Uma Comunidade Prática que não morre jamais

Revista Casa D’Italia, Juiz de Fora, Ano 2, n. 15, 2021 – Mario Gaio | Uma Comunidade Prática que não morre jamais


Todos os juiz-foranos, arrisco dizer, conhecem a Casa D’Italia. Aquele prédio de estilo arquitetônico pesado bem no meio da Av. Rio Branco, com a insígnia DOMVS ITALICA em letras garrafais na sua fachada, não passa despercebido por ninguém. Já sua história, essa costuma ser bem conhecida só pelos juiz-foranos-raiz. Como os leitores dessa revista se encaixam num espectro bem amplo, cabe um breve resumo. A Casa D’Italia de Juiz de Fora foi construída na década de 30 do século passado e não foi a única no Brasil nem no mundo, embora seja uma das poucas ainda de pé. Fazia parte de um projeto de Mussolini, que queria a qualquer custo buscar uma unidade nacional. Tentava resgatar um sentimento de italianidade entre cidadãos expatriados e cooptar seus filhos e netos. O projeto, visto dessa forma, até parece interessante, mas, lembremo-nos, era uma ideia de caráter fascista e o Duce não contava com algumas pedras no seu caminho.

Primeiro, essa aberração ideológica chamada fascismo estava longe de ser unanimidade entre os italianos expatriados; segundo, nessa mesma década, o Brasil de Vargas entrava no período conhecido como Estado Novo, que tinha como uma de suas principais marcas a promoção do sentimento nacionalista; terceiro, no ano da sua inauguração, 1939, começava a Segunda Guerra Mundial e a Itália se posicionou com o eixo, o que a colocava como inimiga dos aliados. Assim, com a entrada do Brasil na guerra, a Casa foi fechada e ocupada pelo exército brasileiro. A escola italiana que ali funcionava, denominada Umberto I (não era escola de língua italiana, mas uma escola italiana tal e qual as da Itália e fomentada pelo governo italiano), foi substituída pelo Grupo Escolar Duque de Caxias. Pensem na simbologia dessa mudança!

Passado o terrível conflito bélico, a edificação foi devolvida ao governo italiano em 1955 e aí começa o renascimento da Casa D’Italia como instituição, um potencialmente poderoso elemento de representação da comunidade italiana de Juiz de Fora, sem vínculos que a relacionassem à abominação fascista.

Nessa nova fase, era preciso fazer a Casa funcionar. Em meados dos anos 60 instala-se em suas dependências a Associação de Língua e Cultura Italiana, essa mesma que funciona até hoje. Nesse período, o prédio abre espaço para diversos eventos e passa a ser uma das referências culturais da cidade. Nos anos 70, entretanto, a Casa D’Italia entra em decadência, culminando, já nos anos 80, com a ameaça de venda por parte do governo italiano. Uma grande mobilização dos italianos e seus descendentes, que contou com o apoio de outros setores da sociedade, consegue impedir a concretização do negócio e o prédio é tombado pelo Patrimônio Histórico e Cultural de Juiz de Fora. Uma vitória retumbante! Nos anos 90 surge a Associação Cultural San Francesco di Paola, com a função de administrar a Casa D’Italia e tudo o que ali funcionava. Há também, nessa mesma época, o retorno, ainda que tímido, das atividades diplomáticas nas vestes de um agente consular, ligado diretamente ao consulado italiano de Belo Horizonte.

No início do século XXI nasce o grupo de dança Tarantolato, que se vale dos espaços da Casa para seus ensaios e sua logística. Instala-se também um restaurante especializado em culinária italiana e assim a Casa vai retomando sua função natural de centro cultural com eventos gastronômicos, shows musicais, mostra de arte, fotografia e mais. Entretanto, assim como em Winden[1] e seus eventos que se repetem ciclicamente no tempo, o governo italiano arrisca nova tentativa de venda do prédio por meio de um leilão público. Mais uma vez, a comunidade italiana, agora composta praticamente só pelos descendentes, e mais uma vez junto com boa parte da sociedade juiz-forana, se mobiliza para rechaçar aquilo que é no mínimo um abuso ético: a Casa D’Italia, embora pertença ao governo italiano, nunca teve seu apoio para nada.

