Conhecendo um pouco sobre a voz

Revista Casa D’Italia, Juiz de Fora, Ano 3, n. 24, 2022 – Gustavo Schettino Sirimarco |  Conhecendo um pouco sobre a voz


Quem nunca esteve em um show ao vivo e se arrepiou com aquele “grito” agudo, certeiro, cantado pelo vocalista? Quem nunca se emocionou ao escutar uma canção cuja letra, interpretada pelo cantor, relembrou um momento importante vivido? Ou, ainda, quem nunca sentiu a energia transmitida através de cada detalhe de uma melodia cantada de forma impecável? Pois é, acredito que você, caro leitor, também consiga se lembrar de situações em que vivenciou tais experiências. Peço, então, que tente agora se lembrar de quantas vezes esses momentos vieram acompanhados de frases como: “Que voz mais linda! Essa pessoa nasceu para cantar!” ou “Nossa! Só mesmo tendo o dom para cantar desse jeito!”. E aí, soa familiar? Ainda que você não se lembre de uma situação similar em específico, acredito que, em algum momento da vida, todos nós tenhamos ouvido alguém falar algo assim a respeito da voz de um cantor. É exatamente sobre isso que proponho uma breve reflexão: O que, de fato, é a voz cantada? Seria um dom? Seria um instrumento como outro qualquer? Talvez uma mistura de ambos? Ou algo único, individual e imutável? A partir de tal provocação, proponho uma breve discussão sobre o universo da voz.

Primeiro, vamos falar sobre como a voz é produzida. Ao inspirarmos, enchemos os pulmões de ar graças à ação de vários músculos, incluindo o famoso diafragma – muito relevante na técnica vocal –, que se contrai e desce, permitindo a entrada do ar. Na expiração, o músculo diafragmático relaxa e sobe novamente em direção à sua posição anterior, expulsando o ar dos pulmões, passando pela laringe, local onde se situam as pregas vocais, responsáveis pela produção da voz. Essas pregas entram em vibração com a passagem do ar e produzem um som que é amplificado por um conjunto de estruturas conhecidas como trato vocal, constituído pela língua, palato mole, dentes, pregas vestibulares (também chamadas de pregas falsas), dentre outros elementos.

Geralmente, não notamos que a voz é fruto da ação conjunta de vários músculos que possibilitam a fonação. Ao falarmos, acionamos dezenas de músculos e, ao cantarmos, acionamos ainda mais a musculatura envolvida! Esses músculos desempenham funções diferentes e específicas, sendo acionados quando produzirmos algum som: músculos do sistema respiratório, aqueles presentes na laringe, outros que atuam diretamente no fechamento das pregas vocais e os músculos da face, empregados na articulação.

Mas você deve estar se perguntando por que exatamente eu estou falando sobre isso, certo? Bem, é que tal fato nos faz olhar de maneira mais objetiva para o canto enquanto fenômeno e, a partir daí, começamos a questionar aquela ideia de que “só canta quem nasceu para cantar”. Explico: imagine um jovem que comece a treinar para ser jogador de futebol. Ele inicia sua trajetória sem saber como jogar, com pouca habilidade e poucos recursos no jogo. Ao longo do tempo, ele vai desenvolvendo a capacidade de chutar, dominar a bola e aprimorando a resistência para jogar durante mais tempo. Ou seja, ele passou por um treinamento que possibilitou o fortalecimento da musculatura utilizada e desenvolveu memórias musculares dos movimentos que são feitos durante a partida, o que costumeiramente chamamos de habilidade. Para cantar, essa ideia vale da mesma forma, com a ressalva de que os músculos e memórias musculares envolvidos são diferentes. 

Estranho? Então, aí vai mais um exemplo: quando um cantor sustenta uma nota durante vários segundos, há uma série de músculos possibilitando que isso aconteça. Se uma pessoa não treinada tentar a mesma coisa, e a voz começar a “tremer” ou a falhar, estaremos diante de alguém que não passou por um processo de condicionamento muscular capaz de permitir que ela execute tal façanha. Portanto, se o futebol é um esporte e, naturalmente, reconhecemos isso como uma atividade atlética, que necessita de alto engajamento muscular, por que não levarmos essa lógica para a técnica vocal? Ora, cantar é uma atividade que, assim como o futebol, apenas pode ser realizada com o condicionamento e a memória musculares adequadas. Caso você nunca tenha pensado na voz como algo fisiológico – resultado da atividade conjunta de músculos e outras estruturas do corpo – talvez lhe soe estranha essa nova maneira de encarar o canto.

