Um diretor desconhecido: a atuação de Renato Soeiro na preservação do patrimônio cultural no Brasil nas décadas de 1960 e 1970

Revista Casa D’Italia, Juiz de Fora, Ano 2, n. 14, 2021 – Carolina Saporetti | Um diretor desconhecido: a atuação de Renato Soeiro na preservação do patrimônio cultural no Brasil nas décadas de 1960 e 1970


As décadas de 1960 e 1970 no Brasil foram marcadas pelo desenvolvimento das políticas de preservação do patrimônio cultural, período em que grande parte do tempo esteve na direção do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) o arquiteto Renato de Azevedo Duarte Soeiro (1967-1979).

Renato Soeiro. Arquivo Central Iphan seção Rio de Janeiro

A direção de Soeiro foi marcada pela aproximação com órgãos internacionais e por ações que buscavam relacionar o patrimônio cultural com o desenvolvimento econômico, industrial e urbano. Dessa forma, algumas discussões ganharam força, como: a implantação do turismo cultural; a criação de cursos de capacitação; a descentralização do Iphan; a preservação do entorno do monumento; a proteção do patrimônio natural, dentre outras questões.

Neste texto, serão descritas as principais ações de Soeiro durante esse período, enfatizando a importância da sua gestão no Iphan.

Soeiro trabalhou na instituição desde 1938, quando iniciou sua carreira como arquiteto assistente. Em 1946 se tornou diretor da Divisão de Conservação e Restauração. Nas décadas de 1950 e 1960 atuou como principal representante da instituição em eventos internacionais e também como diretor substituto na ausência de Rodrigo Melo Franco de Andrade.

Soeiro participou de importantes eventos como: a reunião de especialistas organizada pela Unesco em Paris (1952), que discutiu sobre a proteção de monumentos e bens culturais na possibilidade de conflito armado, precedendo a Convenção de Haia (1954); o II Congresso Internacional de Arquitetos e Técnicos dos Monumentos Históricos, que originou a Carta de Veneza (1964) e discutiu a importância da preservação e da restauração do monumento quando esta for necessária, além de enfatizar a importância de preservar não somente grandes obras de artes, mas monumentos singelos que forem importantes testemunhos históricos e fazer uso útil desses espaços para a sociedade sempre que possível.

Como diretor da Iphan, cargo que assumiu em maio de 1967, a partir da aposentadoria de Rodrigo de Andrade, Soeiro estreitou ainda mais as relações com órgãos internacionais. O patrimônio ganhou uma dimensão mundial a partir da consciência de que seu valor transcendia as fronteiras nacionais.

Como diretor da Iphan, cargo que assumiu em maio de 1967, a partir da aposentadoria de Rodrigo de Andrade, Soeiro estreitou ainda mais as relações com órgãos internacionais. O patrimônio ganhou uma dimensão mundial a partir da consciência de que seu valor transcendia as fronteiras nacionais.

Durante os anos 60, através dos esforços de Soeiro, o Brasil estreitou os laços com a Unesco e recebeu a visita de técnicos da instituição buscando a implementação dos programas de Incremento ao Turismo e de Recuperação de Recursos Naturais.

Nos anos de 1970 e 1971, ocorreram dois eventos nacionais de grande relevância para as discussões sobre a preservação do patrimônio cultural no país: o Encontro de Brasília e o Encontro de Salvador. Nessas reuniões, participaram governadores de diversos estados brasileiros para discutir sobre a descentralização dos setores ligados ao patrimônio cultural. Soeiro, desde sua posse como diretor, enfatizou a necessidade da criação de setores regionais e municipais para auxiliarem na fiscalização e preservação dos monumentos.

Nesses encontros, foi ressaltada a necessidade da introdução de uma disciplina no currículo escolar que abrangesse o patrimônio cultural, além da criação de cursos universitários e de capacitação. O Curso de Especialização em Restauração e Conservação de Monumentos e Conjuntos Históricos (Cecre), atual mestrado profissional oferecido pela Universidade Federal da Bahia, é fruto de cursos que ocorreram na década de 1970, a fim de suprir a necessidade da capacitação de técnicos do Iphan e demais profissionais que tiveram aumento da sua demanda a partir da implantação do Programa de Cidades Históricas (PCH).

Nesse período, ocupavam cargos estratégicos do governo federal homens das regiões Norte e Nordeste: Jarbas Passarinho (Acre), ministro da Educação e Cultura; João Paulo Reis Veloso (Piauí), da Secretaria de Planejamento e Coordenação-Geral da Presidência da República; Renato Soeiro (Pará), diretor do Iphan; e Josué Montelo (Maranhão), diretor do Conselho Federal de Cultura. Esses homens estavam empenhados em promover o desenvolvimento dessas regiões a partir da cultura.

