Impressões de memória e dos livros: por que e como ainda ler a Divina Comédia?

Revista Casa D’Italia, Juiz de Fora, Ano 2, n. 15, 2021 – Daniel Giotti | Impressões de memória e dos livros: por que e como ainda ler a Divina Comédia?


Aprendi, durante o ensino médio, que a ideia de amor platônico teria sua melhor forma delineada na relação de Dante Alighieri com sua Beatriz, transportada para o “eu lírico” do poeta em A Divina Comédia que relega à provável Beatrice Portinari, já falecida quando escreveu a obra, a função de o conduzir em sua viagem pelo Paraíso.

Caindo no clichê de que a arte imita a vida e como, durante toda sua existência, relata-se que Dante nunca conseguiu de fato se unir à Beatriz, coube a ele colocá-la no Paraíso, em substituição a Virgílio, seu guia no Inferno e no Purgatório, que, por não ser cristão, não poderia ter a graça que coube à musa do escritor florentino nesse mundo sagrado da geografia cristã.

Tempos depois, sobretudo a partir de René Guénon, um “intelectual esotérico” francês, fui compreender que uma leitura possível sobre Beatriz é a de associá-la à Sabedoria, o que não desborda dos que nela veem a representação da fé e, em Virgílio, a da razão.

René está entre os autores extremistas sobre as influências de Dante, como afirma Umberto Eco, pois parte de leituras fantasiosas e sem apuro metodológico, mas tomo essa leitura como plausível e compatível com o ideário do medievo.

Aprendi, na mesma época de escola, que algo da unificação da Itália se deve a Dante, pois, embora quando escreveu a obra, nos trezentos, aquele amontoado de cidades-Estados estivesse longe de ser sequer arremedo de nação, foi ele o pai da língua italiana, tão popular que foi o êxito que conquistou com sua A Divina Comédia, vertida no dialeto toscano, florentino mais especificamente.

Tempos depois descobri que Dante foi banido de Florença, tendo escrito Il convívio, De Monarchia e Divina Commedia no exílio. Somente em 2008 seu banimento foi revogado.

Aprendi, ao longo do tempo, que a concepção comum de que os herdeiros da sociedade judaico-cristã temos de inferno não advém da Bíblia, mas do imaginário criado sobre o “Livro dos Livros”, incrementado indubitavelmente pelas descrições dos nove círculos do inferno de Dante, que, verdade seja dita, consolidou impressões gregas e romanas sobre o tema, que pululavam na Idade Média.

São imagens dantescas que povoam a mente, na associação mais comum ao Inferno, e Dante bem poderia ser o roteirista do desenho Caverna do dragão, do jogo eletrônico God of war e do clipe da música Rattle that lock, de David Gilmour.

Não se deve esquecer de que a figura do Diabo em A Divina Comédia é de um ser monstruoso, com três cabeças, cada qual mastigando alguns tipos de pecadores, estando preso a sua terra, o Inferno, e não vagando livre em meio à humanidade.

Difere-se, assim, de como o vê considerável parcela do senso comum que ainda acredita no “coisa ruim”, no “belzebu”, no “sete peles”, ora erigido a uma figura humana feiosa, verossímil com a do anjo-caído das Escrituras, ora exposto como um sedutor inveterado que vai ludibriando suas presas como nos filmes Encontro marcado e O advogado do diabo.

Não há só labaredas também no inferno de Dante, como se vê no canto XXXIII, quando se chega a um local tão frio, a Ptolomeia, no terceiro giro do nono círculo, em que até as lágrimas viram gelo. 

Creio que sejam algumas dessas informações sobre Dante Alighieri e A Divina Comédia que você, leitora ou leitor, compartilha comigo, não tendo se lançado à difícil tarefa de ler essa obra em sua inteireza.

Nestes tempos em que 140 ou 280 caracteres parecem muito ante à imperiosidade de um vídeo em Tik-tok, quem vai ter paciência de ler um longo poema épico de centenas e centenas de páginas?

Se a ocasião dos 700 anos de sua morte não der aquele gás necessário para ler a obra toda, com tantas alegorias e referências em camadas sobrepostas de conhecimento, proponho-lhe ler A divina comédia pela leitura de outro autor.

Refiro-me a Jorge Luis Borges, que no preâmbulo de seu Nove Ensaios Dantescos, livro fruto de uma série de palestras por ele proferidas, indica que em A Divina Comédia não há palavra injustificada, traço da escrita compartilhado pelo escritor argentino, um exímio artesão na construção de imagens em verso e prosa.

