A divina Comédia: um espaço de memórias

Revista Casa D’Italia, Juiz de Fora, Ano 2, n. 15, 2021 – Izabella Maddaleno | A divina Comédia: um espaço de memórias


A literatura nos oferece muitas maneiras de dialogarmos com a sociedade, a partir de fatores sociais, culturais, históricos e religiosos. Nesse sentido, este trabalho tem como proposta analisar a obra A divina comédia,do escritor italiano Dante Alighieri. Para isso, nos embasaremos na perspectiva crítica de Michel Foucault e Jacques Derrida, associando-os às principais considerações teóricas no que concerne à memória. Assim, buscaremos demonstrar como A divina comédia nos faz refletir, acerca da memória, ao retratar as experiências rememoradas das almas pecadoras, que padecem no mundo dos mortos.           

Dante e o Três Reinos – Domenico di Michelino

O teórico francês Jacques Le Goff, em História em memória,  estabelece uma definição para o conceito de memória como a capacidade de conservar as informações passadas, na qual o homem pode atualizar as impressões e as informações pregressas. Nesse sentido, discorre o crítico: “A memória, como propriedade de conservar certas informações, remete-nos em primeiro lugar a um conjunto de funções psíquicas, graças às quais o homem pode atualizar impressões ou informações passadas, ou que ele representa como passadas” (LE GOFF, 1996, p. 423).       

Importa aqui demonstrar que na obra A divina comédia, do escritor italiano Dante Alighieri, o Inferno e o Purgatório podem ser caracterizados como o espaço de memórias no qual a recordação do vivido se faz tão importante e extremamente necessária. Cabe assinalar que o Inferno dantesco é retratado no formato de uma cratera, possuindo a divisão de nove círculos concêntricos. Nele, cada alma condenada, depois da sentença divina, é encaminhada para seu respectivo círculo, a fim de cumprir a condenação imposta, que será eterna. Assim, aqueles que cometeram os pecados mais terríveis e cruéis são postos nos últimos círculos, recebendo as punições mais severas.                                                                      

La Mappa dell’ Inferno – Sandro Botticelli

Vale sublinhar que a memória a ser resgatada no círculo infernal é somente a do pecado que levou à condenação do pecador, e nada além disso. Não somos informados de como realmente era sua vida terrena detalhadamente; logo a história narrada dos personagens comparece só em partes e o resto fica obscuro. E esse é o estilo que o escritor Dante segue. Aquilo que interessa é só o pecado, o pecador, a condenação que lhe foi imposta e o castigo sofrido. Dessa forma, iremos destacar o canto V e o XXXIII do Inferno e o canto XII do Purgatório, demonstrando de que modo tal procedimento memorialístico comparece em evidência.

Comecemos, então, pelo canto V do Inferno, em que se localizam os luxuriosos. Nesse canto, a história do casal Paolo e Francesca chama a atenção dos leitores, pois, flagrado em adultério pelo marido de Francesca, que também era o irmão de Paolo, o casal de amantes é morto pelo esposo traído. Assim, o poeta Dante os encontra no Inferno e, ao vê-los, decide falar com eles: “Ó almas combalidas,/ falai conosco, se outrem não o impede” (Inf. V, 80-81). Nota-se que a imagem vista por Dante é bem marcante, uma vez que eles estão envoltos por um vendaval gélido, em meio ao qual não conseguem mais se tocarem. É essa a condenação que lhes foi imposta e na qual padecerão eternamente. Importa observar que a condenação segue o princípio da retribuição, pois a falta cometida é a punição imposta.

Essa pode ser considerada uma das partes mais emocionantes de A divina comédia, pois é bem notável que Dante sente compaixão dessas almas pecadoras. E é Francesca quem revisita a memória passada e rememora tão somente o pecado da traição. Nada diz sobre o marido ou se era infeliz estando casada; apenas expressa o amor que teve quando encontrou Paolo e o relato de sua falta cometida que a levou à condenação. Desse modo, ela evidencia a respeito do amor forte que sentiu: “Amor, que a alma gentil pronto apreende,/ este prendeu pela bela pessoa/ de mim levada, e o modo ainda me ofende./ Amor, que a amado algum perdoa,/ tomou-me, pelo seu querer, tão forte, que como vês ainda me agrilhoa/ Amor nos conduziu a uma só morte” (Inf. V, 100-106).

