar conquistar pelas obras escritas por mulheres. Foram diversas poesias, poemas e prosas; há livros, publicações em revistas e muita história para contar. Algumas delas, certamente, deixarei passar, infelizmente não há tempo hábil nem mesmo memória nessa que lhes conta uma parte dessa história para compartilhar todas as mulheres que escreveram no Brasil. Mas pretendemos que esse seja o começo, um despertar de interesse na minha cara amiga leitora ou caro amigo leitor.

Além disso, escolhi te incitar nesse artigo com escritoras do século XIX. Esquecendo um pouco das célebres e notáveis autoras que estavam presentes no século XX, embora sem menosprezá-las, quero narrar aqui a história de algumas mulheres no que chamamos de Oitocentos. 

Retornarei, antes de mais nada, a uma dessas famosas autoras do século passado, mas uma inglesa: Virginia Woolf. Autora de uma literatura profunda, que nos rasga por dentro e nos faz refletir sobre os mais diversos ímpetos da sociedade de sua época, Woolf escreveu, em uma de suas obras mais conhecidas, Um teto todo seu, sobre a necessidade que existia em ter um lugar quieto, tranquilo e seguro para desenvolver uma escrita de qualidade. Nada contra Woolf, mas me parece uma prerrogativa um tanto quanto duvidosa quando consideramos algumas de nossas — posso me apropriar? — escritoras brasileiras.

Poderia aqui citar autoras do século XX que estão no auge de suas glórias em 2021. É o caso da escritora Carolina Maria de Jesus, que contou sua história como catadora de lixo, mãe solo e moradora de uma favela e que, decerto, não tinha um teto todo seu, já que mal tinha teto. Apesar disso, traz, em suas palavras, um dos textos mais brilhantes que eu, pessoalmente, já li. 

Como dito anteriormente, porém, quero falar das escritoras oitocentistas. Com elas, essa história de ter um teto todo seu também não é exatamente propício. Delfina Benigna da Cunha, por exemplo, foi uma escritora cega. Isso mesmo, cega. Desde alguns meses de vida, em razão de uma doença que a acometeu, Delfina perdeu sua visão. O que não a impediu de tornar-se escritora. Mas como?

Delfina Benigna

Bom, quando falamos de século XIX é preciso, além de tudo, saber lidar com hipóteses e fontes. Através dos jornais da época, sabemos que Delfina era cega, assim como fica evidente que era uma exímia escritora; logo, suponhamos que Delfina recitava seus poemas, enquanto um outro alguém, a depender da situação, anotava para a escritora.

Gaúcha do interior, Delfina não viveu uma vida fácil. Ser escritora no século XIX não era (e convenhamos que ainda não é) garantia de sobrevivência financeira. Muitas autoras exerciam outras profissões para que pudessem ganhar algum dinheiro, assim, estavam presentes em diversas outras áreas. A maioria, lecionava. Delfina, devido a sua deficiência, não conseguia se ocupar de outros afazeres e vivia dependendo de pensões oferecidas pelo governo e/ou de ações beneficentes. Ainda assim, escreveu até o fim de sua vida, estruturando laços de amizade com outra escritora, a mineira Beatriz Francisca de Assis Brandão.

É preciso considerar que 1.572 quilômetros separam o estado do Rio de Grande do Sul do estado de Minas Gerais. Como puderam, então, Beatriz Francisca e Delfina da Cunha tornarem-se amigas? No século XIX, essa distância demorava muito mais que algumas horas de avião para ser percorrida. Por isso, as autoras construíram essa relação quando estavam morando na então corte e capital do país, o Rio de Janeiro. 

Beatriz Francisca de Assis Brandão mudou-se para o Rio de Janeiro após um processo curioso e peculiar: separou-se de seu marido. A separação do século XIX não era comum nem fácil de ser conseguida, mas Beatriz convenceu a Igreja Católica de que seu marido não era exatamente um exemplo de um bom relacionamento. Além disso, como teria outros homens a cuidar dela, recebeu a separação e se mudou para o Rio de Janeiro em seguida. 

Autora de muitos artigos publicados em revistas e jornais do período, Beatriz conquistou um breve reconhecimento em sua contemporaneidade. Pena que verdadeiramente breve, já que, em meados do século passado, sua imagem foi aos poucos sendo apagada para que, hoje em dia, mal seja lembrada. Fez importantes amizades enquanto morou na corte e foi uma figura fundamental para a literatura brasileira do período. 

Além disso, trabalhou como professora. Estudou, contrariando os desejos de sua família, e foi uma das primeiras mulheres a passar em um concurso público para professora. Posteriormente, abriu uma escola somente para meninas, quando ainda vivia em Minas Gerais. A situação de Beatriz, que não difere muito de outras escritoras, representa a dificuldade que era, à época, viver exclusivamente de seus escritos.

