Juiz de Fora, Los Angeles, Itália

Revista Casa D’Italia, Juiz de Fora, Ano 2, n. 11, 2021 – Baixo Centro – François Havana | Juiz de Fora, Los Angeles, Itália


Inverno de 2010, visita técnica à Casa D’Italia, com propósito de filmar parte do meu curta de conclusão de curso em Comunicação Social, o Cachorro Morto, adaptação freestyle do conto Vida e Morte na Enfermaria dos Indigentes, do romancista apelão Charles Bukowski. 

Imigrante do Sul de Minas, com roteiro inseguro e escatológico em mãos, consegui, após algumas carteiradas da produtora — que pediu à mãe que ligasse para alguém que conhecia outrem que poderia pedir por mim — o edifício emprestado por um fim de semana. 

E lá estava eu, Francisco Franco (triste coincidência, aka Generalíssimo), cineasta virgem, assinando um filme de baixo orçamento com premissa baseada num conto sarcástico, sacana e machista de um escritor nascido na Alemanha, crescido em Los Angeles, gritando ação num prédio dos anos 1930, construído (também) com 50 contos de réis cedidos por Benito Mussolini e, sim, parece mentira.

Foto: Amanda Dias 

Construí, no salão da Casa D’Italia, uma enfermaria com três camas hospitalares alugadas e objetos garimpados na feira da Avenida Brasil. Ali, rodamos os diálogos principais. No corredor e no banheiro, um plano sequência onírico. Me permiti, como principiante, colocar nas mãos do padre as tatuagens de Febrônio Índio do Brasil, serial killer mineiro, de Jequitinhonha, e, ri, orgulhoso por homenagear dessa forma Minas Gerais, sem pão de queijo. Debochei, também, como no texto original, de Florence Nightingale, enfermeira fundadora da enfermagem moderna, nascida na Itália, morta na Inglaterra e, sinceramente, não sei o porquê disso, mas hoje, 11 anos depois, chamo de babaquice. 

Foto: Amanda Dias 

Cachorro Morto me abriu portas, me levou a festivais e, premiado, permitiu que eu rodasse um segundo curta com maior dignidade. Não o renego, tampouco subestimo. Cachorro Morto reuniu na Casa D’Italia (e locações adjacentes) um elenco com nomes que carrego para o resto da vida: Juliano, Lívia, Patrícia, Samir, Marcos, Eliseu, Didi, Mari, Maycon, Dudu, Dedé, Josie, Nava, Mari, Santo, João, Nanda, Ken, Daniel e meu amor, Fernanda. Na Casa D’Italia, Dona Marlene, Terezinha e Consolare Pietro. Só tenho a agradecer. Vida eterna à Casa D’Italia.


Baixo Centro
François Havana

Redação de conteúdo e produtora de entretenimento.


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