O pão de Dante

Revista Casa D’Italia, Juiz de Fora, Ano 2, n. 15, 2021 – Gustavo Burla | O pão de Dante


Come sa di sale lo pane altrui. Tudo isso para dizer saudade. Quase um banzo de Dante Alighieri quando foi proibido de voltar para a Florença pela qual lutou, na qual amou e onde, dizem alguns de lá, está enterrado. Quem visita a Chiesa di Santa Croce acredita ou não, conforme a palavra do guia que acompanha.

Se nossa saudade de influência ibérica é uma mistura de coração e cabeça, as palavras toscanas não descartam o estômago (ou seria isso Camilo Castelo Branco?). Como bom florentino, Dante era glutão, tinha com a comida uma intimidade respeitosa e sábia, pois nasceu e gostaria de ter morrido em uma das cidades mais importantes do ocidente nos últimos séculos.

Berço de tantas maravilhas e nomes famosos, muitos dos quais transformados em estátua no pátio da Galleria degli Uffizi, Florença tem nas flores a origem do nome e na mesa a semente das artes. Se no Brasil são diferentes as etapas do modernismo, posto que nem todas aconteceram durante a semana de 1922 (o teatro só mudou com O vestido de noiva, de Nelson Rodrigues, mais de duas décadas depois), o Renascimento foi consequência de outra redescoberta: a gastronômica.

O final da Idade Média tinha pouca criatividade nos pratos e escassez de alimento. Não havia fila para comprar osso, mas também não tinha a fartura de um banquete presidencial para empresários apoiadores. Era um período de vacas magras, mas ainda assim de vacas, não do gado genérico do Brasil atual. A entrada do século XIV traz o renascimento gastronômico (link: https://www.taccuinigastrosofici.it/ita/news/contemporanea/antropologia-alimentare/arte-culinaria-ai-tempi-di-Dante-e-Boccaccio.html), com leituras e buscas em textos anteriores, escritos por monarcas em suas cortes, e a retomada da cozinha da Roma antiga. O período também contava com experimentações e aproveitava a produção local.

Florença é uma cidade carnívora, terra de javalis que não dispensava outras partes da fauna local e próxima. Tudo era aproveitado, herança da carência medieval, incluindo do lombo ao bucho, mas cada vez mais com contornos estilizados. Nesse contexto de alquimia na cozinha nasceu Durante degli Aldighieri, crescendo entre provas gastronômicas e políticas.

Quando ainda berrava seus primeiros vulgares incompreensíveis e se contentava com o peito materno, Florença iniciava experimentações de temperos nos pratos e convivia com os embates políticos. A cidade se dividia entre guelfi e ghibellini, grupos que tinham dinheiro, terras e queriam poder. De meados dos anos 1260 até 1280, a troca de tapas se misturava qual sal e pimenta numa pancetta.

O cardeal Latino Malabranca estabeleceu a paz em 1280, enquanto o debutante Dante se inteirava das posições políticas de seu solo e por ele flanava até encontrar Beatriz pela primeira vez no meio do caminho. Se apaixonou pela jovem (ele também era, embora um pouco mais velho) e fez dela um dos símbolos da cidade. O camino no mezzo do qual se encontraram é ponto turístico (e poema de Olavo Bilac), a casa dela tem uma pintura na porta e toda uma das mais importantes obras da literatura foi feita para que ele a reencontrasse no Paraíso. Ela morreu antes de Dante ser proibido de voltar a Florença, mas ainda não chegamos a essa parte.

Embora o conflito seja mais complexo que preto no branco (e aqui vale o trocadilho porque eram alcunhas usadas na época), a paz estabelecida por Malabranca era tão singela quanto colocar catchup na pizza (falamos de Itália aqui, atenção!). Florença, de maioria guelfa, impôs condições impossíveis aos adversários ghibellini, que começaram a se retirar para cidades próximas. Em pouco tempo, Pisa e Arezzo se tornaram potenciais opositoras da cidade das flores.

