Um brasileiro que emigrou para a Inglaterra

Revista Casa D’Italia, Juiz de Fora, Ano 3, n. 24, 2022 – Danilo da Silveira Souza |  Um brasileiro que emigrou para a Inglaterra


É com muita satisfação que lhes escrevo para partilhar um pouco da minha jornada. Meu nome é Danilo, sou natural de Juiz de Fora, Minas Gerais, e há três anos emigrei do Brasil para a Itália e depois para a Inglaterra, onde fixei residência em Whitburn, uma pequena vila em Sunderland, costa nordeste do país.

Confesso que o maior desafio para esta escrita é o mesmo que encarei ao pensar em seguir os meus sonhos e emigrar: como e por onde começar? Bom, acho que a resposta é e foi abstratamente simples: do começo.

Sou descendente de italianos por parte de mãe e pai, famílias Falcometa e Ambrosio, e meu relato é intrinsecamente conectado a este fator. Cresci ouvindo a história oral de ambas as partes, mas não entendia muito bem e não refletia sobre o assunto. Tudo isso mudou quando eu fui para a faculdade: cursei História na UFJF, onde fui exposto a uma discussão mais ampla sobre a construção do nosso país e os processos históricos nela envolvidos.

Foi nesse período que eu comecei a valorizar e compreender muito mais o meu histórico familiar e minhas raízes e, por influência da minha mãe, Terezinha, fiz módulos de italiano também na universidade. Ainda no começo da graduação, fui pela primeira vez à Inglaterra para visitar meu pai, Adalton, que mora em Londres há muito tempo. Após alguns anos voltei para a Inglaterra como aluno de intercâmbio com meu irmão, Lucas, e mais três amigos. A Carol – hoje minha esposa, mas na época minha namorada – se juntou a nós em Londres alguns meses depois.

Morar fora nos marcou muito como casal. Nos sentimos mais à vontade, felizes e conectados na Inglaterra e então decidimos: vamos morar aqui. Mas na época éramos muito jovens, ainda não tínhamos nem mesmo concluído a graduação, e essa opção não era realmente viável. Era somente um sonho.

Quando regressei ao Brasil, em 2011, e continuei a graduação, tive o prazer de ser estagiário no Arquivo Histórico da UFJF. Ali aprendi muito sobre o valor do documento histórico e tive contato direto com pesquisadores que se debruçavam sobre a fonte primária. Nessa época, minha mãe conseguiu, através de um familiar, um antigo passaporte de um antepassado italiano, provavelmente utilizado em uma viagem para a Itália. Aquilo foi mágico, passei muito tempo tentando analisar este registro com os conhecimentos recém obtidos! O passaporte nos deu um norte em relação à origem da nossa família, porém, não da forma como esperávamos, como explicarei mais à frente.

Eu e a Carol, por toda a nossa posterior trajetória acadêmica e vida profissional, mantivemos o sonho de emigrar. Era cada vez mais claro que não deveríamos ter voltado permanentemente, e isso se aguçou ainda mais em 2017, quando visitamos a Europa no verão. Resolvemos que iríamos tentar realizar o sonho tão breve quanto possível, mas ainda sim nos faltava saber como faríamos isso cumprindo todos os requisitos legais e pessoais.

Opções começaram a surgir e parecia que tínhamos um caminho claro, porém, quando começávamos a dar os primeiros passos necessários, logo tudo voltava à estaca zero. Percebemos que as coisas não funcionariam e não seriam tão simples; chegamos ao ponto derradeiro em que tudo estava perdido, não tínhamos nenhuma alternativa para seguir. Até que a Carol teve uma epifania: “Danilo, você é descendente de italianos pelos dois lados da sua família, você também é descendente dos Falcometa!”. Era uma luz no fim do túnel. Pleitear o reconhecimento da cidadania italiana, além de ser uma honra e um privilégio, resultaria em muitas opções de vida para nós. Mas nos faltava tudo! Não sabíamos por onde começar. Não conhecíamos o processo e muito menos os documentos necessários para sequer requisitá-lo. Por sorte, uma amiga, chamada Camilla Barbosa, estava anos- luz à nossa frente e gentilmente partilhou muita informação conosco sobre o assunto, em diferentes ocasiões. Também nos inteiramos sobre o procedimento através do ótimo trabalho do Fábio Barbiero com seus livros e conteúdo sobre o universo da cidadania italiana – https://minhasaga.org/  e da Priscila Guerra com aspectos do dia a dia na Itália https://www.blogcoisasqueeusei.com/ .

