A memória italiana em Mar de Espanha: o surgimento do Espaço Cultural Falabella

Revista Casa D’Italia, Juiz de Fora, Ano 2, n. 14, 2021 – Tamara Nunes e Rafael Bertone | A memória italiana em Mar de Espanha: o surgimento do Espaço Cultural Falabella


Mar de Espanha é uma pacata cidade mineira, localizada na Zona da Mata, próximo a Juiz de Fora. Em setembro de 2021, completa 170 anos de emancipação político-administrativa, mas seus primórdios remontam a antes, talvez ao início do século XIX. Para conhecermos um pouco mais dessa cidade, temos de voltar no tempo, mais precisamente ao período do café, ciclo econômico que sucedeu a mineração aurífera, tão importante para nossa Minas Gerais. Naquele período, às margens do Rio Paraíba do Sul, a paisagem foi sendo gradativamente modificada pelos extensos cafezais, sendo comum a doação de sesmarias, grandes porções de terra onde eram plantadas as lavouras e erguidos imponentes complexos, sob os olhares atentos dos Barões do Café. Por aqui, não foi diferente! Os irmãos Leite Ribeiro foram os primeiros a se aventurar e desbravar os chamados Sertões de Leste (região da Zona da Mata Mineira). Francisco Leite Ribeiro e Custódio Ferreira Leite tiveram grande destaque na história mardespanhense, sendo responsáveis por aberturas de caminhos e estradas, como a primeira ponte ligando o estado de Minas Gerais ao estado do Rio de Janeiro. Próximo a esse local, existia a Fazenda do Louriçal, adquirida por Francisco. Já Custódio, o Barão de Ayuruoca, foi um dos mais influentes cafeicultores da região, com acesso direto e facilitado à Coroa, e personagem fundamental para a história de Mar de Espanha.

Essa história tem seu início em um pequeno arraial, o de Nossa Senhora das Mercês do Rio Cágado, conformado na Rua Nova (hoje Rua Major Antônio Barbosa). Nesse citado local foi erguida, antes do ciclo do café, uma rancharia responsável por dar abrigo aos viajantes que rumavam até a Coroa. Anos mais tarde, nessa área já consolidada, tem-se notícias dos primeiros e modestos edifícios a conformarem a localidade, que pouco a pouco passaram a ocupar cada vez mais o interior do arraial, desenvolvendo-se, inclusive, às margens do Ribeirão de São João. Em 1840, após pedido de elevação do citado arraial à categoria de vila, o presidente da província manifesta posição contrária, por não haver, segundo ele, nem mesmo uma edificação capaz de abrigar uma Casa de Câmara e Cadeia, tamanha a precariedade do lugar. Tal fato acontece 11 anos depois, em 10 de setembro de 1851, momento no qual, por intermédio do já citado Barão de Ayuruoca, possuidor de grande prestígio junto à Corte, ocorre a transferência da vila de São João Nepomuceno para o então arraial de Nossa Senhora das Mercês do Rio Cágado, com a denominação de vila do Mar de Espanha. Em 27 de junho de 1859, por fim, a vila é elevada à categoria de município, permanecendo com o mesmo nome.

A vida dos mardespanhenses era movimentada pelo crescente número de habitantes e pelo desenvolvimento da economia cafeeira, em seus primórdios sustentada pela mão de obra escrava. Entretanto, em face das sucessivas leis que favoreciam a libertação desses cativos, aliadas à alforria de outros tantos, Dom Pedro II abre os portos brasileiros para a chegada do que seria a salvação da economia local: a imigração de europeus. Por volta de 1875, no sul do país, vê-se a chegada maciça de portugueses, espanhóis, alemães e italianos, sendo estes últimos os mais visados. Segundo o professor Julio Cezar Vanni, não é tarefa fácil precisar quando os primeiros imigrantes chegaram à Zona da Mata. Entretanto, ele pontua que, em 1878, a imigração ganhou força na região. Em 1886, foi a vez de Nicolau Falabella e Miguel Falabella, oriundos de Lagonegro, província de Potenza, cujo sobrenome está marcado na história destas terras e eternizado no Espaço Cultural Falabella, centro de cultura e memória da população mardespanhense. Acredita-se fortemente que, nos sertões do Rio Cágado, até meados de 1930, 80% da população tenha sido constituída por italianos, sendo Mar de Espanha, ainda hoje, um município que acolhe uma grande quantidade de famílias descendentes desse processo inicial de imigração.