É claro que, tanto para ser um bom jogador de futebol quanto para cantar bem, é preciso que haja desenvolvimento em outras áreas, inclusive não ligadas a questões objetivas, como é o condicionamento muscular, mas sendo este, inegavelmente, um requisito indispensável para o aprendizado e progresso. Ou você imagina um bom jogador de futebol que não consiga correr com rapidez e chutar uma bola com força? Ou um bom cantor que perca o fôlego em uma frase curta ou não consiga sustentar uma nota durante alguns segundos? Estranho, não? E, podem acreditar, essas habilidades tão importantes podem ser desenvolvidas!

Outro equívoco frequente é não encarar a voz, também, como um instrumento musical. Da mesma forma que podemos aprender do zero instrumentos como o violão, fagote, bateria e tantos outros, podemos também aprender a cantar. Muitas pessoas não acreditam nisso, usando o comum argumento: “Ah.. Mas a minha voz é feia”. 

Primeiro, beleza é uma questão estética e, portanto, sofrerá variações de acordo com o referencial adotado. Um músico brasileiro que cresceu em rodas de samba e choro no Rio de Janeiro muito provavelmente terá uma noção do que é belo muito distinta daquela de um pianista clássico que toca na orquestra de Berlim. São contextos e referências musicais completamente diferentes. Não que o sambista não possa se encantar com o erudito e vice e versa, mas a forma como eles entendem e abordam a estética musical é díspar.

Em segundo lugar, ainda que fosse verdadeira a frase “mas a minha voz é feia” (geralmente, as pessoas utilizam esse adjetivo quando se referem a uma voz anasalada ou estridente, características que, dentro do senso comum, costumam não agradar), a voz com que falamos não é necessariamente a que usamos para cantar. Podemos, de forma consciente ou não, manipular ou manter a sonoridade com que falamos na hora de cantar. Nossa voz não é uma coisa só, as estruturas envolvidas na formação da voz (lembra-se dos músculos e do filtro sobre os quais falei acima?) podem ser controladas e manipuladas para que o timbre, isto é, a qualidade do som (estridente, suave, grave, agudo, metálico, dentre outras várias características) possa ser alterada de acordo com a intenção do cantor. Por exemplo: George Michael, na música One More Try, opta por utilizar uma voz mais soprosa (com mais escape de ar na vocalização) em vários momentos porque isso nos remete a algo mais romântico, sofrido, dentro da estética da música pop. Ou seja, o timbre escolhido por ele ajuda a passar uma ideia específica que reforça a proposta/intenção da música e é completamente diferente da voz com que ele fala normalmente. Faça esse exercício: escute a música com atenção e logo nos primeiros versos você entenderá o que digo.

Quando falamos, nos acostumamos com a formatação de certas estruturas de uma determinada maneira, e isso caracteriza a nossa voz. Dessa forma, é muito comum carregarmos essa formatação da fala para o canto, pois isso é confortável e cômodo para nós. No entanto, o que muita gente não sabe é que podemos, sim, aprender a ter consciência dessas estruturas e saber como acessá-las para alterar o seu comportamento. Uma vez alterado o comportamento, altera-se o resultado sonoro.

Uma maneira interessante de ilustrar isso é pensar em um comediante como Chico Anysio, que criou vários personagens com as mais variadas vozes. Como ele era capaz de fazer o Professor Raimundo e, logo em seguida, o Alberto Roberto? A resposta é a mesma: manipulando essas partes de nosso organismo que influenciam no som da nossa voz.

Proponho outro teste simples. Faça em uma nota bem confortável o som de “ã” (an), você vai notar que a sua voz é emitida com bastante nasalidade (saindo bastante pelo nariz), tanto é que se você fizer esse som apertando e segurando o nariz o som será alterado. Agora simule um bocejo, como se estivesse com muito sono, e durante o bocejo fale o fonema “â”. Você perceberá que o som muda completamente, não apresentando nenhuma nasalidade, mesmo que você aperte e segure o nariz como antes. Isso ocorre porque o véu palatino (estrutura acima das pregas vocais, parte do filtro) subiu e impediu que o ar passasse para o nariz, como no primeiro som que fizemos. E esse foi só um exemplo de como essa e outras várias estruturas podem influenciar os sons que produzimos. São inúmeras as possibilidades!

Falamos de vários aspectos da voz até aqui, mas acho muito importante salientar que a minha intenção não é resumir música a algo meramente mecânico: ser um bom músico passa por entender a linguagem musical e saber utilizá-la da forma adequada em diferentes contextos. O que desejo realmente é ajudá-lo a enxergar que esse aspecto mecânico é um requisito extremamente necessário e algo que todos podem desenvolver. Sim, todos! As limitações existem, mas são muito menores do que em geral imaginamos.

