Criando imagens de si: como Juiz de Fora aparece na Exposição Internacional de Milão (1906)

Revista Casa D’Italia, Juiz de Fora, Ano 2, n. 14, 2021 – Andreia de Freitas Rodrigues | Criando imagens de si: como Juiz de Fora aparece na Exposição Internacional de Milão (1906)


Muito ainda há que se falar sobre a imigração italiana e toda  a contribuição para o desenvolvimento da nossa região. Arcuri, Bianchi, Bolpato, Brandi, Capelli, Caputo, Castellani, Ciampi, Gaudio, Falci, Favero, Ferrari, Giannola, Grandi, Grippi, Guarini, Mangia, Marcasini, Marcato, Mazzini, Padovani, Pantaleone, Peluzzo, Piazzi, Pitta, Saggioro, Scannapieco, Scarlatelli são alguns dos sobrenomes de imigrantes italianos que vieram para o Brasil, a partir do século XIX. Em Juiz de Fora, deixaram marcas na cidade, que resistem e se fazem presentes em nosso dia a dia. Mas aqui, neste texto, procuramos trazer um outro olhar. A projeção internacional da cidade, vista em uma exposição internacional realizada na Itália.

A Exposição Universal de 1906 foi uma feira de âmbito mundial que aconteceu em Milão, na Itália, entre 28 de abril a 31 de outubro daquele ano, com o nome original de L’Esposizione Internazionale del Sempione, também chamada de A Grande Exposição do Trabalho (FIGURA 01). Realizada no Parco Sempione e na Piazza d’Armi, chegou a receber cerca de 4.012.776 visitantes e cobriu uma área de 250 acres, dividida em pavilhões internacionais com mostras de artes e exibições industriais, agrícolas, científicas.

Capa do catálogo da Esposizione Internazionale del Sempione. Milão, Fratelli Treves, 1906

A Grande Exposição de 1906 nasceu com o objetivo de realizar uma grande exibição internacional sobre o trabalho e o transporte, em comemoração à abertura do Túnel Alpino Sempione, túnel ferroviário ligando Itália e Suíça. Um catálogo ilustrado foi impresso, trazendo todas as informações sobre os participantes. Na extensa seção ‘Il Brasile e gli Italiani’ estão os representantes oriundos do Brasil, divididos por estados, com informações gerais, dados geográficos, demográficos, econômicos, artísticos, etc. Ali, Juiz de Fora aparece assim descrita:

“Juiz de Fora è la cittá piú importante dello Stato per la vita industriale e commerciale. Há per noi particolare valore, perché alla vita di codesta città contribuiscono i nostri connazionali.

È illuminata a luce elétrica e sono a trazione elétrica i tramways Strade belle, lunghe e diritte. Edifici notevoli: il Palazzo dei tribunal quelli dell’Accademia di commercio e del Banco di Credito reale il Palazzo C. Andrada e C.

Edifizio imponentíssimo`quello dela fabbrica di tessuti Mascarenhas e fra gli stabillimenti industriali più importante a registrarsi quello di mobili in stile, láltro di punte di Parigi, la Mechania Mineira, la Empreza Industrial, la Construcção Mineira, ecc.

Conta 38.000 abitanti.[1] (1906, p. 214)

Como podemos notar, Juiz de Fora (FIGURA 02) é descrita como cidade de importância regional e grande avanço tecnológico, contando com a eletricidade originada na Usina Hidrelétrica de Marmelos, a primeira grande usina hidrelétrica da América Latina, inaugurada em 1889, às margens da Estrada União e Indústria e do Rio Paraibuna.

Juiz de Fora. Panorama. Il Brasile e gli Italiani, 1906, pg.214

Ao longo das páginas dedicadas a Minas Gerais, alguns estabelecimentos juiz-foranos aparecem em destaque, sempre mostrando um patrício que, em terras brasileiras, prosperou, como, por exemplo, nossa reconhecida Cia. Industrial Pantaleone & Arcuri (na época ainda Spinelli). ‘Lo Stalilimento Pantaleone Arcuri e Spinelli’ ocupa uma página inteira do catálogo, com informações sobre a localização, produção, funcionários e projeção regional, mostrando a importância da companhia para a cidade.

Ao longo das páginas dedicadas a Minas Gerais, alguns estabelecimentos juiz-foranos aparecem em destaque, sempre mostrando um patrício que, em terras brasileiras, prosperou, como, por exemplo, nossa reconhecida Cia. Industrial Pantaleone & Arcuri (na época ainda Spinelli). ‘Lo Stalilimento Pantaleone Arcuri e Spinelli’ ocupa uma página inteira do catálogo, com informações sobre a localização, produção, funcionários e projeção regional, mostrando a importância da companhia para a cidade.

La Sartoria ‘Oriente’. Il Brasile e gli Italiani, 1906, pg.924.

“È al Brasile dal 1895, venutovi dela nativa Este in Provincia di Padova. Stabilitosi in Juiz de Fora, vi fondò nel 1898 la sartoria Oriente, la quale conta oggi fra le migliori de genere in quella città, fornita come è largamente di stoffe e tenuta in pregio per la bontà e finitezza dei lavori che in essa si eseguono da uma quindicina di operai.

