Reminiscências da Cidade: a fotografia como registro artístico e documental do Patrimônio Arquitetônico de Juiz de Fora

Revista Casa D’Italia, Juiz de Fora, Ano 2, n. 14, 2021 – Nina Cristofaro | Reminiscências da Cidade: a fotografia como registro artístico e documental do Patrimônio Arquitetônico de Juiz de Fora


Há quatro anos, deambulando pelas ruas da cidade de Juiz de Fora, me deparei com uma casa antiga que até aquele momento não sabia que existia. Busquei meu celular, abri a câmera e fiz um registro. Naquele momento, o clique foi movido não somente por aspectos estéticos da construção, mas também pela vontade de materializar o que evocava o passado desconhecido.

O ato de fotografar corresponde a uma atitude diante da realidade, um gesto de reconhecimento, contemplação ou denúncia, uma escolha que parte de um interesse. Perceber esse ato para além de um mero registro é entender que fotografar atribui valor, determina o que não se quer esquecer, o que deve ser lembrado e compartilhado.

Buscando investigar a fotografia urbana e seguir registrando espaços históricos da cidade, desenvolvi, em 2019, o projeto artístico e documental Reminiscências da Cidade. Contemplado pelo Programa Institucional de Bolsa de Iniciação Artística (Pibiart), promovido pela Pró-reitoria de Cultura da Universidade Federal de Juiz de Fora, esse projeto possui como objetivo central o desenvolvimento de um acervo fotográfico de parte do patrimônio arquitetônico da cidade de Juiz de Fora, com o intuito de atrelar o registro fotográfico com a memória urbana e a preservação cultural.

Foto: Nina Cristofaro

Para esse processo, realizei um mapeamento dos imóveis tradicionais de Juiz de Fora, pesquisas in loco, visitas guiadas e estudos sobre a história dos edifícios tombados. A cidade apresenta um patrimônio arquitetônico vasto e diversificado, que está em constante transformação. Ao realizar as fotografias, percebi incontáveis detalhes da cidade e de sua arquitetura histórica que, assim como aquela casa antiga citada, me eram desconhecidos. O processo de registro do patrimônio está no laço entre uma investigação da estética fotográfica e uma busca pela identidade do lugar, de resgatar o que é tradicional na cidade, do que constitui como memória e vestígios significativos de sua história.

Considerando o olhar livre que possuo sobre as construções, o resultado fotográfico está no limiar entre o documental e o artístico. Desde o princípio, realizo fotografias que contemplam fachadas, elementos da arquitetura, janelas, detalhes, assim como marcas depositadas pelo tempo. Busco me atentar ao que mais me atrai nas construções e na fotografia, sendo as cores, os contrastes, os desenhos, as linhas, o jogo entre luz e sombra, a composição harmônica e o equilíbrio das formas.

Foto: Nina Cristofaro

O trabalho imagético é compartilhado virtualmente junto com informações culturais sobre a história e a arquitetura. O projeto possui um site próprio e também uma página na rede social Instagram, que possibilita grande fluxo de imagens e alcance de pessoas. As fotografias, por estarem no campo do bidimensional e serem apresentadas no circuito digital, permitem a visualização dos edifícios de uma maneira distinta. A perspectiva, o ponto de vista e os ângulos se diferem das impressões captadas pelo olhar corriqueiro, disciplinado e horizontal sobre o espaço citadino. O meio virtual possui grande força de engajamento sobre questões do patrimônio cultural e salvaguarda da memória. Constantemente me deparo com novos meios de compartilhamento e armazenamento de informações. Assim, não somente existe uma nova relação com a memória, mas também um novo olhar sobre ela.

A ação de desenvolver um acervo fotográfico do patrimônio arquitetônico de Juiz de Fora, com registros do ano de 2019 e adiante, pretende contribuir na valorização das edificações tombadas, resgatar o passado e eternizar as memórias ainda vivas no presente. Considerando que o patrimônio é mutável e está em constante transformação, ele se transforma para sobreviver e a fotografia atua em seu papel de registrar e ser testemunho dessas modificações.

Foto: Nina Cristofaro

Nessa concepção, o inventário, no sentido de colecionismo e catalogação de registros fotográficos, é significativo para a garantia da memória coletiva e documentação histórica. Nesse sentido, torna-se pertinente refletir sobre a ocupação e manutenção desses espaços através do tempo e ressaltar a relevância da fotografia como objeto de estudo, inclusive auxiliando em trabalhos de restauro, e servindo como fonte de pesquisas e investigações futuras.

Reminiscências da Cidade é um projeto que se caracteriza por ser de longa pesquisa, extinto de uma conclusão imediata, pois tece diálogos em diversas áreas. Com uma câmera na mão, percebo a cidade e suas construções com um olhar curioso, investigativo e atento sobre a relação entre as construções que são resquícios do passado com a sociedade e o espaço urbano atual. E a cada passo e clique, mais me certifico de como fotografia, cidade, memória e patrimônio se encontram no caminho e se entrelaçam.


Referências bibliográficas:

ABREU, Mauricio de Almeida. Sobre a memória das cidades. Revista Território, Rio de Janeiro, v.3, n.4, jan/jun, 1998.

DUBOIS, Philippe. O Ato fotográfico e outros ensaios. Campinas: Papirus, 1993.

LE GOFF, Jacques. História e Memória. São Paulo: Editora da Unicamp, 2003.

https://reminiscenciasdacidade.com/

https://www.pjf.mg.gov.br/administracao_indireta/funalfa/patrimonio/index.php


Nina Cristofaro

Fotógrafa, artista visual e graduanda no curso de Bacharelado Interdisciplinar em Artes e Design da Universidade Federal de Juiz de Fora. A partir de seu interesse pela imagem e audiovisual, a artista está sempre em busca de experimentar novas técnicas, diferentes abordagens e de explorar a fotografia como linguagem artística. É integrante do Coletivo Agrupa do Instituto de Artes e Design da UFJF, que se dedica a trabalhos de mosaico e muralismo. Desde 2019 desenvolve o projeto “Reminiscências da Cidade”, em que realiza registros fotográficos do patrimônio arquitetônico da cidade de Juiz de Fora.


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