Salão principal Espaço Cultural Falabella – Foto de Tamara Pereira, 2020 – Rafael Rezende Bertone da Costa

Foquemos, neste momento, na família Falabella. Interessante pontuar, inicialmente, que se tratam de duas vertentes. Nicolau e Miguel, anteriormente citados, compartilhavam o mesmo sobrenome, mas não o mesmo sangue, apesar de Nicola Falabella afirmar em seu livro, após pesquisas aprofundadas, que os Falabellas descendem de uma mesma linhagem. Nicolau e sua esposa, Maria Felícia, fixaram-se inicialmente em Sarandi, sendo donos de casa comercial no lugarejo, e tempos depois, precisamente em 1900, mudaram-se para Mar de Espanha, no pacato Largo do Rosário. A família continua no ramo comercial, vai ganhando destaque, acumulando fortuna e tornando-se, mais tarde, proprietária de um sobrado na Praça Central. Já Miguel Falabella, originalmente Michele Maria Falabella, segundo consta na carta escrita por seu neto, Celso Falabella de Figueiredo Castro, não veio como imigrante. Muito jovem, embrenhou-se na campanha Garibaldina, fugindo da Itália, inicialmente rumo ao Uruguai e, logo após, para o Brasil, fixando-se no lugarejo conhecido por Estevão Pinto, próximo a Mar de Espanha, e dedicando-se à agricultura. Ambas as linhagens de assinatura Falabella muito contribuíram para a história e a cultura mardespanhenses. Esse sobrenome ganhou ainda mais força e reconhecimento a partir de 2005. Em fevereiro desse ano, oficialmente, foi fundada a Associação do Espaço Cultural Falabella, sob presidência da Sra. Maria José dos Santos Gribel, casada com um descendente direto dos Falabellas. Em carta redigida a próprio punho, a senhora Maria José relata que a escolha das famílias a serem homenageadas na recém-criada Casa de Cultura deveu-se, diretamente, ao prestígio de tais imigrantes, que se fixaram no município e aqui criaram raízes, as quais se ramificaram e se destacaram nacionalmente nas linguagens artísticas.

Entretanto, a semente que deu origem ao nosso Espaço remonta a um pouco antes, mais precisamente a 2001, período em que Mar de Espanha comemorava, com uma belíssima festa, seus 150 anos de emancipação político-administrativa. Foi um momento de efervescência cultural e busca da memória e da história do povo mardespanhense, idealizado por um grupo de mulheres que, quatro anos mais tarde, após esse mergulho na história local, idealizam e concretizam o Espaço Cultural Falabella.

Voltando a 2005, ainda na carta da Sra. Maria José Gribel, devemos destacar o pontapé inicial de reunião do rico acervo ainda hoje preservado pela instituição. Uma verdadeira preciosidade que narra grandes fatos e feitos mardespanhenses, a começar por uma coleção de jornais, doada a senhora Maria José, datados de 1926 a 1961. Em posse de tais exemplares, a futura primeira presidente do Espaço Cultural, em uma atitude de preservação, procede com a encadernação do material. Aos jornais, somam-se uma cadeira, uma mesa, um armário, fotos antigas e quadros (doados, em sua maioria, por Maria Aparecida Senra Martins) e demais objetos. Havendo a necessidade latente de um espaço para expor tantas relíquias, surge a oportunidade de ocupar o andar térreo do primeiro prédio público a ser erguido na vila: a antiga Casa de Câmara e Cadeia, localizada no centro histórico da localidade, em frente ao jardim onde se implanta, imponente, o Santuário dedicado à Padroeira, Nossa Senhora das Mercês.

A inauguração, como não poderia deixar de ser, iniciou-se com o descerramento da placa comemorativa do tombamento do prédio pelo patrimônio municipal, através do decreto número 155, datado de 2003. Em seguida, discursaram o prefeito municipal, Sr. Joaquim José de Sousa, a primeira-dama e então vice-presidente do Espaço Cultural, Sra. Vanilda do Valle e Souza, a secretária municipal de Educação, Sra. Maria Lydia Martins Moreira, o professor Sr. Julio Vanni, a Sra. Dirce Falabella e a presidente da instituição, Sra. Maria José dos Santos Gribel, prosseguindo com a benção religiosa de Monsenhor Falabella às instalações do prédio. Reafirmou-se, nesse momento de inauguração, o legado trazido até os dias atuais, sendo a preservação de nossa história e dos valores culturais do passado, do presente e do futuro.

