Raízes italicas: uma experiência calabresa-brasiliana

Revista Casa D’Italia, Juiz de Fora, Ano 2, n. 15, 2021 – Fernanda Valle e Mell Siciliano | Raízes italicas: uma experiência calabresa-brasiliana


Entre Torano Castello e Fuscaldo somam-se pouco mais de 35 quilômetros. Duas cidades em Cosenza, na Calábria, que testemunharam o êxodo de seus cidadãos entre os séculos XIX e XX, período que abarca os dois grandes movimentos migratórios ocorridos na Itália. Segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), o primeiro Censo Demográfico realizado em 1872 indicou o total de 6 mil indivíduos italianos no Brasil. Em 1876, um grupo de outros 7 mil desembarcou nos portos brasileiros. Em 1880, a presença italiana chegou à casa dos 50 mil (IBGE, 1958). Dezenas de milhares de citadini, fugidos das inúmeras guerras ocorridas na terra da velha bota, escolheram as Américas.

Apesar de a mobilidade integrar a história dos humanos no planeta, a transferência para o Brasil guardou uma peculiaridade: o governo local incentivou a vinda de europeus para fomentar o embranquecimento da população (OLIVEIRA, 2002). No início do século XX, os italianos correspondiam a 42% dos estrangeiros imigrantes no Brasil, o equivalente a mais de um milhão de pessoas (GOMES, 2000). Rio de Janeiro, São Paulo, Espírito Santo, Minas Gerais, Rio Grande do Sul, Santa Catarina e Paraná: destino de inúmeras pessoas que fizeram do Brasil o maior contingente de italianos fora da própria Itália, transformando, para sempre, a italianidade. As amêndoas deram lugar ao amendoim, os cremes frutados competiram com o doce de leite, a massa fresca se transformou em item de feiras e supermercado. Os sobrenomes ganharam sufixos como -ieri, -elli, -iore, -ano, -etto, -etti, -ello, -illo. Comunidades se transformaram em bairros e as festividades se perpetuaram após gerações. Passado um século e meio, é possível manter a ideia de “un’italiano vero”, a la Toto Cotugno? 

Foto: Arquivo Nacional

Para responder à pergunta, é necessário reformulá-la: em algum momento da história, houve um tipo único de identidade italiana? Pela perspectiva histórica, não. Tampouco pela identidade linguística ou territorial. No que concerne às rotas comerciais, a Itália vivenciou uma efervescente mistura cultural desde o Império Romano. Disso emerge outro questionamento: é necessário estabelecer um tipo de italianidade? Acreditamos que não, porque isso também seria negar o passado da Itália, seu tempo presente e todos aqueles que viveram nesse entremeio. Nascidos ou não nos pedaços de terra banhados pelo Tirreno, pelo Mediterrâneo e pelo Adriático, cá estamos nós, ítalo-descendentes que valorizam suas raízes, sua ancestralidade e admiram as variadas manifestações artísticas e culturais desde os tempos de César. Descendentes que se encontram sem, muitas vezes, terem conhecimento de seu parentesco. Ou da curta distância que separa suas histórias, como Fernanda, de Torano Castello, e Mell, de Fuscaldo. Poderíamos dizer que nossa história começou em uma sala de aula, durante os dois anos de um mestrado. Mas a verdade é que ela se iniciou ao menos três gerações atrás, quando os passos de nossos antepassados resultaram em símbolos partilhados e em possibilidades de (re)encontros. Assim nasceu o Calabrisellas, um espaço de produção de conteúdo sobre a cultura italiana e saberes itálicos.

Como duas cientistas, é importante situar você, leitor, sobre as palavras que usamos. Italianidade, itálicos, italicidade são termos referentes à construção identitária, porém não sinônimos. Nesse horizonte, destacamos a italicidade, uma perspectiva transterritorial, transcultural, que ultrapassa o aspecto sanguíneo da nacionalidade. No lugar de italianos, os itálicos são todos aqueles que carregam a Itália consigo, os que, independente de sua pátria ou da genética italiana, vivem os valores culturais e se sentem pertencentes à comunidade italiana. A italicidade não é uma simples inclusão, a permissão para adentrar a um grupo, mas se refere à construção da identidade italiana na hibridação, por meio da intersubjetividade e a interculturalidade, o que significa dizer, misturar, miscigenar, edificar uma cultura para além do olhar ocidental. Em “Despertemos, itálicos! Manifesto por um futuro glocal”, Piero Bassetti (2019) atenta para a migração reversa, ou seja, a diáspora de entrada e não de saída do território italiano; refugiados que vivem o território, a cultura, a civilidade italiana, cujos filhos são italianos natos, mas culturalmente discriminados. Essa perspectiva identitária nos suscita à visão antropológica-cultural: antes de sermos Itália, sempre fomos itálicos.

