Dante e o Inferno da “Espanhola” no Brasil

Revista Casa D’Italia, Juiz de Fora, Ano 2, n. 15, 2021 – João Brancato | Dante e o Inferno da “Espanhola” no Brasil


Literatura e artes visuais estabeleceram frutíferos e intensos diálogos ao longo da história no Ocidente. A potente imaginação de escritores serviu numerosas vezes como assunto para pintores e escultores criarem suas obras. Por outro lado, a visualidade sensível e estética dos artistas não poucas vezes estimulou escritores e poetas a romances e versos. No primeiro caso, que aqui nos interessa particularmente, textos clássicos da cultura europeia frequentemente serviram como fonte de inspiração: a Ilíada e a Odisseia, de Homero, os Evangelhos judaico-cristãos e as peças de William Shakespeare são alguns famosos exemplos. Dentre esses, avulta A divina comédia, do poeta florentino Dante Alighieri (1265-1321), que completa 700 anos de falecimento em setembro. Estas linhas, ainda que muito distantes daquilo que mereceria o mestre, a ele são dedicadas.

Escrita em 1320, A divina comédia circulou em inúmeras versões manuscritas até sua primeira edição, em 1472. Foi ainda no Renascimento que surgiram os primeiros desenhos e pinturas dedicados à grande obra de Dante. Sandro Botticelli (1445-1510), o mestre da Primavera, realizaria uma série de ilustrações para as primeiras versões do livro, ainda como manuscrito e, mais tarde, em versão impressa. Hoje, estão entre as imagens mais prestigiadas da comédia dantesca e do Renascimento italiano, como bem analisado por Paula Vermeersch.[i]


A complexa arquitetura dos círculos do submundo e as agruras humanas sofridas em seu interior; a sofisticada representação de Lúcifer, monstruoso, hirsuto e voador; a sublime dança dos anjos no Paraíso e a serenidade da musa Beatriz diante do próprio Dante foram captadas magistralmente pelas linhas elegantes de Botticelli. O grande reconhecimento do poeta florentino na cultura renascentista italiana é patente também em seus retratos feitos por Rafael Sanzio (1483-1520) para os afrescos do Parnaso e da Disputa do Santíssimo Sacramento, bem como na interpretação do Juízo Final por Michelangelo (1475-1564), leitor ávido de Dante.[ii]

Semelhante repercussão e relevância na representação de episódios de A divina comédia só encontraria par no século XIX. Os artistas franceses, por exemplo, produziram uma série de obras icônicas relacionadas ao clássico. Jean-Auguste Dominique Ingres (1780-1867), Ary Scheffer (1795-1858), Eugène Delacroix (1798-1863), William Bouguereau (1825-1905), Jean-Baptiste Carpeaux (1827-1875) e Auguste Rodin (1840-1917), de maneiras muitíssimo distintas, foram apenas alguns dos grandes mestres da pintura e da escultura que se dedicaram ao assunto. A preferência pela interpretação de passagens dos cantos do Inferno deve ser creditada, em certa medida, à potência criativa de Dante na imaginação das condenações aos pecadores. Na década de 1860, inspirado pelo clássico, o artista Gustave Doré (1832-1883) publicaria, sob seu próprio risco, uma edição fartamente ilustrada do Inferno de Dante. A boa acolhida do livro rapidamente levaria à publicação de Purgatório e Paraíso, completando a saga. A partir de então, as edições de A divina comédia ilustradas por Doré fariam sucesso internacional, até hoje. É possível afirmar que, desde meados do século XIX, o imaginário visual dantesco foi mediado pela interpretação de Gustave Doré.[iii]

Entre os séculos XIX e XX, artistas brasileiros também foram atraídos pela magnitude da obra de Dante. O escultor Almeida Reis (1838-1889) é aquele com as obras mais conhecidas: Alma penada (1885) e Dante ao voltar do exílio (1887), em exposição no Museu Nacional de Belas Artes (RJ). Os leitores de Juiz de Fora têm a chance de ver, no Museu Mariano Procópio, o precioso gesso de O protomártir Santo Estevão (1879), de autoria de Rodolfo Bernardelli (1852-1931), sublime obra encenando as agruras finais do santo cristão, sentenciado ao apedrejamento por sua crença. A história é narrada no livro de Dante, conforme aponta a historiadora Maria do Carmo Couto. No canto XV do Purgatório, quando Dante encontra-se no terceiro círculo, destinado aos que pecaram pela ira, o poeta é tomado pela visão do exemplo virtuoso de mansidão de Estevão.[iv] Na base da escultura, Bernardelli cita uma estrofe dessa parte:

Poi vidi genti accese in foco d’irà
Con pietre un giovinetto ancider – forte
Gridando a sé pur: “Martira Martira!”

