O movimento da “transição capilar” e a valorização da identidade da mulher negra

Revista Casa D’Italia, Juiz de Fora, Ano 2, n. 17, 2021 – Daniela Alexandre |  O movimento da “transição capilar” e a valorização da identidade da mulher negra


Um movimento social que tem ganhado bastante notoriedade no universo da beleza, da moda, da mídia, das ruas e das redes sociais é o uso do cabelo crespo “natural”, com a ausência de alisamentos químicos em sua estrutura. Esse boom de naturalidade é reflexo do que poderíamos chamar de “transição capilar”. A transição capilar se caracteriza por um processo de abandono dos produtos químicos que transformam a estrutura dos fios e o uso do cabelo em sua forma natural. Esse processo não acontece sem conflitos, dilemas e reconfigurações que desembocam em uma transformação na autopercepção (MATOS, 2016). 

Ela é basicamente vivida por mulheres negras, mas não é restrita a elas. Vale ressaltar que discutir as formas como o cabelo é tratado na sociedade brasileira é também debater sobre gênero e raça, já que as mulheres negras e seus cabelos, no processo de socialização, lidam com conflitos estéticos de forma mais intensa do que as não negras. Desde a infância elas são inseridas no universo de técnicas a serem utilizadas para apresentar o seu cabelo socialmente. Sobre a questão do gênero, tudo isso implica a forma como é enquadrado o que é feminino ou não é, pois alternativas capilares como trançar o cabelo, por exemplo, são dadas para a categoria feminina, ao passo que raspar o cabelo é a possibilidade colocada para o masculino, mecanismo este que isenta os homens de muitos conflitos internos e sociais com o próprio cabelo.

Por muitos anos foram oferecidos apenas os alisamentos químicos como forma de tratamento para os cabelos crespos e cacheados. O procedimento é utilizado para retirar todas as características da estrutura “natural” do fio, o volume e o frizz, produzindo o efeito esticado. Eles possibilitam uma transformação na estrutura do fio, que perde a aparência original e passa a apresentar um aspecto alisado ou relaxado. Alisar ou relaxar são tentativas de camuflar o que é tido como ruim, assim como todos os traços pertencentes ao corpo negro. É nesse ponto que pensar tal tema é também pensar sobre o racismo no Brasil. Sobre o corpo do negro recaem todas as imposições do que é negativo, pois há, no Brasil, um juízo de valor perante a cor da pele e a textura do cabelo que classifica a discriminação (MATOS, 2015).

O incentivo ao uso do cabelo “natural” e as experiências encontradas na “transição capilar” são refletidos na internet, vista como uma fornecedora de conteúdo, espaço de compartilhamento e aprendizado. Assis e Ferrari (2017) mostraram que houve um aumento de mais de 70% nas buscas pelo termo “transição capilar” no site da Google no Brasil nos anos entre 2014 e 2017.

Em menos de três anos percebemos o aumento dos grupos de ajuda formados por páginas no Facebook para partilhar dicas, depoimentos e histórias. A indústria da beleza voltou seus olhares para esse público, produzindo e ampliando o número de produtos. Na cidade de Juiz de Fora temos o evento Encrespa Geral, que acontece no Centro Cultural Dnar Rocha com o intuito de valorizar a identidade e a estética negras e combater o racismo. Vale ressaltar que a última edição do evento aconteceu em 2019, por causa do impacto da pandemia da Covid-19 no cenário mundial e das medidas de isolamento social.

O processo de “transição capilar” pode promover transformações além da estética. Para muitas mulheres negras é proporcionado o encontro com suas raízes e sua identidade étnico-racial. O discurso do empoderamento passa por uma vertente em que a aceitação é se libertar de padrões estéticos impostos. A partir desses posicionamentos, elas aconselham e relatam suas histórias, pautando-se em transformações positivas vivenciadas.

Nesse sentido, como mostra Figueiredo (2018), o movimento das crespas e cacheadas propõe o cabelo “natural” como mecanismo próprio de combate ao racismo e ao preconceito, implicando questões de empoderamento, liberdade e ativismo. As mudanças vêm ocorrendo e alterando o contexto que, de certa forma, já havia sido vivido, produzindo outras dinâmicas.


Referências bibliográficas:

FIGUEIREDO, Angela. Carta de uma ex-mulata à Judith Butler. Revista Periódicus, v. 1, n. 3, p. 152-169, 2015.

MATOS, Ivanilde Guedes. (2015).Estética Afro Diáspora e Emponderamento Crespo. Revista do Programa de Pós-Graduação em Crítica Cultural, v. 5, n. 2

MATOS, Lídia de Oliveira. (2016) Não é só cabelo, é também identidade: transição capilar luta política e construções de sentido em torno do cabeloafro. 30ª Reunião Brasileira de Antropologia, João Pessoa, 2016.


Daniela Alexandre

Doutoranda em Ciências Sociais pela Universidade Federal de Juiz de Fora. Mestra em Ciências Sociais pela Universidade Federal de Juiz de Fora(2019). Possui graduação em licenciatura em Ciências Sociais pela Universidade Federal de Juiz de Fora (2017), bacharelado em Ciências Sociais pela Universidade Federal de Juiz de Fora (2016) e bacharelado em Ciências Humanas pela Universidade Federal de Juiz de Fora (2013).