Periferia em roda: o rap nas aulas de história

Revista Casa D’Italia, Juiz de Fora, Ano 2, n. 16, 2021 – Diogo Tomaz Pereira | Periferia em roda: o rap nas aulas de história não morre jamais


A primeira vez que vi uma análise de letra de música na escola, enquanto aluno, foi no 7º ano do ensino fundamental. A professora de Português colocou para ouvirmos Pra não dizer que não falei das flores,do Geraldo Vandré. Eu achei aquilo tudo fantástico, não à toa, sei a música inteira até hoje. A explicação da professora sobre o contexto em que a música foi criada só deixava as coisas mais ainda espetaculares na minha cabeça. Uns bons anos se passaram, me tornei professor de História e, sempre que posso, utilizo em minhas aulas as mais diversas canções para debater determinados assuntos.

No final de 2019, juntamente com um professor de Português, elaboramos um projeto chamado Periferia em Roda. Nele, debatíamos sobre desigualdades sociais, racismo, exclusão social e intolerâncias através de letras de rap. A primeira escolhida foi a canção Periferia é Periferia,do grupo paulistano Racionais MC’s, formado em 1988 e que ainda causa um grande impacto cultural. A música faz parte do álbum Sobrevivendo no Inferno (que vendeu mais de 1 milhão de cópias) e recentemente foi transformado em livro e adicionado à lista de obras obrigatórias para o vestibular da Unicamp.

Racionais MC’s

A canção é de uma riqueza admirável. É possível fazer uma análise histórica de como o Racionais participou do debate público de sua época, utilizando suas canções como uma espécie de suporte de circulação de ideias, por meio do qual esses jovens compositores divulgaram princípios, visões de mundo e opiniões sobre o Brasil, a partir da experiência e vivência da periferia. Além disso, é interessante notar como o rap tornou-se a identidade cultural de um grupo social e do espaço geográfico em que está inserido.

“Este lugar é um pesadelo periférico
Fica no pico numérico de população
De dia a pivetada a caminho da escola
À noite vão dormir enquanto os manos ‘decola’
Na farinha… hã! Na pedra… hã!
Usando droga de monte, que merda! hã!”

[…]

“Porque o chefe da casa, trabalha e nunca está
Ninguém vê sair, ninguém escuta chegar
O trabalho ocupa todo o seu tempo
Hora extra é necessário pro alimento”

[…]

“Ser escravo do dinheiro é isso, fulano
360 dias por ano, sem plano
Se a escravidão acabar pra você
Vai viver de quem? Vai viver de quê?
O sistema manipula sem ninguém saber
A lavagem cerebral te fez esquecer
Que andar com as próprias pernas não é difícil
Mais fácil se entregar, se omitir
Nas ruas áridas da selva
Eu já vi lágrimas demais,
o bastante pra um filme de guerra”

A música possui pouco mais de seis minutos e é rica em referências culturais, de críticas ao preconceito racial e à exclusão social. Ao trabalharmos com Periferia é periferia foi interessante também capacitar o aluno a compreender questões do mundo contemporâneo por meio da poesia. Nos espaços periféricos, a construção de saberes e da cultura foge dos padrões institucionais e se fundamenta nas experiências concretas das pessoas no seu cotidiano. Agora que se tornou obrigatório para um dos vestibulares mais concorridos do Brasil, seria interessante compreender a importância do Racionais dentro da Literatura Brasileira.

“Mano, que treta, mano! Mó treta, você viu?
Roubaram o dinheiro daquele tio!”

