A dessacralização da monarquia pelos traços de Ângelo Agostini

Revista Casa D’Italia, Juiz de Fora, Ano 3, n. 23, 2022 – Sérgio Augusto Vicente |  A dessacralização da monarquia pelos traços de Ângelo Agostini


Como toda representação, a charge é uma construção realizada no campo da linguagem. Concebê-la dessa forma requer um esforço crítico para situá-la no contexto histórico em que foi produzida. Além disso, é necessário entender os pensamentos, a formação e as ideologias professadas pelo autor dessas imagens. Como nada acontece no vazio, os símbolos e as representações servem como poderosos instrumentos responsáveis pela legitimação ou deslegitimação dos regimes políticos no imaginário social.

Estudos mais recentes mostram que o Brasil, na década de 1880, conheceu significativa expansão do espaço público. Aumentava-se nesse contexto a circulação de periódicos que faziam críticas ao regime monárquico e às mazelas políticas e sociais do Império. Muito em voga na época, as revistas ilustradas exploravam a temática através de charges e caricaturas. Numa população cuja maioria não sabia ler e escrever, a linguagem não verbal conseguia atingir um público mais amplo que o alfabetizado. A Revista Ilustrada se inseria nesse grupo. Tanto assim o foi que Joaquim Nabuco (1849-1910) a caracterizava como a “Bíblia abolicionista dos que não sabiam ler” e Monteiro Lobato (1882-1948) dizia que “não havia casa em que não penetrasse a Revista, e tanto deliciava as cidades como as fazendas”.

Fundado por Ângelo Agostini em 1876, o referido periódico circulou até 1898. Sua tiragem atingiu a marca de quatro mil exemplares, alcançando, com seus temas polêmicos, grande parte do território nacional. Durante parte significativa de sua existência, a revista não contou com a ajuda de patrocinadores e se sustentava com a venda de seus exemplares, o que lhe garantiu maior autonomia na veiculação de críticas à monarquia, à escravidão, à união entre Igreja e Estado (propugnada pela Constituição de 1824), dentre outras. 

Seu fundador nasceu na Itália em 1842 e morou na França durante boa parte da infância e adolescência, onde recebeu formação artística e influências libertárias. Veio para o Brasil em 1859, iniciando os trabalhos como pintor retratista em São Paulo. Na imprensa, começou como desenhista do jornal O Diabo Coxo, no qual iniciou contato mais consistente com ideais abolicionistas. Durante a década de 1880, escancarou as páginas da Revista Ilustrada para charges e caricaturas que denunciavam não apenas os abusos cometidos contra os escravos, mas também os embates políticos travados entre abolicionistas e escravocratas. 

Sabe-se que, via de regra, ser abolicionista não era sinônimo de ser defensor do regime republicano.  Não era esse, no entanto, o caso de Agostini. Sua produção humorística integrava um vasto repertório de críticas que circularam no Brasil nas décadas finais do século 19, contribuindo para alavancar a propaganda do “movimento republicano”, que se somou a vários outros fatores responsáveis por levar à queda da monarquia brasileira em 15 de novembro de 1889. Estas representações demonstram um profundo engajamento no processo de dessacralização da figura do segundo imperador brasileiro e da própria monarquia. Nesse sentido, chamamos a atenção para uma charge publicada em 1887, no número 476 da referida revista.

Logo nos deparamos com o monarca sobre um carro de bois, circulando em estrada repleta de lama. Atrás do carro de bois, escravizados são açoitados por um escravocrata a cavalo. O estandarte ao lado do imperador traz estampados o desenho de um caranguejo e a frase “Quero, posso e devo manter a escravidão”. Em tempos de locomotiva a vapor, há de se convir que o transporte em carro de boi não era lá uma cena muito simpática ao ideal de progresso que se professava naquele momento. Do mesmo modo, a evocação do caranguejo, animal conhecido na tradição popular por seu “caminhar para trás”, nada tinha de representativo de uma visão de futuro. Tal imagem se coaduna perfeitamente com a manutenção – sob a tutela estatal – da escravidão na sociedade brasileira, demonstrando uma postura bem diversa daquela em que D. Pedro II figurava como monarca cidadão, cosmopolita e amante das letras, das artes e da ciência, cooperando para inserir o ainda jovem Estado-Nação brasileiro nos “trilhos da civilização e do progresso”.

Todos os elementos situados ao lado direito da charge se associam ao atraso, ao passo que, ao lado esquerdo, numa topografia mais elevada, uma aglomeração de pessoas articuladas e engajadas na luta abolicionista simboliza a afeição pelos ideais liberais pautados na busca da civilização e do progresso. Trata-se de uma construção de representações simbólicas contrastantes, nas quais a república é associada à positividade, ao avanço, ao progresso e à modernidade, enquanto a monarquia é relacionada à negatividade, ao atraso e às tradições nefastas que, para o caricaturista, seriam as responsáveis pela manutenção das mazelas da sociedade brasileira, como a escravidão, a corrupção, os privilégios, etc.

Amplamente citadas nos livros didáticos de História do Brasil e nas revistas de História lidas pelo grande público, as charges de Agostini ainda precisam ser mais bem exploradas junto a um público mais amplo. Esta parece ser uma afirmação contraditória, não é mesmo? Se amplamente citadas nos livros escolares e nos periódicos de divulgação, por que ainda não foram suficientemente exploradas? 

O fato é que não basta citá-las ou reproduzi-las nas páginas dos livros apenas com a finalidade ilustrativa. Necessário se faz discuti-las criticamente no campo das representações, e não como meros “depósitos” de informações sobre a realidade. É preciso abordá-las por meio de um esforço problematizador e reflexivo, em que se procure entender as linguagens, as narrativas, os discursos e as preceptivas retóricas com as quais Agostini dialogou para representar desta ou daquela maneira determinada faceta do contexto histórico em que estava inserido. Se a sua meta era “dessacralizar”, dessacralizemos também a sua dessacralização. Assim, fazemos valer o mais genuíno sentido da expressão “Ciências Humanas”.


Referências Bibliográficas:

ALONSO, Ângela. Ideias em movimento: a geração 1870 na crise do Brasil-Império. São Paulo: Paz e Terra, 2002.

MELLO, Maria Tereza Chaves de. A República Consentida. Rio de Janeiro: Editora FGV, 2007.

ENGEL, Magali G.; SOUZA, Flávia F. de.; GUERELLUS, Natália de S. Os intelectuais e a imprensa. 1. ed. Rio de Janeiro: Mauad; Faperj, 2015.


Sérgio Augusto Vicente

É graduado, mestre e doutorando em História pela Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF). Professor da Secretaria Municipal de Educação de Juiz de Fora. Atua como historiador na Fundação Museu Mariano Procópio,  dedicando-se à pesquisa e difusão do acervo arquivístico e bibliográfico da instituição.  Escritor colaborador da “Revista Trama: arte, cultura e criatividade”.  Desenvolve pesquisas no campo da história social da cultura/literatura, sociabilidades, trajetórias e memórias.