Dependendo do lugar em que queremos chegar, não é nada fácil desenvolver tais habilidades, mas o barato da jornada é aproveitá-la durante todo o trajeto, se divertindo e se emocionando desde o início com o que já somos capazes de fazer, e usando de forma saudável aquilo que ainda não conseguimos realizar para nos motivar e nos manter em movimento.

Assim, termino essa reflexão com uma mensagem de incentivo a todos que têm vontade de cantar, seja começando do zero ou não, seja jovem ou adulto (acreditem, não há idade para começar, mas essa conversa fica para uma próxima oportunidade), seja para aqueles que cantam no presente momento ou para aqueles que interromperam o estudo ao darem ouvidos para os mitos mencionados há pouco: se cantar for algo que traga alegria e satisfação a você, não deixe de fazê-lo por vergonha, medo do julgamento de outras pessoas ou por achar que você não é capaz. Para começar a cantar, você não precisa almejar ser o próximo Ernesto Pavarotti – embora não haja nada de errado em querer sê-lo – você vai se encontrar durante o caminho, mas isso apenas acontecerá se você começar. O importante é entender que não existe certo ou errado, melhor ou pior, em querer ser um cantor de chuveiro ou o próximo Freddie Mercury. Existe apenas a escolha desejada e que funcione para você. 

Caso você deseje cantar, mas não saiba por onde começar ou se sinta inseguro, busque a ajuda de outras pessoas. Pode ser aquele amigo que já canta, aulas disponíveis no YouTube ou um professor de canto. Tudo é válido, mas não deixe de cantar! O processo vai lhe ensinar muita coisa se você se manter fiel a ele. Cantem!


Referências Bibliográficas:

COMO DEVE SER O TREINO DO CANTOR?Publicado no canal  (Deyse Shultz . Disponível em:) >  https://www.youtube.com/watch?v=TJl7r9UJepQ.

MAURO FIUZA – ACÚSTICA NA VOZ CANTADA 1° Simpósio Online de Voz Artística Liga de Voz. Publicado no canal: Liga de Voz FCMSCSP. Disponível em: Mauro Fiuza: Acústica na Voz Cantada > https://www.youtube.com/watch?v=JZn54hnnl9w

PINHO, Sílvia Maria Rebelo; KORN, Gustavo Polacow; PONTES, Paulo. Músculos intrínsecos da laringe e dinâmica vocal. Rio de Janeiro: Thieme Revinter, 2019.

PROF. ARIEL COELHO NA THE VOICE FOUNDATION 2014 (RBS TV / GLOBO). Publicado no canal Ariel Coelho. Disponível em:  Antropofisiologia Vocal – Professor Ariel Coelho > https://www.youtube.com/watch?v=2axXRurPHnQ;


Gustavo Schettino Sirimarco

É músico há 11 anos , professor de canto e técnica vocal, baterista das bandas Venice, Wasanna, Urbana Legio e The Storm, e músico freelancer para shows e gravações, atuando como baterista e cantor.
Começou sua trajetória com o estudo da bateria, em 2006. Em 2008 já se apresentava com bandas em bares na cidade e região. Sua primeira experiência como vocalista se deu em 2009, alternando entre vocal de apoio e vozes principais de algumas músicas na banda Dr. Pepper, um tributo aos The Beatles. Paralelamente, seguindo o conselho de seu amigo e então professor de teoria musical, começou a participar do coral ‘Amigos em Canto’, com a finalidade de aprimorar sua voz e ouvido. Pouco tempo depois, passou a integrar o Coral da Universidade Federal de Juiz de Fora, sob a regência do maestro Guilherme Oliveira, entre os anos de 2012 e 2015, participando da gravação do cd ‘Cantorias’.
Desde então, assistido por diversos professores, tem se desenvolvido enquanto baterista e também se aprimorado dentro do estudo da técnica vocal, com breve passagem pelo canto erudito e formação em diversos cursos, tais como o ‘Singing On The Road” e “Drives – Memórias de Acesso”, ambos do professor Ariel Coelho, e “Da Foanação à Canção”, da professora Deyse Shultz, voltado para a pedagogia vocal.
Atualmente, é aluno no Curso de Formação em Canto Contemporâneo, ministrado pelo professor Ariel Coelho, no programa de condicionamento vocal Voicefit e no curso de Ajustes Vocais para o Cantor Popular, conduzidos pelo professor Hélder Andrade.