Guerra. Em 11 de junho de 1289 ocorre a battaglia di Campaldino para derrubar a Arezzo ghibellina antes que se tornasse uma grande potência capaz de fazer frente a Florença. Dante estava lá. O conflito não durou um dia, porque era político, por isso os resultados se arrastaram até 1302, quando os guelfi foram julgados. Entre eles, Dante, condenado, entre outros pormenores, a pagar multa, ficar dois anos recluso e sair da vida pública, da qual ele participava ativamente. Recusou o prato principal e teve que se contentar com a sobremesa: se voltasse a Florença seria flambado (queimado vivo é a expressão usada na época).

Até tentou retornar em 1304, junto com outros condenados, mas o grupo foi escorraçado antes de entrar na cidade, ou no forno.

Dante passou a vagar pela vizinhança e foi morrer em Ravena, em 1321, mas no meio desse caminho aprontou das suas. Escreveu poesia (Vita nuova, Rime) e sua imprescindível Commedia, pouco tempo depois tida como Divina, na qual encontra amigos e adversários conforme circula pelo Inferno, pelo Purgatório e pelo Paraíso. Foram 14 anos de escrita, tempo suficiente para lembrar e marinar cada um dos quitutes a serem servidos ao leitor.

Massimo Montanari conta, no livro Comida como cultura, que Dante chegou certa vez em um banquete em Nápoles vestido modestamente como “poeta” e foi acomodado (por isso ou pelo atraso) na ponta da mesa. Saiu, retrajou-se suntuosamente e voltou para o centro da mesa (é… pontualidade não foi um problema). Lambuzou-se com comida e vinho, escandalizando os anfitriões, alegando que as roupas, e não ele, deveriam aproveitar o banquete, pois foram elas que ganharam o lugar à mesa.

Se anedota ou biografia, o mais importante é a dúvida, que só existe por ser mesmo Dante um apreciador da boa comida. Em Florença come-se bem, não importa o preço. Se pedindo cardápios turísticos ou frequentando as mais tradicionais (e escondidas) osterias, a comida vai sempre gerar o arrependimento no dia seguinte: por que não comi mais? São poucos os lugares no mundo em que a comida se une aos monumentos, museus, eventos comemorativos como tópico de “top 10 da viagem”. Isso vale para a Itália quase toda, com destaque para Florença (sono grato alla cara Olga Squarcialupi per avermi aiutato con l’italiano e per farmi mangiare bene a Firenze).

A Commedia de Dante é um chamado à reflexão espiritual e toda sua relação com a comida traz isso. Comer, para Dante, é uma experiência reflexiva, como todo o desdobrar político da obra mostra. Agir sem pensar, em qualquer dos tablados, é dispensar o sabor, é ignorar os temperos e as nuances que todas as camadas de ingredientes podem proporcionar. Dante era um poeta, um político e um saudoso da boa mesa florentina ao longo dos cem cantos de sua opera magna.

Uma boa educação começa com a barriga cheia. Aprender com fome contraria a fisiologia. Dante foi letrado em diversas artes, da literatura à política, acompanhando as experimentações da cozinha florentina. Para compensar exageros, sempre havia um pedaço de pão para limpar o paladar. Desde então e até hoje, a comida em Florença tem um toque a mais de sal do que na maior parte das outras regiões italianas, por isso o pão tem menos condimento. Sentir saudade de casa, para Dante, era não poder mais comer o pão e tudo o que o cercava. Do sagrado à gula.

P.S. Informação de Geografia Urbana, não de Geografia Política: o Museo Casa Di Dante fica mais perto da via Ghibellina que da Guelfa, ironia cartográfica.


Referências bibliográficas:

GIANNETTI, Stefano e Vicenzo. Firenze, cittá magnifica: la storia dalle origini ad oggi. Florença: Angelo Pontecorboli, 2008. 430p.

MONTANARI, Massimo. Comida como cultura. Trad. Letícia Martins de Andrade. São Paulo: Senac, 2008. 207p.


Gustavo Burla

Professor, criador no Hupokhondría, telaplanista durante a pandemia.


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