Cabe enfatizar que a rememoração do passado de Francesca e Paolo é sucinta e breve, sem muitas riquezas de detalhes, acontecendo somente em quatro estrofes cada uma com quatro versos. A personagem Francesca retrata o momento em que foi surpreendida pelo marido, pois, ao lado de Paolo, lia o romance de Lancelote, conforme nos narra: “Líamos um dia nós dois, para recreio,/ de Lancelote e do amor que o prendeu;/ éramos sós, e sem qualquer receio” (Inf. V, 127-129). Foi através do beijo que se tornaram amantes e logo foram surpreendidos pela morte. A cena é de tocante comoção, já que demonstra que a morte deles foi um tanto abrupta e ainda cruel, uma vez que não tiveram tempo para se defenderem. Foi por causa do amor proibido que perderam não somente suas vidas, mas também suas almas, como lemos: “Ao lermos o sorriso desejado/ ser beijado por tão perfeito amante,/ este, que nunca seja-me apartado,/ tremendo a boca me beijou no instante,/ Foi Galeoto o livro, e o seu autor;/ nesse dia não o lemos mais adiante” (Inf. V, 133-137).

Ao lermos o canto XXXIII do Inferno dantesco, a primeira cena descrita é bem impactante, visto que nos deparamos com um homem comendo vorazmente a cabeça de outro homem. Diz o texto: “A boca levantou do vil repasto/ aquela alma, limpando-a no cabelo/ do crânio que ela havia por trás já gasto” (Inf XXXIII,1-3). É o conde Ugolino que, por vingança, comete tal ato contra o arcebispo Ruggieri, pois esse último, por traição, trancou o Conde Ugolino e os filhos em uma torre e lá os deixou até morrerem de fome.    

A pedido de Dante, Conde Ugolino narra como aconteceu a sua dolorosa morte e a de seus entes. Nota-se que lembrar tal passado evoca sentimentos de sofrimento e de tenebrosa opressão, já que terá que vivenciar toda a história penosa. Cabe enfatizar que a atitude de morder o faz se envolver somente com o momento presente da punição ao arcebispo, uma vez que recordar o seu passado é um ato comovente, marcado pela dor e pelo choro, como lemos: “E começou: ‘Medonho pesadelo/ queres que evoque, e o coração espavente,/ antes que o diga, só de concebê-lo./ Mas, se meu dito puder ser semente/ que frute infâmia a este que eu escaveiro,/ palavra e pranto ouvirás juntamente’” (Inf. XXXIII,4-9).

Desse modo, Ugolino descreve como a sua família foi perseguida por lobos, que dilaceraram partes de seu corpo, e depois como foram trancados em uma torre: “Já o pai e os filhos pareciam cansados/ na breve fuga, e por cruéis colmilhos/ os flancos seus já via dilacerados” (Inf. XXXIII, 34-36). Segundo nos narra, no dia seguinte, Ugolino defrontou-se com a realidade da fome, e seus filhos, em desespero, choravam: “Quando acordei antes do dia, meus filhos/ presos comigo, ouvi choramingar/ no sono, e pedir pão em seus bisbilhos./ És bem cruel se não te dói pensar/ no que ao meu coração já se anunciava:/ e, se não chorar? de que sois chorar?/ Ora despertos, já se aproximava a hora de recebermos nosso pão,/ mas, pelo sonho, cada um duvidava/ Cravejar ora embaixo ouvi o portão/ da horrenda torre, e a perscrutar eu vim/ dos meus as faces, sem qualquer menção/ não chorei, feito pedra dentro em mim;/ perguntou: ‘Que tens, pai, que olhas assim?’” (Inf. XXXIII, 37-51).    

