A Noite de São Lourenço: estrelas cadentes e a guerra na Itália

Revista Casa D’Italia, Juiz de Fora, Ano 2, n. 16, 2021 – Conrado Braga | A Noite de São Lourenço: estrelas cadentes e a guerra na Itália


No dia 10 de agosto, comemora-se entre os católicos o dia de São Lourenço, mártir espanhol que morreu queimado em Roma após rebelar-se contra as perseguições aos cristãos empreendidas pelo imperador Valeriano. Embora o dia do santo não seja uma ocasião festiva tão relevante, os italianos tradicionalmente consideram a noite de 10 de agosto como uma data mágica, um momento especial para ver estrelas cadentes.

Segundo os astrônomos, as estrelas cadentes, apesar do poético e eloquente nome, são na verdade pequenos meteoros que entram em nossa atmosfera em alta velocidade e logo se desintegram. No processo de desintegração, o objeto do espaço pega fogo, provocando um rápido e intenso brilho no céu ao qual algum ser espirituoso deu o nome de estrela cadente e que, convenhamos, é bastante autoexplicativo. Por incrível que pareça, o fenômeno não é tão raro, mas naturalmente exige que nós, terráqueos, demos mais atenção ao céu noturno, e isso sim não é tão comum em um mundo cada vez mais apressado, iluminado e conectado. Não seria um erro dizer que as estrelas cadentes estão em cartaz todas as noites, mas sofrem por falta de público.

Se o leitor já viu uma estrela cadente certamente ficou comovido, porque de fato é uma cena inesquecível. Mas além do impacto com a visão de uma estrela, ou melhor, um meteoro inofensivo caindo do céu, toda pessoa que vê uma estrela cadente tem direito a um desejo, porque o fenômeno é sinal de boa fortuna. É por isso que a noite de São Lourenço, no dia 10 de agosto, é no imaginário popular de alguns italianos o momento ideal para que as pessoas se reúnam em locais poucos iluminados, especialmente na zona rural, e aguardem o fenômeno astronômico típico do verão europeu. Assim, além do privilégio de fazerem os seus desejos, os italianos podem contemplar um acontecimento que seria mais racionalmente explicado pelos cientistas como uma chuva de meteoros.

Em 1982, os irmãos cineastas Paolo e Vittorio Taviani conceberam a obra-prima de suas carreiras, o filme A Noite de São Lourenço (La Notte di San Lorenzo). Herdeiros do neorrealismo italiano, os irmãos partiram de um título que nos remete ao acontecimento mágico da noite das estrelas cadentes para contar uma história bastante comovente sobre o final da Segunda Guerra Mundial na Itália, um momento duro e de muito sofrimento para os habitantes das regiões disputadas entre nazifascistas e os aliados, liderados pelos Estados Unidos. Essa ambiguidade entre o nome do filme e o seu conteúdo é certamente uma das características mais marcantes da obra, já que os irmãos nos mostram como os horrores da guerra e as privações sofridas pelos seus personagens foram capazes de transformar momentos que em circunstâncias normais seriam felizes em experiências melancólicas. Isso acontece no filme quando um casamento se torna uma apressada e triste despedida familiar, quando o cenário idílico do interior da Toscana é convertido em um sangrento campo de batalha ou na cena em que uma noite rara e estrelada é reduzida a apenas mais uma noite de sono intranquilo ao som dos bombardeios alemães. Os irmãos Taviani nos mostram que aquele era um momento em que os italianos olhavam para o céu não para contemplar as estrelas, mas temendo que dele viesse uma bomba.

Cartaz

O filme nos apresenta as privações dos moradores de um pequeno vilarejo chamado San Martino, assombrado pela sua iminente destruição por explosivos alemães. A história se passa em 1944, quando a Itália era um dos principais palcos da Segunda Guerra Mundial e seu território disputado entre alemães e as tropas aliadas lideradas pelos Estados Unidos. A Itália já havia se retirado da guerra em 1943 e, na obra dos irmãos Taviani, a chegada dos norte-americanos ao país é dada como certa, mesmo que ainda existam algumas cidades invadidas por nazistas, como no caso de San Martino. Embora o pároco da cidade oriente os moradores que se escondam das bombas dentro da Igreja, local supostamente respeitado pelos alemães, um grupo de moradores céticos abandona a cidade e parte sem rumo estrada afora, fugindo da morte.