Começamos, então, a dedicar o escasso tempo livre que tínhamos como professores à pesquisa sobre os Falcometa. O primeiro desafio foi o passaporte que mencionei anteriormente, que cita a cidade de Reggio Calabria, que interpretamos como o local de nascimento do meu antenato. Ficamos surpresos ao receber a negativa do Stato Civile da Comune, ou seja, implicando que a minha família não é oriunda daquela cidade. O passaporte meramente se referia à capital administrativa da região, e isso significava que ainda estávamos na estaca zero.

Depois de muita confusão, fomos direto à fonte documental. Conseguimos as certidões relevantes em um cartório no Brasil e de lá encontramos partes essenciais do quebra-cabeça, como a data e o local de nascimento do meu antepassado em uma pequena cidade na Calábria. A Carol pesquisou por conta própria os rolos de microfilme do Stato Civile da Comune, que felizmente estão digitalizados, e encontrou a certidão de nascimento original do meu antenato – tudo o que precisávamos.

Jamais teríamos tido êxito nessa pesquisa de outra forma. A única fonte documental a que tínhamos acesso contém um detalhe “incompleto”. Além disso, o fenômeno do abrasileiramento dos nomes e sobrenomes dos italianos, prática que afetou milhares nos portos do Brasil, não nos possibilitaria encontrar nada sobre meus antepassados. Os Falcometa eram originalmente Falcomatà, e todos os membros da família que encontramos nos registros também tiveram seus primeiros nomes abrasileirados.

A equipe de pesquisadoras sobre os Falcometa era composta por: minha mãe Terezinha, responsável por fazer o maior número de perguntas possível para a minha avó Silvanda Falcometa e demais parentes; e pela Carol, responsável por mapear e planejar o passo a passo em relação às certidões necessárias. Além delas, tive outro aliado nesse desafio: meu irmão Lucas, que também iria para a Itália comigo. Em contrapartida, a Carol permaneceria no Brasil enquanto tudo se resolvia. Munidos do poder do conhecimento e de um bom plano de execução, completamos toda a parte documental e, então, partimos para os preparativos finais.

Nós nos mudamos para o Piemonte no inverno. Estávamos cercados pelas fantásticas e encantadoras montanhas de neve. Por lá enfrentei muitos desafios, angústias, mas também tive momentos maravilhosos e muita realização pessoal. Foi brilhante ter a chance e tempo de conhecer melhor a Itália, seu povo, cultura, culinária, história, dentre outros. Me apaixonei ainda mais pelo país dos meus antepassados, a ponto de querer fixar residência permanente por lá e desistir do sonho de ir para a Inglaterra.

Usamos este período no Piemonte para estudar um pouco mais a fundo todas as possibilidades que teríamos à frente. Não foi uma escolha fácil, mas resolvemos concretizar o sonho da nossa juventude. Fizemos uma seleção de emprego dentro da nossa área, o ensino de inglês como segunda língua, e começaríamos uma vida nova em Londres, já contratados como assistentes de professores em uma escola no coração da cidade. Tudo estava saindo como planejado, então partimos para a próxima etapa: onde moraríamos.

De repente, tudo deu errado de novo. Fizemos inúmeros contatos com imobiliárias e proprietários de imóveis na capital e não tivemos nenhuma perspectiva de conseguir o nosso próprio espaço. Tentamos todas as alternativas, mas como nos mudaríamos com nossos dois cachorros – Uhtred e Luna, – não tivemos êxito. Este não foi o único empecilho em relação a Londres: o custo de vida exorbitante em comparação aos rendimentos que teríamos na nova função adicionava mais um fator, dentre outros, para transformar o sonho em um possível pesadelo. Com tudo isso em mente, continuamos na busca por um porto seguro. 

Passei dias fazendo uma lista de possíveis locais que poderiam ser o nosso novo lar, levando em consideração que temos dois cães, nossas preferências culturais, infraestrutura, custo de vida, oferta de trabalho, acesso a transporte público, segurança pública, aeroporto, etc. Tentei ser o mais minucioso possível, até que chegamos a uma opção que nos agradou muito: Newcastle Upon Tyne.

Em meio a isso tudo o procedimento foi concluído, eu e meu irmão tivemos a cidadania italiana reconhecida, a maior conquista da minha vida! Um orgulho para nós o fato de podermos nos reconectar com o nosso passado durante todo este caminho e, com o resultado, ver as raízes da família tão vivas.. Os Falcometa vieram da Calábria para o Brasil no fim do século dezenove em busca de uma vida melhor, e as várias oportunidades que tenho hoje de fazer o mesmo, também como imigrante, se devem a eles. Jure sanguinis .