É possível observar, nessa parte, uma sequência de ações que anunciam os caminhos tenebrosos de uma morte lenta, dolorosa e fatal que a família inteira enfrentará: a chegada de um destino nefasto. É o pai quem primeiro pressente a falta de comida, através de um sonho revelador e profético, que depois é concretizado. O ponto crucial que fará com que a esperança de sair daquela situação não exista é quando os portões da torre foram trancados. E o pai lança um olhar condenatório, desesperançoso, pois, em questão de dias, todos estarão sentenciados à morte.

As próximas cenas são fortes e desoladoras, uma vez que o Conde Ugolino é o último a morrer e, portanto, assiste a todas as mortes de seus filhos. Um deles pede que o pai se alimente de sua própria carne: “Pai, menor pena nos colhe/ se comeres de nós: tu nos vestistes/ desta míseras carnes; tu nas tolhes!” (Inf. XXXIII).

O silêncio é predominante nesse espaço sombrio. Sem esperanças e sem forças, suas vozes ficaram silenciadas, apagadas. Um dos filhos agoniza, pedindo ajuda. Outros sofrem as consequências da fome, da fraqueza, da cegueira até a morte, e Ugolino relata: “Do quarto dia chegando as horas rudas,/ Gaddo se me atirou estendido aos pés,/ dizendo: ‘Pai meu, porque não me ajudas?’ Aí morreu e, como tu vês,/ ainda vi caírem, de um em um,/ do quinto ao sexto dia, os outros três./ Por mais dois dias, já cego, cada um/ a tatear chamei depois de morto:/ depois, mais do que a dor pôde o jejum” (Inf. XXXIII, 64-75).        

Outro canto que será destaque, em nossa análise, é o canto XII do Purgatório. Cabe comentar que as almas ali estão por tempo indeterminado, pois se arrependeram antes de morrerem e logo entrarão no céu, depois de se purificarem de seus pecados. Nesse canto, comparece a figura feminina de Pia de Tolomei, que, segundo nos é contado, foi morta de forma violenta pelo marido, movido pelo interesse financeiro. Em outros relatos, encontramos que Pia foi morta após o marido descobrir a traição dela.                                                   

Contudo, o que é interessante sublinhar é o momento em que ela se dirige a Dante e faz apenas um pedido. Nada vai além disso. Ela não conta explicitamente o motivo que a levou a estar ali, somente pede que seja lembrada no mundo dos vivos, dizendo: “Recorda-te de mim que sou a Pia”. É uma parte bem comovente em que a alma pede que seja lembrada. As hipóteses para isso são várias: talvez ela queira que o crime que foi cometido contra ela não seja esquecido, e o culpado, seu marido, seja responsabilizado, ou que sua história sirva de exemplo para que as pessoas busquem seguir o bom caminho.

Em suma, o que vale ponderar é que as histórias apresentadas trazem uma memória dolorosa e que todas as almas descritas tiveram uma morte violenta. Se o Inferno e o Purgatório são os lugares da rememoração, a memória a ser lembrada, muitas vezes, traz o tom do sombrio e do pecado. Importa observar que a sociedade para qual  Dante escreve é marcada pela fé. Assim, o inferno dantesco assume um caráter também evangelizador, uma vez que pecadores e suas  histórias podem servir de exemplo para que outras pessoas não pequem, visto que o Inferno apresenta cenas tão realísticas, demonstrando-se tenebroso e opressor.


Referências bibliográficas:

ALIGHIERI, Dante. A divina comédia. 3 vols. Edição bilíngue. Trad. Italo Eugenio Mauro. Prefácio de Otto Maria Carpeaux. São Paulo: Editora 34, 2010

LE GOFF, J. História e Memória. São Paulo: Ed. Unicamp, 1996. [original dos ensaios: 1987-1982] [original do livro: 1982].


Izabella Maddaleno

Professora de italiano e de português. Doutora em Letras pela Universidade Federal de Juiz de Fora, no qual defendeu a tese: A apropriação machadiana de A Divina Comédia de Dante. Mestre em Letras pela mesma instituição em que cursou o doutorado. Graduada em: língua latina, portuguesa e italiana. É autora de dois livros, que contemplam à literatura, publicados pela editora Big time.


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