Inauguração do Espaço Cultural Falabella – Acervo do Espaço Cultural, 2005 – Rafael Rezende Bertone da Costa

As visitações tiveram início logo após as primeiras festividades inaugurais, assim como a procura dessa instituição cultural por parte de pesquisadores, instituições e população, para doação de acervos caros ao município. Muito foi feito, visto e vivido desde então, como a cessão da guarda do Acervo Histórico da Câmara Municipal, em 2007, e eventos de cunho cultural e educacional (que por vezes se desenvolveram no pavimento superior do prédio, sendo esse um salão para eventos). Não podemos esquecer, também, o ano de 2011, quando o acervo foi temporariamente transferido para edifício próximo, permitindo a reforma do prédio, retornando somente em 2012, com solene reinauguração e festividades para celebrar a recuperação de um bem que vinha se degradando consideravelmente e, consequentemente, colocando em risco seu brilhante acervo.

As atividades, apesar de todo o conteúdo histórico-cultural exposto, cessaram consideravelmente após 2013, momento em que foram suspensos os recursos advindos da Prefeitura Municipal para a manutenção e funcionamento da instituição. Apesar disso, o Espaço Cultural resiste ao tempo e aos contratempos, com a ajuda de colaboradores e admiradores da história local. Os anos passam e chegamos a 2018, momento em que a então presidente, Sra. Maria José dos Santos Gribel, dada a impossibilidade física e falta de condições para ainda exercer o cargo, afasta-se da instituição, assumindo a presidência o Sr. Rafael Rezende Bertone da Costa. Ainda hoje no cargo, o Sr. Rafael conseguiu, ao longo do ano de 2021, juntamente com sua diretoria, grandes feitos como a restituição de repasse da verba advinda da Prefeitura Municipal, a repintura/restauração das fachadas do imóvel, recebimento e guarda de documentos públicos municipais, e criação de reserva técnica, iniciada este ano e em constante complementação, concomitantemente à digitalização de todo acervo fotográfico. Perdurando até os dias atuais, tendo como início março de 2020, ainda circula um pequeno jornal informativo sobre o Espaço Cultural Falabella e seu rico acervo.

Espaço Cultural Falabella – Foto de Tamara Pereira, 2021 – Rafael Rezende Bertone da Costa

Chegamos ao momento de colocar neste presente texto muitas memórias e causos, como bem gostam os mineiros de coração, nascidos ou não nestas terras. A pandemia da Covid-19 pegou a todos de surpresa, ocasionando o fechamento da Casa de Cultura por mais de um ano. Mas não se preocupem! O acervo permanece sendo cuidado, distribuído e organizado nos ambientes desse bem que já serviu de Câmara, Cadeia, Fórum, Clube Social, farmácia, residência e outras atividades comerciais. Viu o amanhecer da luz elétrica, do telefone, do trem, da imprensa, da internet e dos ágeis meios de comunicação. A essas primeiras e grandes mulheres, pioneiras, se juntaram tantos outros, apaixonados por nossa Mar de Espanha, sempre honrando o que aqui está de tangível e tudo o que aqui está representado de intangível, reverenciando a memória italiana que ainda corre nas paredes desse espaço e no sangue desta gente.


Referências bibliográficas:

CASTRO, Celso Falabella de Figueiredo. Os sertões de leste: achegas para a história da Zona da Mata. Belo Horizonte: Imprensa Oficial, 1987.

FALABELLA, Nicola. Antes que a luz se apague. Belo Horizonte: Editora Lê, 2003.

VANNI, Julio Cezar. Os sertões do Rio Cágado. Niterói: Editora Comunitá, 2002.


Tamara Nunes Pereira

Técnica em edificações, arquiteta e urbanista, mestra em conservação e restauro, professora e diretora de patrimônio do Espaço Cultural Falabella

Rafael Bertone

Historiador, arte-educador, professor e presidente do Espaço Cultural Falabella


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