Em seus textos conseguimos ver como os estudos eram negados às mulheres e como, por consequência, impedia-se que categoria de geniais as encaixasse. Nas palavras de Beatriz:

“Eu tinha conseguido a grande dita
De encontrar um Camões, e um Bernardes,

Que em um cesto jaziam esquecidos
Entre velhos e inúteis alfarrábios,
Pude escondê-los e em segredo os lia.
Que ilustração! Que fonte de ciência!”
1

O trecho acima foi retirado de um de seus poemas publicados na imprensa. Vemos que a autora relata que lia os textos em segredo. Em uma passagem anterior, Beatriz Brandão afirmou: 

“Eu, mal sabendo manejar a pena,
Confiava ao papel meus pensamentos,
Que, como um crime, a todos ocultava!”
2

Nessa passagem, a autora também revela a dificuldade de escrever sendo uma mulher no século XIX. Como dito em suas palavras, ocultava seus escritos e agia como se estivesse cometendo um crime. Felizmente, Beatriz continuou cometendo seus “crimes” e deixando muitos escritos para nós, leitoras do século XXI, nos deliciarmos. 

A catarinense Ana Luísa de Azevedo Castro também pode ser um exemplo de escritora que merecia maior atenção. Nascida no Sul do país, assim como Delfina Benigna, também teve o Rio de Janeiro presente em sua trajetória. Enquanto residia na corte, Castro foi professora, de modo semelhante a Beatriz Brandão. Vamos, assim, percebendo como as vidas dessas mulheres se assemelham entre si, destacando a longa caminhada que as escritoras do século XIX enfrentavam caso quisessem, simplesmente, escrever. 

Um dos textos mais celebrados de Ana Luísa de Azevedo Castro é o romance D. Narcisa de Villar (1858), escrito sob o pseudônimo de Indígena do Ipiranga. O romance, de cunho indigenista, foi publicado em data muito próxima à obra O Guarani (1857); no entanto, quando pensamos em livros que envolvam a temática indígena, em qual livro pensamos? D. Narcisa de Villar dá luz, em seu texto, a profundas questões femininas que não ganham destaque no livro de José de Alencar. Por isso, da próxima vez que você quiser ler uma obra que aborda esse assunto, que tal dar uma chance ao livro da Ana Luísa de Castro? 

Anúncio do livro D. Nascisa de Villa de Ana Luisa de Azevedo Castro

Esse pequeno texto não pretende ser um manifesto, tampouco está escrito no modo imperativo da língua portuguesa; trata-se apenas de um conselho. Um conselho de mulher para mulher. Para combater o patriarcado e deixar o mundo igualitário, nada mais justo que começar a ler mais mulheres, não é mesmo? E porque não começar pelas escritoras do século XIX? 

Além de um conselho, é um convite. Um convite para descobrir uma literatura inviabilizada. Que tal começarmos a ler Delfina Benigna da Cunha, Beatriz Francisca de Assis Brandão e Ana Luísa de Azevedo e Castro? Além dessas, tem muitas outras autoras a serem descobertas e (re)descobertas!


[1]  BRANDÃO, Beatriz Francisca de Assis. Marmota Fluminense, Rio de Janeiro, ed. 332, 18 jan. 1853, p. 03.

[2]  BRANDÃO, Beatriz Francisca de Assis. Marmota Fluminense, Rio de Janeiro, ed. 332, 18 jan. 1853, p. 03.


Referências bibliográficas:

CASTRO, Ana Luísa de Azevedo. D. Narcisa de Villar. Florianópolis: Ed. Mulheres, 2000.

CUNHA, Delfina Benigna da. Poesias oferecidas às senhoras rio grandenses. Porto Alegre: Tip. Fonseca e Companhia, 1834. 

CUNHA, Delfina Benigna da. Poesias oferecidas às senhoras brasileiras. Rio de Janeiro: Tipografia Austral,1838.

MUZART, Zahidé Lupinacci. Narrativa feminina em Santa Catarina (do século XIX atémeados do século XX). Revista Organon, Rio Grande do Sul, v. 16, n.16, p. 227-235, 1989.

PEREIRA, Claudia Gomes. Beatriz Brandão: mulher e escritora no Brasil do século XIX. São Paulo: Scortecci, 2005.

REIS, Laura Junqueira de Mello. Delfina Benigna da Cunha: compreensão do lugar da mulher escritora no oitocentos. In: CARULA, Karoline; RIBEIRO, Gladys Sabina. (org) Poderes, cidadanias, trocas culturais e socioeconômicas no oitocentos. São Paulo: Alameda, 2021, pp. 145 – 164. 

SANTIN, Suzete Maria. Delfina Benigna da Cunha: recuperação crítica, obra poética e fixação de texto. Porto Alegre: PUC-RS, 2011.

WOOLF, Virginia. Um Teto Todo Seu. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1985.


Laura Junqueira

Doutoranda em história política na UERJ, mestre e graduada em história pela UFJF, membra do grupo de pesquisa “Mulheres e a Escrita da História” (NEHSP – UFJF).


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