Nesse breve relato histórico percebemos que, de tempos em tempos, a Casa D’Italia sofre ameaças à sua própria existência, que são contestadas, refutadas e repelidas por meio de mobilizações da sociedade juiz-forana e capitaneada pelos filhos, netos e bisnetos de italianos da cidade. Vale lembrar que a primeira grande mobilização se deu ainda antes da sua própria construção, uma vez que o governo italiano da época, grande promotor da ideia, contribuiu com míseros 10% do montante necessário. Como relata a historiadora Valéria Ferenzini, todo o resto foi financiado por meio de doações de membros da então chamada colônia italiana. No campo das ciências sociais, esse tipo de mobilização recebe o nome de Comunidades de Prática. Vamos explicar.

Na década de 90 do século XX, o educador suíço Etienne Wenger e a antropóloga estadunidense Jean Lave desenvolveram um estudo em conjunto e observaram um padrão de comportamento que ocorre quando um grupo de pessoas se reúne para atingir objetivos de interesse coletivo. A esse padrão, deram o nome de Comunidade(s) de Prática (CP). Há três pilares básicos para que uma CP se configure como tal:

  • Comprometimento recíproco;
  • Objetivo comum;
  • Repertório comum.

Os dois primeiros elementos são autoexplicativos. O repertório é aquilo que os membros do grupo compartilham entre si, tais como experiências semelhantes. Para exemplificar, italianos e descendentes costumam compartilhar hábitos culturais, como na culinária e em celebrações, e também linguísticos, mesmo que apenas por meio de pequenas expressões ou palavras.

A partir dessa ideia, o psicólogo e professor da Faculdade de Economia da Universidade Católica de Milão, Giuseppe Scaratti, identificou que as CP têm uma espécie de ciclo de vida, composto de cinco etapas: Potencial, Agregativa (ou de adesão), Ativa, Dispersiva e Memorial. Seu nascimento se dá quando aquelas três condições básicas para a sua constituição são reunidas. Para ser didático e aproveitando a metáfora do ciclo de vida, ilustro essas fases assim: a fase Potencial é a infância; a Agregativa é a adolescência; a fase Ativa é aquela das pessoas adultas e produtivas; a maturidade representa a fase Dispersiva e a terceira idade corresponde à Memorial.

Percebam que a Casa D’Italia de Juiz de Fora é protagonista e motivadora de formação de CP em três ocasiões ao longo de seus mais de 80 anos de história. A primeira delas, sua própria construção, uma vez que o governo italiano fez muita propaganda, mas na hora da verdade foi a comunidade dos italianos da cidade que tomou a iniciativa, com o irrestrito apoio do empresário da construção civil Pantaleone Arcuri. Despertaram a fase Potencial por meio de uma ideia. A partir dela, passou a haver um objetivo comum e um comprometimento recíproco, baseados, é claro, no repertório comum, a própria italianidade. Cerca de 50 anos depois, surge novamente uma CP, cujo fator motivador era a ameaça à existência do prédio — e tudo o que ele representava — pela sua possível venda.

Observando o ciclo da vida de uma CP, identificamos claramente que as duas citadas estão em sua fase Memorial. O próprio fato de eu estar escrevendo sobre isso evidencia essa memória. Naturalmente, não está na memória dos partícipes da primeira, mas há uma memória coletiva que é transmitida entre as gerações, tamanha foi sua importância.

Quando tudo parecia sossegado, a Casa funcionando bem, diversos projetos culturais sendo implantados, o que inclui a publicação dessa revista, a Casa D’Italia sofre mais uma pancada. Em 2020, o presidente da Associação San Francesco di Paola recebe uma notificação extrajudicial de despejo, emitida pelo consulado italiano de Belo Horizonte. A Casa deveria ser entregue em 30 dias! Tudo de surpresa, sem aviso prévio, sem nenhum tipo de diálogo, como ele mesmo relatou ao portal G1. Entretanto, como nas décadas de 30 e 80, a boa história se repetiu, agora com outros personagens, mas com os mesmos princípios elementares de uma CP.