Virgilio Bisaggio è anche um uomo di molto tatto e di modi cortesi; nel 1904 resse per quase um anno il vice-Consolato d’Italia in Juiz de Fora, com piena soddisfazione della mostra colônia e delle autorità brasiliane che ebbero a lodarsi della correttezza e dell’energia del Bisaggio. Fu presidente del Club italiano recreativo, XX Settembre, e del Club dos Planetos e tesorere della Società di Beneficenza Umberto I.”[2] (1906, p.924)

Os documentos sob guarda do Arquivo Central/UFJF nos permitem reconstruir uma parte da história e da memória de algumas das inúmeras famílias de imigrantes italianos que por aqui se estabeleceram, descrevendo parte das atividades que exerceram e ajudaram a tornar Juiz de Fora um polo reconhecido por seu avanço tecnológico e industrial ou seu desenvolvimento econômico e social. Aqui, vimos apenas um desses documentos, pertencente ao conjunto documental da Cia. Pantaleone Arcuri, empresa de notória importância regional, tendo construído muitos dos mais importantes edifícios da época. O catálogo testemunha os empreendimentos daqueles imigrantes italianos em Juiz de Fora e é interessante notar como a cidade se mostra, e de fato era, um centro industrial. Também nos permite observar a rede de sociabilidade em que os imigrantes estavam inseridos, a relevância social e econômica que uma visibilidade estrangeira trazia para as empresas, o que, ao olhar deles, demonstrava o prestígio alcançado. Desse modo, acessar esses documentos é mais do que apenas tomar nota daquilo que era falado sobre os italianos em Juiz de Fora; é observar, pela ótica deles, aquilo que era digno de memória.

[1] Juiz de Fora é a cidade mais importante do estado em termos de vida industrial e comercial. Tem um valor particular para nós, porque os nossos compatriotas contribuem para a vida desta cidade.

Ela é iluminada eletricamente e os bondes são movidos a eletricidade. Estradas bonitas, longas e retas. Edifícios notáveis: o Palácio do Tribunal, os da Academia de Comércio e do Banco de Crédito Real, o Palácio C. Andrada e C. Edifício imponente é o da fábrica têxtil de Mascarenhas e entre os mais importantes estabelecimentos industriais a registrar o de móveis de época, o outro de destaques parisienses, a Mecânica Mineira, a Empresa Industrial, a Construção Mineira, etc. Conta com 38.000 habitantes. (tradução livre).

[2] Ele está no Brasil desde 1895, vindo de sua terra natal, Este, na província de Pádua. Radicado em Juiz de Fora, fundou ali a alfaiataria Oriente em 1898, que hoje conta entre as melhores do gênero naquela cidade, abastecida em grande parte com tecidos e valorizada pela bondade e fineza das obras que são. realizado nele por cerca de quinze trabalhadores.

Virgilio Bisaggio também é um homem de grande tato e maneiras corteses; em 1904 ocupou o vice-consulado da Itália em Juiz de Fora por quase um ano, para plena satisfação da exposição da colônia e das autoridades brasileiras que elogiaram a justeza e a energia de Bisaggio. Foi presidente do Clube Recreativo Italiano, XX de setembro, e do Clube dos Planetas e tesoureiro da Sociedade de Caridade Umberto I. (Tradução livre).


Referências bibliográficas:

ARQUIVO CENTRAL DA UNIVERSIDADE FEDERAL DE JUIZ DE FORA. http://www.ufjf.br/arquivocentral/ | arqcentral_ufjf | @arcentralufjf
(32) 3214-4161
Avenida Rio Branco, 3460 – Juiz de Fora
arqcentral@ufjf.edu.br

LaphArq – Laboratório de pesquisa em História e Arquivologia – https://www.youtube.com/channel/UCyffoXLe_Xrn-1v8ljT4G9g

CONSELHO NACIONAL DE ARQUIVOS. Disponível em: <http://www.conarq.arquivonacional.gov.br>.

COSTA, Arlene Xavier Santos. PEN-SEI: a implantação do Processo Eletrônico Nacional através do Sistema Eletrônico de Informações na Universidade Federal de Juiz de Fora. 2020. Dissertação (Mestrado em Políticas Públicas, Gestão e Avaliação da Educação Superior). Universidade Federal da Paraíba, João Pessoa, 2020.

GERMANO, Alessandra de Carvalho. Diretrizes para Aquisição de Arquivos: Uma contribuição à política de Arquivos da Universidade Federal de Juiz de Fora. 2017. Dissertação (Mestrado Profissional em Gestão de Documentos e Arquivos). Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, 2017.

GERMANO, Alessandra de Carvalho. Diretrizes para Aquisição de Arquivos: Uma contribuição à política de Arquivos da Universidade Federal de Juiz de Fora. 2017. Dissertação (Mestrado Profissional em Gestão de Documentos e Arquivos). Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, 2017.


Andreia de Freitas Rodrigues

Doutora em História da Arte pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro (2018). Mestre em História (2009), graduada em Artes (2005) e em Farmácia e Bioquímica (1992) pela Universidade Federal de Juiz de Fora. Coordenadora do Laboratório de Pesquisa em História e Arquivologia (LaphArq), grupo de pesquisa Cnpq. Desenvolve trabalhos na linha de pesquisa “Arquivo e patrimônio documental: informação, memória e cidadania”. É conservadora-restauradora do Arquivo Central da Universidade Federal de Juiz de Fora, atuando em preservação de bens documentais, acesso e difusão da informação, educação para o patrimônio, conservação e restauração de bens documentais. E-mail:andreia.rodrigues@ufjf.edu.br


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