Vi gente acesa, após, de ira insensata:
um jovem lapidar, no furor seu,
um ao outro incitava: “Mata! Mata!”v

A Divina Comédia de Dante estimulou riquíssimas representações visuais, por longo período, entre Europa e Brasil. Há um caso particular, contudo, que gostaríamos de apresentar a seguir. Ele destoa significativamente das imagens anteriores por ter sido publicado na imprensa por um caricaturista brasileiro, Calixto Cordeiro (1877-1957), talvez o maior nome da caricatura na Primeira República. Trata-se da maravilhosa ilustração para a capa da revista carioca Dom Quixote, de fins de outubro de 1918. Seu conteúdo é duplamente adequado ao momento em que vivemos: de um lado, pelos 700 anos do falecimento de Dante; de outro, pela trágica convivência em uma situação pandêmica. Eram os tempos da Gripe Espanhola, que assolava o Brasil e, em especial, a cidade do Rio de Janeiro.

Calixto Cordeiro: Cerchio Nono – Giro Secondo. Revista D. Quixote, n.  77, 30 out. 1918.
Fonte: Hemeroteca Digital Brasileira.

A ilustração foi intitulada Cerchio Nono, Giro Secondo: Traditori della Patria, e estampava estrondosamente a denúncia do artista à má gestão da pandemia de então, reportando-se à comédia dantesca. Entre escarpas rochosas, de ângulos agudos e traços febris, Dante se curva à frente de seu guia Virgílio para observar o sofrimento de um culpado no último círculo do Inferno, o nono, onde se encontrariam os mais graves pecadores, os traidores. A legenda ajuda na interpretação da imagem: “E este, mestre?”, pergunta Dante acerca dos motivos que levaram aquele sofredor à região mais profunda do Inferno. Responde o Virgílio de Calixto: “É também um traidor; confiaram-lhe a guarda de uma cidade e ele deixou entrar o inimigo devastador”.

Para nossa surpresa, o pecador representado não deriva do livro original. Com seus óculos e bigode modernos, ele é Carlos Pinto Seidl (1867-1929), então diretor-geral de Saúde Pública do governo de Venceslau Brás (1868-1966). Na época, Seidl e o presidente sofriam fortes baques da opinião pública pela incapacidade de deter o avanço da doença. A imprensa chegou até mesmo a denominar a Gripe Espanhola de “mal de Seidl”, levando-o à exoneração no meio da crise, conforme explica a historiadora Adriana Goulart.[vi] Calixto trata-o como um “traidor da pátria”, já que não teria tomado providências quando os primeiros casos de Gripe Espanhola surgiram nos portos brasileiros, permitindo a entrada do “inimigo devastador”.

A partir do canto XXXII do Inferno, Dante narra sua chegada com Virgílio ao nono círculo. Ele seria formado pelo lago congelado Cocito, dividido em quatro partes ou esferas, que separam em gravidade os tipos de traidores: de parentes, da pátria, dos hóspedes e de seus benfeitores. Caberia a eles sofrer com a submersão de seus corpos no lago congelado, apenas com as cabeças acima do gelo. Ali estariam, dentre outros, Caim, o Conde Ugolino — eternizado nas esculturas de Carpeaux e Rodin —, Brutus, Cássio, Judas e o próprio Lúcifer. Nota-se, então, algo de errado na ilustração de Calixto Cordeiro. Seidl não é representado no lago, mas em uma espécie de alcova fumegante, de onde ele observa subir do fundo espessa fumaça; suas mãos tensas cravadas sobre os ombros indicam a sua agonia.

A essa altura, retornar às ilustrações de Gustave Doré para o livro de Dante pode ser útil. O leitor pode comparar a capa feita por Calixto com os desenhos do artista francês sobre o sofrimento dos círculos sexto e nono, presentes nos cantos X e XXXII, respectivamente. Se Calixto acertou ao referir-se ao “cerchio nono, giro secondo” como aquele dos traidores da pátria, em acordo com a narrativa de Dante, parece ter se equivocado na representação do sofrimento que lhe caberia, ilustrando o sexto círculo, onde sofreriam no fogo, em tumbas abertas, os hereges, como Epicuro e Farinata.

