O Tarantolato e seus desafios na atualidade: a pandemia e o processo que solicita o registro do grupo como bem imaterial municipal de Juiz de Fora

Revista Casa D’Italia, Juiz de Fora, Ano 2, n. 14, 2021 – Talita Gomes | O Tarantolato e seus desafios na atualidade: a pandemia e o processo que solicita o registro do grupo como bem imaterial municipal de Juiz de Fora


O grupo de dança folclórica Tarantolato foi fundado em Juiz de Fora no ano 2000, unido,  inicialmente, como parte de um desfile de comemoração dos 150 anos do município, projeto esse que exaltava a constituição diversificada dos nossos primeiros moradores, que ajudaram a construir aquela que seria conhecida como a “Manchester Mineira1”. Posteriormente, o coletivo foi levado adiante com o objetivo de salvaguardar as danças do folclore italiano chegadas à nossa cidade por meio dos imigrantes italianos, ainda no século XIX2.

Na atualidade, em que o mundo todo enfrenta novos desafios impostos pela pandemia do coronavírus3, o Tarantolato também encara duas questões fundamentais que interferem diretamente em sua história e seu futuro: a pandemia e o processo que solicita o registro do  grupo como bem imaterial municipal de Juiz de Fora.

Sobre a pandemia da Covid-19, Mariza Fernandes Pinto Gomes, presidente do grupo, nos contou como o Tarantolato vem atravessando esse momento. De acordo com ela, o grupo seguia no início de 2020 com suas atividades normalmente, realizando seus ensaios e programando suas apresentações, quando foi surpreendido pela pandemia e pelas medidas sanitárias deflagradas no município em março de 2020. De acordo com ela, nesse momento:

“O grupo já estava com as passagens compradas para a apresentação na Primeira Festa da Colheita em Caxias do Sul (RS). Foi um choque! Estava tudo pronto, fizemos o último ensaio no dia 15 de março, para viajarmos no dia 20 do mesmo mês. Até o último momento achávamos que seria possível, mas o evento foi cancelado. Decidimos, então, não cancelar as passagens, mas apenas mantê-las para usarmos assim que a pandemia for controlada” (Relato de Mariza, concedido em julho de 2021).

A primeira medida de autocuidado do grupo, então, foi cancelar toda e qualquer reunião presencial entre os membros do Tarantolato. Assim, o grupo seguiu todas as recomendações da Organização Mundial da Saúde (OMS)5 e passou a realizar suas reuniões de forma on-line.

“Nos adaptamos no que foi possível, apesar de não podermos realizar juntos a nossa atividade principal, que é dançar. Comemorações do aniversário de 20 anos do grupo, uma data tão importante para nós, e outras datas comemorativas, foram lembradas nas redes sociais. Continuamos a nos comunicar de forma on-line durante todo esse período” (Relato de Mariza,  concedido em julho de 2021).

Após um ano de pandemia, ainda sem controle em nosso país (devido a múltiplos fatores como: as novas variantes do vírus que foram surgindo; a carência de uma campanha de vacinação mais rápida e eficaz; a falta de conscientização de toda a população brasileira sobre a importância de seguir a rigor todos os protocolos recomendados; a escassez de consenso entre o governo federal e os governos estaduais e municipais sobre o enfrentamento da pandemia; e ainda a total omissão do governo federal diante da crise de saúde deflagrada), em março de 2021, o Tarantolato recebeu alguns convites para apresentações em reuniões com poucas pessoas, seguindo os protocolos de segurança recomendados. Os convites, contudo, foram recusados devido à instabilidade do momento vivenciado.

Apesar das dificuldades enfrentadas pelo grupo de dança nesta pandemia, e por todos os seus membros individualmente em seus cotidianos (fortemente afetados por essa crise de saúde mundial, que em nosso país agravou ainda mais a crise econômica e se transformou em uma crise política), o Tarantolato comemora a felicidade de não ter perdido ninguém dos seus para a Covid-19 e também a vitória de todos ainda continuarem parte integrante deste coletivo, que vem resgatando com muita responsabilidade, alegria e zelo, há mais de 20 anos, as danças  folclóricas italianas dos nossos imigrantes.

A despeito da falta de grandes investimentos em imunizantes por parte do governo federal no ano de 2020, hoje a campanha de vacinação atual do nosso município se mostra promissora e eficaz, o que dá grandes esperanças ao Tarantolato de retornar em breve às atividades presenciais. Mariza ressaltou que a retomada será iniciada seguindo todos os protocolos de segurança necessários e somente após todos os membros do coletivo estarem totalmente imunizados (muitos foram vacinados com imunizantes de dose dupla, e o ciclo da vacinação precisa ser completado). O coletivo afirma que a segurança de todos está acima de tudo!

Ainda dentro desse quadro de pandemia, no início deste ano, foi aberto o pedido de registro do grupo de dança Tarantolato como patrimônio imaterial da cidade de Juiz de Fora. O processo ainda segue em fase de instrução, para que, ao término dessa etapa, novos passos sejam dados, os quais culminarão em sua votação para ser ou não efetivamente registrado como bem imaterial municipal.

Seguimos na esperança de dias melhores e torcendo para que o Tarantolato seja aprovado nesse processo de registro. Ressaltamos que o pedido de registro foi aberto exatamente no meio deste momento pandêmico, pois sabemos das grandes dificuldades enfrentadas pelos agentes culturais em nosso país, de modo que o reconhecimento do grupo como bem imaterial pode interferir positivamente em suas atividades, salvaguardando a continuidade desse trabalho de resgate folclórico tão relevante à nossa população juiz-forana e que serve de exemplo de organização e perseverança a outros coletivos culturais.

