Contar para não esquecer: Vista Chinesa, da escritora Tatiana Salem Levy

Revista Casa D’Italia, Juiz de Fora, Ano 3, n. 19, 2022 – Fernanda Castilho |  Contar para não esquecer: Vista Chinesa, da escritora Tatiana Salem Levy


No livro Vista Chinesa, publicado pela editora Todavia, Tatiana Salem Levy narra, por meio da criação ficcional, algo que aconteceu de verdade. Um tipo de história dolorosa, inúmeras vezes repetida e que marca a vida e o corpo de muitas mulheres. A escritora nos revela a história de Júlia, uma arquiteta carioca, e sua tentativa de, através de uma carta, contar a seus filhos sobre um acontecimento traumático.

“Eu tenho vontade de sair gritando, por favor, me deem a palavra certa, aí alguém diz, não existe, as palavras certas nunca existem, mas eu não acredito nisso, eu acho que pra toda coisa existe uma palavra certa e se a gente falar falar falar uma hora a gente encontra”, pensa Júlia. Na sequência, recorda os dias e as dores após ser vítima de um estupro.

Numa tarde, antes de uma reunião do trabalho, ela saiu para correr em direção à Vista Chinesa, no bairro Alto da Boa Vista, Rio Janeiro, e de lá não voltou. Não voltou inteira. “Eu queria chegar a um lugar seguro e dizer aos outros, estou viva”, ela diz. A personagem volta estilhaçada, “aos frangalhos”. Se questiona como será a vida depois disso, se seria a vida possível.

Antes disso, Júlia trabalhava numa construção para as Olimpíadas, evento sediado no Rio de Janeiro naquele ano. Pensava naquela obra como uma oportunidade de fazer uma cidade melhor. Dias depois do acontecimento, veria nos olhos de sua mãe o desejo por aquela “filha que usufruía da cidade sem medo”, o que lhe dava a sensação de que nada voltaria a ser como antes.

O desejo dessa mãe traz muitos questionamentos. Afinal, podem as mulheres usufruir da cidade sem medo? Nossas ruas, os espaços públicos, nossas cidades, são construídas por quem e para quem? Como garantir que as mulheres, muitas vezes reservadas ao espaço doméstico e privado, possam desfrutar do direito à cidade, da segurança pública de qualidade? A resposta está na construção de uma cidade feminista, pensada para todas e todos.

Para Júlia, segue-se uma rotina desgastante de exames, consultas, remédios, idas à delegacia, depoimentos, tentativas de descrever e reconhecer o agressor. Junto da vontade de justiça, o desejo de esquecer. Toda a fria burocracia, somada ao sentimento de culpa e ao julgamento sofrido pela vítima aos olhos de uma sociedade misógina, são razões pelas quais muitas mulheres desistem de seguir em frente com processos de investigação e exposição de casos de assédio, estupro e violência.

A narrativa em Vista Chinesa é fragmentada, nos leva a flashbacks da cena do horror, um eterno retorno ao corte, à ferida aberta. Pois como diz a personagem: “há coisas que, mesmo depois de terem acontecido, continuam acontecendo. Elas não te deixam esquecer porque se repetem todos os dias.”

No livro Lembrar escrever esquecer, a filósofa Jeanne Marie Gagnebin recorre a Walter Benjamin e sua reflexão sobre a impossibilidade da linguagem cotidiana de apreender o choque e o trauma, que “por definição, fere, separa, corta ao sujeito o acesso ao simbólico, em particular à linguagem”. A personagem Júlia, em Vista Chinesa, se esforça para relembrar a fisionomia de seu agressor, cada detalhe da cena de horror, mas logo compreende que “depois do trauma, a memória cria bloqueios aleatórios”. As lembranças são como rastros, fragmentadas e imperfeitas.

A história contada pela escritora aconteceu a uma amiga. Através desses rastros da memória, da narração e da escrita, ambas lutam contra o apagamento do acontecimento, o esquecimento da dor, o silenciamento das mulheres — por uma nova construção da vida.


Fernanda Castilho

É jornalista pela UFJF. Foi bolsista de comunicação do Cineclube Lumière e Cia, Cine-Theatro Central e Coral da UFJF. Ama fotografia, os livros, os filmes, as músicas, as ruas e as janelas da cidade.