Gustave Doré: ilustrações para os Cantos X e XXXII do Inferno. In: ALIGHIERI, Dante. The vision of Hell. Cassel & Company, 1892. Disponível em: https://archive.org/details/visionofhell00dant/mode/2up.

É muito provável que a referência visual do caricaturista na ocasião de criar a capa da revista fosse de fato a ilustração de Doré do Canto X, já que sabemos que a sua edição ilustrada circulava no Brasil. A composição — com o pecador no primeiro plano à esquerda e os protagonistas atrás, à direita —, a construção da tumba e a paisagem do local, com as mesmas montanhas rochosas, sugerem inequivocamente essa aproximação. Por outro lado, a posição curvada de Dante sobre Seidl recorda diretamente a ilustração do canto XXXII, no lago congelado. Calixto teria se enganado, ainda que trabalhando com uma referência tão imediata? É possível que a questão se tratasse muito mais de uma liberdade poética — ou melhor, artística. Expressar-se sobre o inferno sem mencionar o fogo — uma referência tão comum em nosso imaginário, até hoje — talvez pudesse causar estranheza aos leitores da D. Quixote, decerto nem todos leitores de Dante.

Assim, ao subverter a relação entre texto e imagem, Calixto Cordeiro poderia ter almejado, em excelente estratégia, uma maior identificação com o público da revista. Ele atualiza a obra erudita de Dante, séculos depois, em uma versão humorada, crítica e “popular”, mais acessível à interpretação dos leitores daquele tempo. Já para Seidl, não deve ter sido nada agradável ver sua cara estampada na revista ardendo em alcovas de fogo, embora não devesse estar muito preocupado se seria mais correto ser representado congelando no lago Cocito. Aos leitores destas linhas, por sua vez, caberia indagar quais os círculos possíveis para a destinação de nossos políticos e gestores diante da pandemia atual. A leitura da obra de Dante, certamente, será uma inspiração fundamental.

[i] Sobre os desenhos de Botticelli, veja a tese de Vermeersch, Paula, Considerações sobre os desenhos de Sandro Botticelli para a Divina Comédia, 2007.

[ii] Confira Barnes, Bernadine. Metaphorical Painting: Michelangelo, Dante, and the Last Judgment, 1995.

[iii] Mais sobre as ilustrações de Doré, ver Audeh, Ainda.  Gustave Doré.

[iv] Confira Silva, Maria do Carmo Couto, A obra Cristo e a mulher adúltera e a formação italiana do escultor Rodolfo Bernardelli, 2005, p. 72.

[v] Alighieri, Dante. A Divina Comédia: purgatório, 2000, p. 103.

[vi] Sobre a gripe, é fundamental ler Goulart, Adriana. Um cenário mefistofélico, 2003.


Referências bibliográficas:

ALIGHIERI, Dante. A Divina Comédia. 3 volumes: Inferno, Purgatório, Paraíso. 5ª reimpressão. São Paulo: Editora 34, 2000.

AUDEH, Ainda.  Gustave Doré. Disponível em: http://www.worldofdante.org/gallery_dore.html.

BARNES, Bernadine. Metaphorical Painting: Michelangelo, Dante, and the Last Judgment. The Art Bulletin, vol. 77, n. 1, 1995. Disponível em:  http://www.jstor.org/stable/3046080.

GOULART, Adriana da Costa. Um cenário mefistofélico: a gripe espanhola no Rio de Janeiro. Dissertação de Mestrado defendida no Programa de Pós-Graduação em História, UFF, 2003. Disponível em: https://www.historia.uff.br/academico/media/aluno/417/projeto/Dissert-adriana-da-costa-goulart.pdf.

SILVA, Maria do Carmo Couto. A obra Cristo e a mulher adúltera e a formação italiana do escultor Rodolfo Bernardelli. Dissertação de Mestrado defendida no Instituto de Filosofia e Ciências Humanas, Unicamp, 2005. Disponível em: http://repositorio.unicamp.br/jspui/handle/REPOSIP/281531.

VERMEERSCH, Paula. Considerações sobre os desenhos de Sandro Botticelli para a Divina Comédia. Tese de Doutorado defendida no Instituto de Estudos da Linguagem, Unicamp, 2007. Disponível em: http://repositorio.unicamp.br/jspui/handle/REPOSIP/270062.


 João Brancato

É historiador, especialista em História da Arte no Brasil. Doutorando em História pela Unicamp, sob orientação do Prof. Jorge Coli e com auxílio à pesquisa da FAPESP. É mestre, bacharel e licenciado em História pela UFJF.


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