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Revista Casa D’Italia, Juiz de Fora, Ano 2, n. 11, 2021 – Zezinho Mancini | Tudo/Nada/Tudo


Quando, honrado, recebi o convite para redigir este texto, em princípio duvidei da minha capacidade de produzir algo com a profundidade e acuidade que digna revista e tão nobre rol de colaboradores, a meu ver, estabeleciam como parâmetro sobre um assunto que, em tese, seria esperado que eu dominasse — a cultura de Juiz de Fora.

As linhas abaixo comprovam que minha intuição estava certa. Se não, vejamos:

Paço Municipal – Intervenção sobre foto do Magenta Studio

Penso que não devo cometer o equívoco de tecer comentários sobre a nossa caríssima Funalfa, instituição à qual tive a graça de dirigir por um período de dois anos, pois entendo que ela, a Fundação, é maior que qualquer gestão, que qualquer gestor. Há mais de 40 anos ela é a protagonista absoluta do fazer cultural local. E isso já diz tudo.

Do mesmo modo, creio ser prudente evitar como temática os valiosos equipamentos públicos municipais, estaduais e federais, sua existência fundamental para a produção e fruição cultural e nosso eterno processo de formação de público. Ainda que hoje, prudente e infelizmente, estejam fechados, há quem responda formalmente por eles. Funcionários — muitos de carreira — que sobre eles detêm vasto conhecimento que eu nunca arrisquei e não seria hoje que arriscaria fingir ter.

Theatro Central – Intervenção sobre foto de André Berlinck

Outro assunto que com certeza não me cabe tocar é o esplendoroso patrimônio material e imaterial da cidade. A riqueza daqueles que constam nessa seleta lista não está ao alcance de meus dedos e o melhor seria deixar para discorrer a seu respeito aqueles que com propriedade, cotidianamente, lutam para proteger essa quota única da nossa história.

Também jamais deveria ousar me aprofundar aqui sobre algum dos grandes baluartes da nossa cultura, como Alfredo Ferreira Lage e Mariano Procópio, ou tampouco Murilo, Dnar e os Bracher. Reverencio seus feitos porque enormes, mas conjuntamente, porque pessoas muito mais gabaritadas que eu já fizeram e continuarão perpetrando a gloriosa tarefa de homenagear suas trajetórias e estendê-las rumo ao infinito.

E se eu tentasse falar de artistas mais próximos, da minha área, o teatro, com quem convivi? Grupo TIA, Grupo Divulgação, Teatro de Quintal… Ou daqueles com os quais aprendi sobre o ofício do ator e, mais do que isso, sobre a vida, como Toninho Dutra, Marcos Marinho, Henrique Simões, Samir Hauaji… Putz! A admiração e o respeito desestabilizam meu coração, pernas e mãos, fazendo com que eu não me sinta à altura.

Eu poderia, pois, falar dos jovens talentos que vêm reinventando o jeito de se fazer e consumir cultura, migrando ao território digital para sobreviver à pandemia. Porém, a apatia do governo federal já esgotou minha paciência. Este deveria ser um texto festivo e não acredito que alcançarei seu objetivo fazendo uso de xingamentos e palavrões.

As Quatro Estações – Intervenção sobre foto retirada do site ABC Experience

Bem… Acho que só o que me resta é falar um pouco de mim mesmo. Ninguém (nem mesmo eu) pode dizer que este não é meu lugar de fala. Sou um agente cultural local há 25 anos. Me sinto cá bem feliz por ter realizado uma pá de espetáculos, filmes, exposições, shows e eventos ao longo desse tempo. Minha história foi cunhada pela arte, pelos artistas e pela cultura de Juiz de Fora. Em paralelo, orgulho-me por ter dado minha parcela de contribuição, junto a todos os ilustres citados nos parágrafos acima, ao movimento dessa engrenagem bela e incrível que modifica as pessoas, a cidade, o mundo.

E é por isso que é difícil falar sobre a cultura. Ela está sempre mudando tudo, dois passos à nossa frente. Trazendo ar fresco, mesmo sob as piores condições. Modernizando sem deixar o passado para trás. Abrindo caminho ao novo que agora mesmo já virou memória. Ela afirma negando, nega afirmando. Não dá para defini-la, delimitá-la. Não dá pra esquecê-la. A cultura é tudo. A cultura é nada. E tudo.


Zezinho Mancini

Especialista em Gestão e Políticas Culturais pela Universidade de Girona (ESP), começou sua trajetória na cultura ainda adolescente, no Teatro Academia, de onde saiu com amigos para fundar a Cia. Putz!. Ator profissional, formou-se em Comunicação e dedicou-se por alguns anos à produção e à direção teatral e audiovisual. Foi ainda diretor do Centro Cultural Bernardo Mascarenhas, gerente de cultura e diretor-geral da Funalfa. Hoje está desempregado. Mas logo-logo tudo melhora.


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