Na verdade, para aqueles que não podem ler A Divina Comédia no original, cabe-nos confiar em Borges, pois como se diz em bom italiano: “traduttore, tradittore”.

Também diz Borges, em seu preâmbulo, que uma leitura possível para A Divina Comédia é que ela retrata o estágio de vício do homem pelo Inferno, depois a passagem do vício à virtude, chamada de Purgatório, e uma ideal condição de homens perfeitos, o que se teria no Paraíso. Tudo isso está em conformidade com as ideias desenvolvidas pelo filho de Dante acerca das metáforas e alegorias da narrativa.

Em “O nobre castelo do Canto Quarto”, Borges explica, na linha de ser A Divina Comédia, entre muitas coisas, o sonho de Dante, que chega à selva escura onde encontrará Virgílio com a alma ofuscada, pois essa seria a metáfora do sonho.

Nos ensaios “O falso problema de Ugolino” e “A última viagem de Ulisses”, Borges desnuda a face teológica de Dante, que, em um paradoxo insolúvel, compreende e não perdoa quem vê algum mal como inevitável. Como fica o livre arbítrio?

Ora, se em cada círculo do Inferno há um tipo de pecador, no fundo Dante afirma o livre arbítrio humano, sendo justo premiar o bem e punir o mal, colocando exemplarmente cada vício em uma escala mais reprovável.

Finalmente, Dante coloca como o maior dos pecados a traição. Traidores de parentes, do Estado e dos benfeitores merecem o pior na geografia espaço-axiológica do Inferno.

Os versos que se passam no Purgatório e no Paraíso são menos interessantes, mas Borges enfatiza o poder das metáforas de Dante no ensaio “Purgatório I, 13”. Já no ensaio “O Simurg e Águia” coloca na boca desta a inquietante questão de que não é injusto Deus punir por falta de fé pagãos que nasceram às margens do Indo e nunca ouviram falar de Deus, porque há, sim, alguns pagãos virtuosos.

Não cito todos os ensaios. “O último sorriso de Beatriz” não pode ser esquecido, porém. Nele se ressalta que a beleza de Beatriz vai aumentando à medida que ela e Dante visitam o Paraíso, referindo-se Borges à interpretação de que talvez A Divina Comédia nada mais seja que um pretexto para o autor criar um reino para sua dama.

A mulher inalcançável de repente some, e Dante mal tem forças para perguntar onde ela está, divisando-a a seguir no alto quando vê seu último sorriso.

Borges diz que Dante se aproxima de nós, pois nada de singular há em um infeliz imaginar a felicidade, o que fazemos todo dia.

Beatriz parece nunca ter sido alcançada por Dante e, na derradeira parte de sua obra, é como se o autor se apercebesse de que, terminado o poema, na crua realidade, Beatrice Portinari está morta.

Num último intertexto, impossível não se recordar que Dante se entrega às falsas felicidades, hoje tão mais disponíveis com drogas, remédios, redes sociais. Neste terreno do amor, esteve longe da beatitude, a felicidade na verdade, de que falavam Santo Agostinho e Spinoza.

Somos todos infelizes em alguma medida e, lendo André Comte-Sponville, autor de “A felicidade desesperadamente”, ao qual a escrita deste ensaio me levou, sabemos que a sabedoria aponta para o máximo de felicidade no máximo de lucidez. Aprendemos isso com Adivina comédia?

Amigos um dia brincaram que o melhor destino de um clássico é não mais ser lido. Creio que isso se deva a suas ideias principais serem tão difundidas que todos delas têm noção.

Ainda mais um clássico de 700 anos, em versos. Assim é com A Divina Comédia, que não deixa de ser, como Borges liricamente sentenciou, uma obra infinita, fruto de muitas leituras anteriores que influenciaram o florentino e que ainda floresce nas leituras mais que dela faremos por séculos e mais séculos.

Longa vida, A divina comédia!


Daniel Giotti    

É juiz-forano apaixonado, escritor, autor de versos e crônicas que estão nos livros “Inverso Direito” e “1981 Ficou marcado na história”. Também é jurista e professor de Direito com vários artigos e livros publicados na área. Escreveu, ainda, recentemente com Cleber Antunes o livro “Caridade e Firmeza: origem, rito e história”


%d blogueiros gostam disto: