Da Janela Lateral: ensaio sobre a construção imagética da cidade barroca mineira

Revista Casa D’Italia, Juiz de Fora, Ano 2, n. 14, 2021 – Letícia Bedendo | Da Janela Lateral: ensaio sobre a construção imagética da cidade barroca mineira


Quais imagens nossa mente tende a evocar quando somos postos a pensar no que consiste uma paisagem barroca? Em Minas Gerais, as chamadas “cidades históricas”, tais como Ouro Preto, Mariana, São João del-Rei e Congonhas, são popularmente lembradas pela arquitetura típica, composta por suas igrejas monumentais cobertas de ouro, ruas estreitas e casas coloridas. Contudo, para além disso, esses espaços evocam uma atmosfera muito particular, transmitida por meio das histórias, culinária e festividades que circundam o território.

Croqui de Ouro Preto (MG), 2018. Fonte – Acervo pessoal Leticia Bedendo Campanha Pires

A temática da paisagem e a tentativa de definição do conceito perpassa diversas áreas do conhecimento. Para o filósofo Jean-Marc Besse (2014), paisagem é o resultado da obra da mente de diversas gerações, sendo fabricada através dos sentidos e expressa através das múltiplas linguagens que o ser humano cria a fim de se comunicar. Nas palavras do autor: “Fala-se, atualmente, das paisagens sonoras, mas também da paisagem dos sabores, ou até das paisagens tácteis, no âmbito de uma reflexão geral que insiste na dimensão de polissensorialidade própria das experiências paisagísticas” (BESSE, 2014, p. 9). O autor acrescenta ainda que paisagem é a marca que uma sociedade deixa na natureza ao transformá-la em prol da sua necessidade.

No ano de 1992, a Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco) instituiu o conceito de paisagem cultural, estabelecendo a ele três classes: (i) a paisagem concebida pelo homem em razões estáticas, a qual inclui parques e jardins; (ii) a paisagem evolutiva, subdivida entre “relíquias” — as quais compreendem um processo evolutivo que se completou de certa maneira, como, por exemplo, um sítio arqueológico — e “vivas” — que conservam um papel ativo na sociedade atual ligada ao modo de vida tradicional, como os vinhedos europeus; (iii) a paisagem associativa, cuja existência está relacionada a um valor simbólico ligado a fenômenos religiosos, artísticos ou culturais, como, por exemplo, montanhas sagradas. Essa concepção definida pela Unesco, contudo, se tornou, em certa medida, um tanto obsoleta com o desenvolvimento da bibliografia, visto que hoje pode-se compreender paisagem como um fenômeno não tão determinante, e sim mais intangível no que diz respeito à memória individual e coletiva (CARNEIRO; SILVA 2012 in LACERDA; ZANCHETI, 2012).

Perspectiva da Praça de São Pedro no Vaticano. Fonte – curvasearquitetura.wordpress.com

A cidade colonial mineira e sua paisagem têm sido objeto de discussão dos profissionais do patrimônio desde as primeiras décadas do século XX, momento em que se destacava no âmbito das artes uma necessidade de se determinar o que viria a ser a cultura genuína de um país cuja república fora enfim instaurada. Dentro do campo da arquitetura, as primeiras reflexões, segundo Puppi (1998), partiram de uma tendência da valorização da cidade colonial como síntese da cultura arquitetônica brasileira, liderada direta ou indiretamente pelo arquiteto e urbanista Lúcio Costa. Contudo, a valorização da arquitetura colonial, nas reflexões do autor, teria o objetivo maior de enaltecer as soluções técnicas e plásticas do movimento modernista da arquitetura. Desde então, a teoria acerca do tema vem constantemente sendo revisitada e readapta, complementando o entendimento das cidades barrocas luso-brasileiras.

Os estudos incipientes acerca da formação do espaço urbano em território brasileiro defendiam a tese de que a América portuguesa, diferentemente da espanhola, optava por um caráter de desleixo na implantação das cidades em suas colônias (SOARES, 2009). Essa visão surge com Sérgio Buarque de Holanda no ensaio “O semeador e o ladrilhador”, contido no livro “Raízes do Brasil” (HOLANDA, 1936). Ainda que considere o ensaio superado e com uma conotação negativa acerca das cidades portuguesas na América, Damasceno (2011) o defende como uma importante fonte de organização da historiografia brasileira.

De fato, as primeiras pesquisas voltadas para a história do urbanismo no Brasil possibilitaram que novos estudos se aprofundassem na identificação das formas de se organizar o espaço, herdadas direta ou indiretamente de diferentes culturas. Em sua obra “A forma da cidade de origem portuguesa”, Teixeira (2012) identifica que as especificidades da cidade portuguesa, em especial as da porção norte do território do país europeu, têm bastante a ver com as heranças culturais que predominaram no continente.

As cidades medievais dos séculos XII a XIV, por exemplo, com suas muralhas, planos ortogonais e quarteirões retangulares, foram uma ponte entre o urbanismo romano da Antiguidade e a sociedade renascentista. O Renascimento italiano exportava a ideia de cidades racionais como exata expressão de uma sociedade ideal. Ainda segundo Teixeira (2012), foi nesse cenário que se popularizou a figura dos engenheiros militares pela Europa, que, posteriormente, foram levados às colônias portuguesas. Em muitos casos, foram esses profissionais que, além das fortificações, também ficaram encarregados do plano urbano como um todo.

Evolução dos vãos, cheios e vazios, na arquitetura a partir do século 17. Fonte – Revista Vitruvius

Em paralelo, as especificidades desenvolvidas em território português tiveram um papel importante no desenvolvimento de novos conceitos de cidade. Uma das principais características do urbanismo português consistiu nos planos com predisposição para se adaptar às condicionantes ambientais, como também às circunstâncias futuras de adaptação. A herança de organização do espaço renascentista traz uma concepção mais cenográfica do espaço, a valorização do papel da fachada e uniformização das construções, além do reconhecimento de heranças culturais, escolha de localização dos sítios, elementos geradores de traçados e hierarquias. Reconhecer essas características torna-se fundamental, portanto, para se entender o desenvolvimento da urbanização no território mineiro.

A regularidade em nossos traçados urbanos não é geométrica, assim como já defendia Sérgio Buarque de Holanda, mas isso não quer dizer que seja inexistente. Pelo contrário, privilegiamos a repetição de determinadas características e a adaptação aos terrenos. Como exemplo, Nestor Goulart Reis Filho, em suas obras acerca da cidade mineira, traz que a divisão dos lotes privados era realizada pelo arruador, que procurava respeitar a curva de nível do terreno. Em relação às ruas públicas, privilegiava-se uma ordem através da largura uniforme da via e, no caso das ruas retas, cruzamentos em ângulos retos. Com relação às edificações, a lógica da disposição das esquadrias na fachada era minuciosamente pensada para respeitar a paisagem total da região.

Todas essas tendências de organização do espaço, readaptadas no decorrer da história, somam-se à vivência diária da população e às relações sociais desenvolvidas, que em conjunto formam a cultura do território. Carsalade (2007) aponta ainda que, intrínsecas à cultura, estão as noções de história e memória. Apesar de ambas estarem correlacionadas e serem frutos de uma visão parcial da realidade, a primeira se refere mais à interpretação coletiva dos registros e documentos, enquanto a segunda é mais subjetiva e provém dos filtros e vivências pessoais. Desse modo, é possível crer que a paisagem é algo construído no dia a dia, assim como nossa maneira de viver o mundo, seja individual ou coletivamente. Da janela lateral de nosso quarto de dormir, vivenciamos o mundo pelas lentes que desenvolvemos enquanto mensageiros naturais de nossa própria história.  


Referências bibliográficas:

BAETA, Rodrigo. OURO PRETO: cidade barroca. Cadernos PPG-AU/UFBA, v. 1, n. 1, 2002.

BESSE, Jean-Marc. O gosto do mundo: exercícios de paisagem. Rio de Janeiro: EdUERJ, v. 234, 2014.

CARNEIRO, Ana Rita Sá; SILVA, Ana Figueiroa. Caracterização dos atributos dos bens patrimoniais in LACERDA, Norma; ZANCHETI, Sílvio Mendes. Plano de gestão da conservação urbana: conceitos e métodos. Olinda: CECI (2012).

CARSALADE, Flavio de Lemos. Desenho contextual: uma abordagem fenomenológico-existencial ao problema da intervenção e restauro em lugares especiais feitos pelo homem. Tese de Doutorado. Salvador: Universidade Federal da Bahia, 2007.

FONSECA, Cláudia Damasceno. Arraiais e vilas d’el rei: espaço e poder nas Minas setecentistas. Editora Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), 2011.

PUPPI, Marcelo. Por uma história não moderna da arquitetura brasileira: questões de historiografia. Pontes, 1998.

REIS FILHO, Nestor Goulart. Notas sobre a evolução dos estudos de história da urbanização e do urbanismo no Brasil. Universidade de São Paulo, Faculdade de Arquitetura e Preservação, 1999.

TEIXEIRA, Manuel C. A forma da cidade de origem portuguesa / Manuel C. Teixeira. – São Paulo : Editora Unesp: Imprensa Oficial do Estado de São Paulo, 2012.


Letícia Bedendo

Arquiteta e Urbanista graduada pela Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF) e mestranda no Programa de Pós-Graduação em Arquitetura e Urbanismo da Universidade Federal de Minas Gerais (NPGAU-UFMG). Atualmente, trabalha profissionalmente como ilustradora e tem como foco de estudo a formação dos espaços urbanos de Minas Gerais, especialmente da cidade de Diamantina.


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