A morte é uma constante no roteiro. Ela está sempre à espreita, ela é sempre uma possibilidade. Assim era a Itália em 1944, nos momentos finais da guerra que marcou para sempre a história do país cujo governante, alguns meses depois, seria executado pela resistência italiana ao fascismo e exposto em praça pública em Milão. Uma das personagens do êxodo de moradores de San Martino rumo ao desconhecido é uma mulher grávida, amparada pelo seu marido, uma alusão à história cristã. Só que os irmãos Taviani não permitem que o seu bebê nasça, representando em uma triste cena o destino de tantos Giovanis que nunca vieram ao mundo e não tiveram a oportunidade de viver a Itália pós-guerra. O filme, sendo uma obra sobre a guerra, é marcado por essas rupturas familiares, pelas despedidas, pelo abandono da cidade natal e da vida pregressa por milhares de pessoas. 

Os irmãos Paolo e Vittorio Taviani sabem representar os horrores da guerra e as privações dos personagens em momentos marcantes do filme, como na cena em que um andarilho morre em frente ao grupo de fugitivos, deixando cair uma cesta repleta de ovos ao seu lado. O corpo é brevemente contemplado, a morte sinceramente lamentada, mas em seguida uma personagem apanha o cesto de ovos e o grupo segue sua jornada. Outros belos momentos criados pelos irmãos são aqueles em que representam a ingenuidade e a inocência de uma jovem criança que, sem discernir a dimensão da guerra que enfrenta, consegue encontrar momentos de alegria e esperança em meio à destruição de seu país, como na cena em que a jovem menina comemora a destruição de sua casa, pois assim poderia finalmente se mudar para Florença.

Durante a Segunda Guerra Mundial, a Itália sofreu grandes transformações em um período relativamente curto. Em 1943, por exemplo, um ano antes dos acontecimentos de A Noite de São Lourenço, a Itália lutava para superar um regime fascista que poucos anos antes desfrutava de grande apoio até mesmo dos intelectuais do país. De apoiador do regime nazista e aliado de Hitler, o governo de Mussolini se viu diante de um movimento de resistência que reunia em alguns casos mais de 100 mil combatentes (HOBSBAWM, 1994), protagonizando lutas armadas verdadeiramente sangrentas que resultaram no saldo de 45 mil mortos no norte do país. Os irmãos Taviani criaram um filme sobre a guerra, mas foram muito bem-sucedidos ao demonstrar ao seu público a natureza complexa dos conflitos travados no interior da Itália. Em uma das cenas mais marcantes e chocantes da obra, nos vemos diante de um confuso confronto entre camponeses da resistência e colaboradores fascistas italianos, que se enfrentam em uma plantação de trigo, atirando em armas de fogo sem muita certeza do destino dos disparos, ferindo os próprios colegas e perdendo em poucos minutos amigos de toda uma vida. Em um momento memorável, soldados fascistas e da resistência se veem lado a lado socorrendo os seus feridos e trocando uma garrafa de água entre si, para então se darem conta do engano e atirarem uns nos outros.

Não deixa de ser irônico que o grande confronto armado do filme ocorra exatamente na manhã seguinte à folclórica noite de São Lourenço, quando, supomos, tantos italianos pediram às estrelas cadentes que a guerra terminasse. Os irmãos Taviani validam o caráter mágico da data e os seus efeitos, tanto é que justamente após a noite de São Lourenço os horrores da guerra começam a cessar e os moradores de San Martino ganham o direito de retornar a sua terra arrasada. Outros milagres acontecem, como o casal que finalmente se beija após 40 anos de amor reprimido, uma das poucas cenas mais sentimentais da obra. O dia 11 de agosto, sob uma chuva de verão, é celebrado pelos italianos como um momento de paz. Certamente, muitos dos personagens dessa história fizeram os seus pedidos às estrelas cadentes e foram atendidos. É de se imaginar que os soldados fascistas também tenham feito os seus pedidos, mas, estando em menor número, acabaram sendo superados. Assim acontece na guerra das estrelas cadentes.

Apesar do retrato realista da dura vida na Itália do fim da guerra, os irmãos Taviani criaram um filme de desfecho otimista, já favorecidos pelo distanciamento do tempo e pelo conhecimento do futuro de seu país, que no período pós-guerra vivenciou um ótimo momento econômico que, inclusive, favoreceu o surgimento dos primeiros cineastas neorrealistas e grandes influenciadores dos Taviani. A Noite de São Lourenço foi o vencedor do prêmio do júri no Festival de Cannes e é frequentemente listado como uma das obras essenciais do cinema italiano. O filme nos mostra que alguns desejos podem se tornar realidade e que para ver uma estrela cadente é preciso antes de tudo olhar para o céu, principalmente em tempos tão sombrios. 


Referências bibliográficas:

HOBSBAWM, Eric J. Era dos Extremos: o breve século XX: 1914-1991. São Paulo: Companhia das Letras, 1995.

BALLERINI, Franthiesco. História do cinema mundial. São Paulo: Summus, 2020. 


Conrado Braga

É graduado em História pela UFJF, onde atua como servidor. Cinéfilo, escreve sobre filmes na internet desde 2010 em seu blog Creio, logo duvido.


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