Renato Soeiro, além de diretor do Iphan, fez parte do Conselho Nacional de Cultura e foi o grande responsável pela estruturação do Departamento de Assuntos Culturais (DAC) do Ministério da Educação e Cultura. As atuações nesses dois órgão eram complementares: no DAC, Soeiro organizou o primeiro projeto de uma política cultural do país, a partir do Programa de Ação Cultural (1973). Foi responsável pela criação da Funarte, em 1975, com intuito de valorizar o teatro e o folclore, e reestruturou a Embrafilme, que chegou a abranger 40% do mercado nacional.

Ele era um gestor visionário, que sabia da importância de aproximar outros setores para poder realizar grandes projetos. Assim, com o apoio da Secretaria de Planejamento e Coordenação-Geral da Presidência da República (Seplan-PR), conseguiu-se desenvolver o Programa Integrado de Reconstrução das Cidades Históricas do Nordeste com sua Utilização para Fins Turísticos, posterior PCH.

O programa foi criado, em 1972, por um grupo de trabalho interministerial composto por representantes do MEC, da Embratur, da Superintendência do Desenvolvimento do Nordeste (Sudene), do Ministério do Planejamento e da Coordenação-Geral. O PCH ficou sediado em Recife até início da década de 1980.

Após 41 anos de serviços prestados ao Iphan e ao país, sendo 12 deles como diretor, Soeiro recebeu a notícia de sua aposentadoria. Teve sua trajetória apagada na história da instituição, em publicações como o livro “Proteção e revitalização do patrimônio cultural no Brasil, uma trajetória”, e continuada por autores como José Reginaldo S. Gonçalves e Maria Cecília L. Fonseca, mas que vem sendo valorizada por trabalhos desenvolvidos por pesquisadores como Paulo Ormindo de Azevedo e por obras de minha autoria.


Referências bibliográficas:

AZEVEDO, Paulo Ormindo de. PCH: a preservação do patrimônio cultural e natural como política regional e urbana. In: Anais do Museu Paulista: História e Cultura Material, vol. 24, n. 1, pp. 237-256, 2016. Museu Paulista, Universidade de São Paulo.

_________________. Renato Soeiro e a institucionalização do setor cultural no Brasil. In: AZEVEDO, Paulo Ormindo David de; CORRÊA, Elyane Lins. (org). Estado e sociedade na preservação do patrimônio. Salvador: Edufba; IAB, 2013, p. 19-53.

CALABRE, Lia. Políticas Culturais no Brasil: dos anos de 1930 ao século XXI. Rio de Janeiro: FGV, 2009.

CORRÊA, Sandra Rafaela Magalhães. O Programa de Cidades Históricas (PCH): por uma política integrada de preservação do patrimônio cultural — 1973/1979. 2012. 288 f., il. Dissertação (Mestrado em Arquitetura e Urbanismo) — Universidade de Brasília, Brasília, 2012.

IPHAN: http://portal.iphan.gov.br/legislacao.

SAPORETTI, C. M.. A gestão de Renato Soeiro na Direção do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN) (1967-1979). 1. ed. Appris, 2021. v. 1. 109p.

_________________. RENATO SOEIRO E AS RELAÇÕES INTERNACIONAIS: UM NOVO OLHAR PARA A PRESERVAÇÃO DO PATRIMÔNIO CULTURAL BRASILEIRO. In: 30º Simpósio Nacional de História, 2019, Recife. Anais do 30° Simpósio Nacional de História – História e o futuro da educação no Brasil, 2019.

_________________. IPHAN Looking Out: International Relations in Preserving National Heritage. In: Rodrigo Christofoletti, Marcos Olender. (Org.). World Heritage Patinas. 1ed.: Springer, 2021, v. 1, p. 1-589.


Carolina Saporetti

Doutoranda em História pela Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF), mestra em História, graduada em licenciatura e bacharelado em História com ênfase em patrimônio histórico pela mesma instituição. Membra do LAPA (Laboratório de Patrimônios Culturais) da Universidade Federal de Juiz de Fora e integrante do grupo de pesquisa Cnpq – Patrimônio e Relações Internacionais. Atualmente exerce a função de curadora no Centro de Conservação da Memória da Universidade Federal de Juiz de Fora (CECOM-UFJF). 


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