Nesse contexto globalizado e com novas formas de socialização e exercício cidadão, temos, de um lado, uma jornalista, tataraneta de calabreses. De outro, uma bibliotecária, filha de pai calabrês — as duas a um oceano Atlântico de distância do território correspondente à República Italiana. Somos brasileiras de nascimento e, por isso, também itálicas. Eis a origem do nosso nome: Calabrisellas, a mistura de due calabriselle com o plural da língua portuguesa. Há um ano, unimos tradição e contemporaneidade. Publicamos sobre Tarantella, Puccini e Verdi, mas também sobre Ultimo, Mahmood e Gaia. Refletimos sobre a Itália do rock e do rap que não se populariza no Brasil. Nos divertimos com a série Geração 30 e poucos ao mesmo tempo em que resgatamos Fellini ou Antonioni. Conversamos sobre a beleza medieval toscana, enquanto revelamos as rotas turísticas menos badaladas, mas com incríveis achados arqueológicos, arquitetônicos ou paisagísticos dos Borghi più belli d’Italia. Pesquisamos sobre a origem dos sobrenomes e compartilhamos outra face da Calábria, diversa e potente com seus geoparques, museus, vestígios de Capo Colonna e o bergamotto que todo brasileiro jura se tratar de tangerina (mas não é!). Aprendemos sobre etnomusicologia a partir da lira calabresa, da ciaramedda e da zampogna, indicando a influência grega e asiática nas sonoridades da antiga Magna Grécia. E, claro, já curtíamos Måneskin bem antes de Beggin estourar nas playlists brasileiras!

Parco Nazionale della Sila – Foto: Mell Siciliano – As Calabrisellas

Convidamos ao estudo da história da filosofia, aos grandes nomes do pensamento ocidental que, apesar de hoje serem classificados como filósofos gregos, nasceram ou organizaram suas escolas no Sul da Itália: Parmênides, Arquitas, Górgias, Aesara, Pitágoras. Amantes dos livros e de boas histórias, criamos o primeiro podcast de divulgação científica de saberes itálicos no Brasil, o Ciência Itálica, além do podcast Calabrisellas Entrevista, com foco em histórias de vida. Narrativas que já nos proporcionaram encontros com outros itálicos residentes em São Paulo, Rio de Janeiro, Minas Gerais e Londres. Experiências que nos levaram à Università di Bologna, onde apresentamos uma pesquisa científica sobre Christine de Pizan, escritora medieval italiana, radicada na França, compartilhando, junto à pesquisadora Amanda Salomão, nossas paixões por literatura e ciência.

Não ensinamos o idioma. Não somos uma agência de viagem. Não somos uma página turística. Não prestamos consultoria sobre reconhecimento de cidadania, embora possamos falar sobre linguagem, turismo e cidadania. Somos multidisciplinares. Queremos perscrutar e mostrar uma Itália um pouco diferente daquela dos cartões-postais, do imaginário coletivo e das revistas de turismo. Bela e cheia de histórias, com certeza, mas também em constante movimento, enriquecida pelo cruzamento de culturas, complexa e, por que não, agridoce. Vem com a gente?


Referências:

BASSETTI, Piero. Despertemos, itálicos!: Manifesto para um futuro “glocal”. Niterói: Comunità, 2019.

GOMES, Angela de Castro. Imigrantes italianos: entre a italianità e a brasilidade. In: INSTITUTO BRASILEIRO DE GEOGRAFIA E ESTATÍSTICA. Brasil: 500 anos de povoamento. Rio de Janeiro, 2000. Disponível em: https://biblioteca.ibge.gov.br/visualizacao/livros/liv6687.pdf. Acesso em: 08 set. 2021.

INSTITUTO BRASILEIRO DE GEOGRAFIA E ESTATÍSTICA (IBGE). Alguns dados sobre a emigração italiana para o Brasil. Conselho Nacional de Estatística, 1958. Disponível em: https://biblioteca.ibge.gov.br/visualizacao/livros/liv82798.pdf. Acesso em: 08 de set. 2021.

OLIVEIRA, Lucia Lippi. O Brasil dos imigrantes. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 2002.


Fernanda Valle

É doutoranda e mestra em Ciência da Informação, especialista em Marketing e Design Digital, em Transtorno do Espectro Autista, e bacharela em Comunicação Social. Em 2020, frequentou o curso de Língua, Cultura italiana, Cultura e Tradição da Calábria na Università della Calabria (UNICAL), com bolsa concedida pela Regione Calabria.

Mell Siciliano

É doutoranda em Museologia e Patrimônio, mestra em Ciência da Informação, especialista em Editoração, e bacharela em Biblioteconomia e Gestão de Unidades de Informação. Em 2017 frequentou o curso de Língua, Cultura italiana, Cultura e Tradição da Calábria na Università della Calabria (UNICAL) e em 2019 o curso de Língua e Cultura Italiana na Università per Stranieri “Dante Alighieri” (UNISTRADA), ambos com bolsa concedida pela Regione Calabria.


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