Befana, a simpática bruxinha italiana

Revista Casa D’Italia, Juiz de Fora, Ano 2, n. 16, 2021 – Mariza Fernandes | Befana, a simpática bruxinha italiana


Como sabemos, a Itália é uma terra de antigas tradições, rica de contos populares e lendas. Muitas são as histórias que, apresentando elementos reais transformados pela imaginação, são capazes de explicar fatos, lugares e personagens. Nas lendas, a realidade e a fantasia se misturam, tornando-se fundamentais para a história e a identidade  de um povo.

Um desses personagens é a Befana, que no dia 6 de janeiro distribui doces e presentes para as crianças. Mas essa já não é a função do famoso Papai Noel? Então, vamos explicar aos poucos.

Para falar da Befana, primeiramente devemos entender o que é Epifania.

Segundo a Igreja Católica, no dia 6 de janeiro comemora-se o dia da Epifania, palavra de origem grega — “epiphanei” (com o tempo a palavra sofreu uma transformação, beffanei, befania, befana) — que significa “aparição”, ou seja, é o dia consagrado ao aparecimento dos Reis Magos. No Brasil comemora-se o Dia de Reis e saem pelas ruas de várias cidades do país as famosas Folias de Reis, enquanto que, na Itália, comemora-se o Dia da Befana.

A origem da Befana se perde um pouco no tempo. Já na época etrusca, antes dos romanos, havia um antigo culto pagão em que uma figura com uma vassoura era símbolo da limpeza e protetora dos lares. Os primeiros ritos pagãos, gregos e romanos eram dedicados ao início do  inverno e às festas ao deus Sol que se iniciavam no dia 25 de dezembro e terminavam no dia 6 de janeiro. Era comum queimar um grande carvalho e o carvão resultante era símbolo de fertilidade e bom presságio. Na noite do dia 5 para o dia 6 de janeiro, Diana, que era a deusa romana protetora das florestas, voava sobre as plantações trazendo boa sorte. Provavelmente, o mito da Befana se origina aqui. Várias pesquisas arqueológicas e antropológicas demonstraram que traços de culturas arcaicas sobreviveram através de formas e símbolos que lembram figuras míticas. Podemos dizer que a Befana é uma delas.

Velha, feia, corcunda, queixo pontudo, verruga no nariz, chapéu cônico, suja de cinzas porque entra através das chaminés das lareiras e portando sempre uma vassoura mágica. Isso mesmo, a Befana é nada mais, nada menos que uma bruxa, ou melhor, uma bruxinha boa, generosa e amada por todos, principalmente pelas crianças, que escrevem cartas pedindo presentes para que, no dia da Befana, dela recebam doces, frutas, balas, castanhas e presentes. Mas já na véspera começam os preparativos, pendurando meias nas lareiras para que a bruxinha passe, traga os presentes pedidos e encha as meias de guloseimas. Nessa noite as crianças dormem com receio de que a bruxinha entre em seus quartos.

O motivo de toda essa generosidade é explicada em uma das tantas lendas que existem sobre o Natal.

Naquela época, indo para Belém para homenagear o Menino Jesus que acabara de nascer, os três Reis Magos pararam nas proximidades de uma casinha simples a fim de saber qual direção tomar. Bateram à porta e uma velha senhora, toda suja e cansada, pois estava fazendo o serviço de casa, atendeu. Ao ser indagada sobre qual direção tomar para Belém, pois estavam levando presentes para o Menino Jesus , a mulher, que não entendeu o que eles queriam, disse que não sabia. Então eles pediram para que ela se unisse a eles para encontrá-Lo, juntos. A mulher recusou, alegando que ainda tinha muito serviço a fazer. Mais tarde, arrependida, decidiu procurá-los, mas já era tarde. Apesar da cansativa procura por horas e horas em vão, resolveu dar um presente a todas as crianças que encontrasse, na esperança de que uma delas fosse o Menino Jesus. E, a partir de então, todos os anos, no dia 6 de janeiro, vai à casa de cada criança e deixa um presente para as que foram boas durante o ano e um carvão para aquelas que se comportaram mal. Desse modo, ela tem uma função pedagógica importante no desenvolvimento da criança, punindo-a por ter se comportado mal durante o ano e premiando-a por ter sido boa.

Hoje em dias as coisas são um pouquinho diferentes, pois o carvão é substituído por um doce escuro, feito com corante e caramelo, mas os valores continuam representados.

Em toda a Itália comemora-se esse dia com muita festa, meias nas janelas, bonecas da bruxa e até mesmo com iluminações especiais. Mas em algumas regiões os festejos são mais intensificados.

Como a Befana representa o ano que findou, terminam oficialmente as festividades do Natal e a vida volta ao normal. Em muitos lugares, principalmente no centro e no sul da Itália, queimam a bruxinha em uma fogueira, com o propósito de deixar para trás o ano velho e esperar o ano novo.

A cidade de Urbania, na região do Vêneto, há mais de 20 anos celebra a mais famosa festa da Befana. Assim como o Papai Noel vive no Polo Norte, a casa da Befana encontra-se em Urbania, onde as crianças deixam as cartinhas. Além disso, confeccionam uma meia com 50 metros de comprimento e a Befana faz um voo acrobático de 36 metros de altura.

Cidade de Urbania

Em Veneza é realizada a Regata das Befanas, que é um desfile na água ao longo do Canal Grande, onde os remadores vestem-se  de bruxas com narizes grandes e lenços na cabeça.

Em Roma realiza-se, na Praça Navona, a famosa Feirinha da Befana, onde podemos comprar bonequinhas da bruxa, meias com doces e vários objetos para comemorarmos a festa. Enfim, comemorar a Befana significa celebrar os costumes, as tradições e a união de todos, sejam adultos ou crianças.

Sugestão de filme:
A lenda da Befana (em italiano: La Befana vien di notte?)
É a história de uma professora muito amada pelos alunos e que guarda um grande segredo: à noite se transforma na Befana. Com Paola Cortelles, o filme estreou no Brasil no dia 8 de fevereiro de 2020. As crianças vão adorar!


Referências:

La Befana: uma legenda tutta italiana  https://www.mandamentonotizie.it/la-befana-una-leggenda-tutta-italiana/

Ufficio turismo Urbania http://www.comune.urbania.ps.it/vivere-urbania/turismo

Brasil ESCOLA Curiosità di Natale https://brasilescola.uol.com.br/natal/curiosidades-natal.htm


Mariza Fernandes

Possui Licenciatura em letras pela UFJF (Universidade Federal de Juiz de Fora). Professora e diretora de cursos na Cultura Italiana desde 1987. Presidente e dançarina do Grupo de Dança Folclórica Italiana Tarantolato desde a sua fundação em 2000.


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