Com muita tristeza eu me despedi da Itália, mas embarquei novamente em busca dos meus sonhos na Inglaterra. A Carol fez um caminho diferente: embarcou do Rio para a França com nossos cães. Meu pai, Adalton, me levou de carro de Londres a Paris e de volta, para que assim eu me reunisse com eles após tanto tempo. Chegando a Londres seguimos para a nossa nova vida no North East.

Já sabíamos que teríamos que recomeçar a nossa vida profissional do zero, pois não procuramos vagas de antemão. Quando a reestruturação estivesse completa, digo, quando tivéssemos um lar e uma vida funcional, começaríamos de fato a tentar reingressar no mercado de trabalho. Como ainda estávamos conhecendo a região, tudo era novo para nós.

Gostamos muito de Newcastle e das pessoas do North East, portanto resolvemos nos estabelecer na cidade. Porém, isso não foi nada simples, pois não existem informações ou registros sobre você em sistema algum. Conseguir um aluguel, por exemplo, foi extremamente difícil, pois é prática checar o histórico de crédito do locatário (inexistente para nós), status de trabalho (ainda não estávamos trabalhando), referências, documentação, conta no banco, dentre outros. E é aí que a coisa se complica: para abrir uma conta no banco você precisa providenciar um comprovante de residência, algo que você só consegue com um endereço fixo, que, por sua vez, requer que você tenha conta no banco para os pagamentos mensais de aluguel, taxas, etc. O mesmo desafio vale para o mercado de trabalho, sendo que é comum checar as referências profissionais anteriores do candidato, ficha criminal (dependendo da área), além de ser muitas vezes necessário ter comprovante de endereço e conta no banco.

Tudo isso é muito simples para quem é nativo, mora ou já se estabeleceu aqui há alguns anos, mas é extremamente desafiador para quem acaba de chegar. É bem como Giovanna Ferraz escreveu sobre emigrar: “Morar fora é chegar em uma cidade e país onde você não é ninguém. E não estou falando isso para menosprezar ou assustar. Digo no sentido de que ninguém conhece você, sua história, trajetória, seus gostos e medos. É como se você tivesse acabado de nascer em um novo país, mas com algumas olheiras, rugas e dores nas costas da idade…” Só não esperávamos ter que enfrentar também uma pandemia nisso tudo, mas por sorte estamos saudáveis e nos adaptamos a todas as mudanças de vida necessárias.

Voltando à nossa trajetória, tudo se ajeitou em pouco tempo. Comecei a trabalhar em um setor completamente novo para mim; fui corretor de seguros por quase dois anos e meio. Atualmente trabalho no setor corporativo em um banco como Onboarding Manager. A Carol começou por aqui como voluntária em duas livrarias, a do bairro e a de uma instituição de caridade, e há mais de dois anos está também no setor corporativo do mesmo banco, também como Onboarding Manager.

Como mencionei no início, hoje moramos em Whitburn, uma vila que os historiadores acreditam ser um antigo povoado anglo-saxão. A vila é localizada entre Sunderland e South Tyneside, a poucos quilômetros de Newcastle. A nossa vida tomou um ritmo completamente diferente por aqui. Estamos cercados pelo mar, por trilhas maravilhosas na costa, áreas verdes protegidas, fazendas, praias e uma vizinhança muito calma. As pessoas aqui, tanto locais quanto imigrantes como nós, são normalmente muito acolhedoras e simpáticas. O clima é desafiador: venta muito e faz frio na maior parte do ano, para os padrões do Brasil. Temos acesso fácil à cultura, ao esporte, entretenimento, lazer, etc. Mas isso não quer dizer que é um lugar perfeito. O Reino Unido ainda possui uma qualidade de vida alta, mas também enfrenta muitos dos desafios socioeconômicos e políticos atuais. 

Por fim, diria que tudo só se concretizou quando mudamos a nossa percepção sobre o sonho da nossa juventude. Ainda temos, sim, muitos objetivos e desafios para o futuro, mas certamente nos encontramos neste processo.


Danilo da Silveira Souza

Juiz-forano residente na Inglaterra. Graduado em História pela Universidade Federal de Juiz de fora, atuou como professor de Inglês como segunda língua por sete anos no Brasil. É hoje Onboarding Manager em Corporate Banking no Reino Unido. Apaixonado por História Local, Heavy Metal, Futebol e Ciclismo.