A movimentação teve enorme repercussão, graças também às mídias sociais, que aumentaram a velocidade e o alcance da transmissão da informação. Tamanha foi a comoção que o caso chegou rapidamente a Roma e a venda foi suspensa, de acordo com a informação do senador Ricardo Merlo, subsecretário do Ministério das Relações Exteriores da Itália, veiculada em sua conta do Twitter. Embora toda a comunidade italiana — e juiz-forana, por extensão — ainda esteja em estado de alerta, foi admirável sua demonstração de força e capacidade de organização nessa empreitada. Em cerca de 15 dias, o que parecia inevitável se tornou mais uma ação bem-sucedida de uma CP que parece existir perenemente, sempre à espreita, pronta a ressurgir para defender os interesses de tudo o que representa a Casa D’Italia de Juiz de Fora. Essa última CP ainda está em sua fase Dispersiva e, se necessário, retorna facilmente à fase Ativa.

Parece que em torno dessa Casa e de todo o ecossistema cultural que ela representa (sim, ela se constitui num ecossistema cultural, tema para outro artigo) há uma CP adormecida, mas em estado de alerta. A cada ameaça, seu ciclo de vida se refaz, mesmo numa longa distância temporal entre um e outro, numa clara demonstração de que há outra etapa além das cinco listadas pelo professor Scaratti. Essa etapa eu chamo de Latente. Em um estado de latência permanente, a Casa D’Italia tem uma CP toda sua. Ela não morre e renasce, mas desperta de um estado de hibernação.

A mobilização de pessoas para reivindicar algo de interesse comum ou defender causas importantes não é um fenômeno raro. Quando essas mobilizações atendem a certos pré-requisitos, elas são chamadas de Comunidades de Prática, cujo ciclo de vida tem normalmente cinco fases. O sui-generis aqui é que o ecossistema cultural cujo meio ambiente é a Casa D’Italia tem uma CP que, parece, nunca morre. À sua fase Memorial segue uma sexta fase, que chamo de Latente, da qual desperta tão logo pressinta uma ameaça à existência de seu símbolo maior. Vida longa à Casa D’Italia!


[1] Winden é uma cidade fictícia alemã, locação da série Dark, produzida e exibida pela Netflix. Dark é uma série de ficção que envolve viagens no tempo e conceitos de física. Seu enredo se estrutura em torno de eventos semelhantes acontecem ciclicamente a cada 33 anos.


Referências bibliográficas:

FERENZINI, Valéria Leão. Os italianos e a Casa d’Italia de Juiz de Fora. Locus: revista de História da UFJF. Juiz de Fora, v. 14, n. 2 p. 149-159, 2008

GAIO, Mario Luis Monachesi. Etnicidade em Movimento: Os Processos de Transculturalidade Revelados nos Brasileirítalos do eixo Rio de Janeiro-Juiz de Fora. Berlim: Peter Lang, 2018

SCARATTI, Giuseppe. L’(in)effabile dicibilità delle comunità di pratica. Prefácio à edição italiana. In: WENGER, Etienne. Comunità di Pratica. Apprendimento, significato e identità. Raffaello Cortina Editore. Milano, 2006

WENGER, Etienne. Comunità di Pratica. Apprendimento, significato e identità. Raffaello Cortina Editore. Milano, 2006 [1998]

Portais de notícia:

https://g1.globo.com/mg/zona-da-mata/noticia/2020/10/02/consulado-italiano-coloca-imovel-da-casa-ditalia-em-juiz-de-fora-a-leilao-presidente-da-associacao-diz-que-foi-pego-de-surpresa.ghtml

https://g1.globo.com/mg/zona-da-mata/noticia/2020/10/02/consulado-italiano-coloca-imovel-da-casa-ditalia-em-juiz-de-fora-a-leilao-presidente-da-associacao-diz-que-foi-pego-de-surpresa.ghtml


Mario Gaio

É Doutor em Estudos de Linguagem em cotutela pela Universidade Federal Fluminense e pela Europa-Universität Viadrina. Concluiu Pós-Doutorado “nota 10” pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Rio de Janeiro (FAPERJ); É autor de “Etnicidade Linguística em Movimento: Os Processos de Transculturalidade Revelados nos Brasileirítalos do Eixo Rio de Janeiro-Juiz de Fora” (2018), publicado pela editora Peter Lang, Berlim. É membro do LABPEC-UFF (Laboratório de Pesquisas em Contato Linguístico – UFF). Escritor nas horas vagas, atualmente atua como revisor e editor de textos, tradutor de italiano – português e parecerista de revistas acadêmicas da UFF, da UnB e da editora do SEPOLH – Simpósio Europeu sobre o Ensino de Português como Língua de Herança.


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