[…]

“Que se esforça sol a sol, sem descansar
Nossa Senhora o ilumine, nada vai faltar
É uma pena. Um mês inteiro de trabalho
Jogado tudo dentro de um cachimbo, caralho!
O ódio toma conta de um trabalhador
Escravo urbano
Um simples nordestino
Comprou uma arma pra se auto-defender
Quer encontrar
O vagabundo, q’essa vez não vai ter… boi”

[…]

“Periferia é periferia
(Que horas são? Não sei responder)
Periferia é periferia
(Milhares de casas amontoadas)
Periferia é periferia
(Vacilou, ficou pequeno. Pode acreditar)
Periferia é periferia (em qualquer lugar)
(Gente pobre)
Periferia é periferia
(Vários botecos abertos, várias escolas vazias)
Periferia é periferia
(E a maioria por aqui se parece comigo)
Periferia é periferia
(Mães chorando, irmãos se matando.
Até quando?)
Periferia é periferia
(Em qualquer lugar. Gente pobre)”

Qual foi o impacto desse projeto? Quando trabalhamos com músicas em nossas aulas, por exemplo, conseguimos construir um conhecimento por meio de um recurso didático motivador e prazeroso já muito utilizado por alunos e professores. São inúmeras as possibilidades a serem usadas, mas, para que haja êxito, é preciso reconhecer que a música é uma importante experiência cotidiana. Ela tem o poder de mexer com os sentimentos, de maldizer ou enaltecer, de “parar o tempo”, de inspirar virtudes, de criticar e, principalmente, de ensinar. Torna-se importante trabalhar a diversidade de músicas, fornecendo ao aluno uma oportunidade de conhecer outros gêneros e artistas. Como diz Pierre Bourdieu em O Poder Simbólico, “não é possível gostar daquilo que não se conhece”. 

A música está e esteve sempre presente em nossas vidas e faz parte de nossa educação. Aproveitando-se disso, a utilização de músicas em sala de aula pode funcionar como um elemento auxiliador e potencializador do ensino. Conectando o lúdico ao processo de aprendizado, é possível extrair dos alunos um desempenho melhor, visto que o ambiente descontraído e leve, somado à atmosfera que a música proporciona, facilitaria a obtenção de conhecimento.

Para Ernst Fischer, “a experiência de um compositor nunca é puramente musical, mas pessoal e social, isto é, condicionada pelo período histórico em que ele vive e que o afeta de muitas maneiras”. Dessa maneira, ao levarmos músicas para dentro das aulas de História, teremos uma pluralidade de maneiras táticas pedagógicas que serão muito vantajosas para a troca de conhecimento. Muitas músicas refletem os costumes e valores de determinadas sociedades em períodos diferentes. Além disso, é possível analisar criticamente contextos que são abordados, assim como expressões ou gírias típicas de regiões diferentes. 

As possibilidades para se trabalhar na área de linguagens são enormes. Segundo Suzane Jardim, nessa música “vemos um retrato em primeira pessoa de uma realidade concreta, sem tradição em ser central na poesia. O cotidiano de um homem em seu dia a dia na periferia é narrado de modo métrico, rimado, tal qual muitos poemas, mas seu objeto é peculiar à norma — trata-se de uma das camadas mais excluídas e invisíveis da sociedade aparecendo como protagonista”. Essa análise de Suzane Jardim abre portas para se discutir um assunto muito atual: o preconceito linguístico. 

Ao julgarmos alguém pela forma como se expressa ou escreve, estamos excluindo-a socialmente. Por mais que a norma culta não esteja sendo seguida, ele consegue se expressar e transmitir a mensagem.


Referências bibliográficas:

BOURDIEU, Pierre. O Poder Simbólico. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2010.

FISCHER, Ernest. A necessidade da Arte. 5ª ed. Rio de Janeiro: Zahar; Casa da Moeda, 1984.

RACIONAIS MC’S. Sobrevivendo no Inferno. 1ª ed. São Paulo: Companhia das Letras, 2018.


Diogo Tomaz Pereira

A experiência do seu Podcast e a resposta com os seus alunos (História nerd).
Possui Licenciatura (2014) e Mestrado (2017) em HISTÓRIA pela Universidade Federal de Juiz de Fora; onde também adquiriu a experiência como Paleógrafo. Leciona desde 2014 e, em suas aulas, gosta de utilizar ferramentas que possibilitem a construção do conhecimento histórico de forma mais leve e descontraída, como músicas, games, séries, filmes, HQ’s.


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