1 Manchester Mineira: “Juiz de Fora foi a primeira cidade a se industrializar em Minas Gerais, recebendo carinhosamente, já naquele período, o apelido de “A Manchester Mineira”. Junto com Rio de Janeiro e São Paulo, constituiu o trio das principais cidades industrializadas do país entre as duas últimas décadas do século XIX e as três primeiras décadas do século XX” (PAULA, 2006, p. 1).

2 FERENZINI, 2008.

3 Coronavírus: “A pandemia da doença causada pelo novo coronavírus 2019 (Covid-19) tornou-se um dos grandes desafios do século XXI. Atualmente, acomete mais de cem países e territórios nos cinco continentes. Seus impactos ainda são inestimáveis, mas afetam direta e/ou indiretamente a saúde e a economia da população mundial” (BRITO et al, 2020, p. 54).

4 Covid-19: “A Covid-19 é uma doença infecciosa causada pelo novo coronavírus (SARS-CoV-2) e tem como  principais sintomas febre, cansaço e tosse seca” (Opas — Organização Pan-Americana de Saúde, s/d).

5 Organização Mundial de Saúde (OMS): “A OMS cria os padrões mais importantes da área da saúde e atua em assuntos tão diferentes quanto poluição, obesidade infantil, saúde mental, doenças infecciosas e estabelece listas de medicamentos essenciais. Também é a responsável por produzir a Classificação Internacional de Doenças, livro de cabeceira de médicos e presente em consultórios mundo afora” (BERALDO, 2020, p. 1).


Referências bibliográficas:

ALMEIDA, Patrícia Lage de. O pão e a festa: patrimônio imaterial e turismo em Juiz de Fora (1969-2010) 2015. Tese (Doutorado em História) — Fundação Getúlio Vargas. Centro de Pesquisa e Documentação de História Contemporânea do Brasil – CPDOC. Disponível em: https://www.comunicacaoecrise.com/pdf/Normas%20ABNT.pdf. Acesso em 12/07/2021.

BERALDO, Paulo. Brasil teve papel direto na fundação da OMS: entenda o que é e a função da organização. O estado de S. Paulo. 01/04/2020. Disponível em: >https://saude.estadao.com.br/noticias/geral,brasil-teve-papel-direto-na-fundacao-da-oms- entenda-o-que-e-e-a-funcao-da-organizacao,70003256316<. Acesso em 02/07/2021.

BRITO, Sávio Breno Pires; BRAGA, Isaque Oliveira; CUNHA, Carolina Coelho. PALÁCIO, Maria Augusta Vasconcelos; TAKENAMI, Iukary. Pandemia da COVID-19: o maior desafio do século XXI. Revista Visa Em Debate: Sociedade, Ciência e Tecnologia. 02/08/2020. Fio Cruz. Disponível em :>https://docs.bvsalud.org/biblioref/2020/07/1103209/2020_p-028.pdf<.Acesso em 01/07/2021.

DELLA MONICA, Laura. Turismo e folclore: um binômio a ser cultuado. 2ª ed. São Paulo: Global. 2001. Coleção Global Universitária.

FERENZINI, Valéria Leão. Os italianos e a Casa D’Italia de Juiz de Fora. Locus: revista de história, Juiz de Fora, v. 14, n. 2 p. 149-159, 2008. Disponível em: http://www.ufjf.br/locus/files/2010/02/art-06-os-italianos.pdf. Acesso em: 11/07/2021.

NUNES, Jacqueline da Silva. Cultura popular brasileira: dança folclórica, o processo de ensino-aprendizagem por meio da tecnologia multimídia. In: IX Congresso Nacional de Educação – EDUCERE e o III Encontro Sul Brasileiro de Psicopedagogia – ESBP. Paraná. 2009. Disponível em: http://www.pucpr.br/eventos/educere/educere2009/anais/pdf/3109_1353.pdf. Acesso em 11/07/2021.

OLENDER, Marcos. A contribuição da imigração italiana na consolidação da paisagem urbana de Juiz de Fora. In: III Colóquio Ibero-Americano paisagem cultural, patrimônio e projeto – desafios e perspectivas. Belo Horizonte. 2014. Disponível em: http://www.forumpatrimonio.com.br/paisagem2014/artigos/pdf/426.pdf. Acesso em 11/07/2021.

OPAS (Organização Pan-Americana de Saúde). Folha informativa sobre COVID. s/d. Disponível em: >https://www.paho.org/pt/covid19<. Acesso em 22/07/2021.

PAULA, Ricardo Zimbrão Affonso de. E do caminho novo das Minas dos Matos Gerais emerge a ‘Manchester Mineira’ que se transformou num ‘baú de ossos’: história de Juiz de Fora: da vanguarda de Minas Gerais a “industrialização periférica”. 2006. 165p. Tese (doutorado) — Universidade Estadual de Campinas, Instituto de Economia, Campinas, SP. Disponível em: <http://www.repositorio.unicamp.br/handle/REPOSIP/286144>. Acesso em: 20/07/2021.


Talita Gomes

Turismóloga, Especialista em Planejamento e Gestão de Eventos, atualmente cursando História na UFJF.


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