Branquitude, não basta saber que o racismo é estrutural. Reflita sobre os seus privilégios!

Revista Casa D’Italia, Juiz de Fora, Ano 2, n. 17, 2021 – Milena Regina | Branquitude, não basta saber que o racismo é estrutural. Reflita sobre os seus privilégios! 


Quando eu nasci, era preto;
Quando cresci, era preto;
Quando pego sol, fico preto;
Quando sinto frio, continuo preto.
Quando estou assustado, também fico preto;
Quando estou doente, preto;
E, quando eu morrer, continuarei preto!
E você, caro branco;
Quando nasce, você é rosa;
Quando cresce, você é branco;
Quando você pega sol, fica vermelho;
Quando sente frio, você fica roxo;
Quando você se assusta, fica amarelo;
Quando você está doente, fica verde;
Quando você morrer, você ficará cinzento;
E você vem me chamar de homem de cor?

Poema escrito por uma criança angolana

Nos últimos anos, o debate sobre o  racismo estrutural tem ganhado certa notoriedade nas redes sociais, canais televisivos e mídias, em geral, atravessados pelo considerável interesse que as temáticas a respeito  das questões raciais no Brasil e no mundo têm suscitado na indústria cultural e de massas. Entretanto, contrário ao que muitos pensam, a luta antirracista não teve seu início com o movimento Black Lives Matter (Vidas Negras Importam), liderado pela sociedade civil norteamericana, tampouco as problematizações acerca das relações raciais surgiram desses debates contemporâneos e amplificados pelas mídias no que concerne ao racismo estrutural.

São mais de 400 anos de luta, legado e resistência política, cultural e simbólica das populações negras desse Brasil diaspórico, o que nos leva a refletir sobre como este debate tem raízes, desde as relações coloniais, e tem se redefinido conforme as dinâmicas das sociedades capitalistas se modificam. Contudo, ainda que o debate sobre o racismo estrutural tenha ganhado certa visibilidade nos meios de comunicação, nas redes sociais e nos espaços acadêmicos, urge pensarmos a respeito desse conceito sob a ótica da análise materialista do sistema capitalista e das dinâmicas coloniais. 

  Entender as dinâmicas materiais das sociedades capitalistas modernas requer compreender as suas estruturas sociais. Contudo, como fazemos para refletir sobre as heranças coloniais que constituem a formação identitária nacional do nosso Brasil? O que está em jogo quando essas dinâmicas coloniais são postas para o debate e as reflexões honestas? Com isso, estive pensando acerca da importância de trazermos mais vezes para o centro da discussão, o tema sobre a branquitude ao falarmos de racismo estrutural.

  No Brasil, durante muitos anos, os estudos das relações raciais foram voltados para análises sobre a negritude e os seus processos identitários, étnicos e culturais. Durante os anos 1950, as pesquisas socioantropológicas buscavam compreender as questões de desigualdade social, fome, miséria, analfabetismo e desemprego enquanto um “problema da população preta”, que não conseguiu ascender socialmente a lugares de prestígio e poder na estrutura social que se modernizava. Foi nesse mesmo período que o Estado Brasileiro buscava justificar a sua miscigenação enquanto característica singular do país, construindo uma ideia de Brasil miscigenado, país de todas as raças e todas as cores, no qual a democracia racial se faz presente.

  A negação dos conflitos raciais e a implementação de políticas e narrativas de branqueamento da população brasileira foram fundamentais, neste período, para a culpabilização da população negra enquanto principal grupo social responsável pelas mazelas do país: vandalismo, crimes, pobreza, desemprego e desigualdade. Ou seja, o problema do Brasil era o negro. Assim, diversos estudos sociológicos, historiográficos e antropológicos foram desenvolvidos com o intuito de repensar o Brasil e seus processos de identidade nacional, apagando a história e valorização da cultura afro-brasileiras. 

  No entanto, uma virada de chave na produção teórica do Pensamento Social Brasileiro se deu nos anos 80 e 90, quando estudiosos passaram a se interessar não apenas pela temática da negritude, mas também da branquitude. Assim, um silêncio epistemológico se rompe e um novo ramo de estudos surge com fins de melhor compreender as relações raciais no Brasil, bem como sua estrutura social de base capitalista. Para tanto, urge refletirmos: O que é estrutura social? Como elas funcionam e se reproduzem na vida social? O que é branquitude?  

  Silvio Almeida (2018) nos mostra, em seu livro, “O que é Racismo Estrutural”, que a estrutura social é tudo aquilo que fundamenta e constitui a nossa sociedade. Ou seja, a estrutura social dá suporte as instituições públicas e privadas, ao mercado, à economia, as instituições políticas, a organização interna da vida familiar e doméstica, aos ordenamentos jurídicos e ao Estado. A estrutura social é, portanto, uma das bases que sustentam a vida em sociedade e as relações sociais. Estas estruturas sociais, entretanto, não são dadas, mas contruídas socialmente. 

  Ou seja, as estruturas sociais não “nascem” do nada e tampouco são naturais ou são como são porque “sempre foram assim”. As sociedades modernas são produtos da história, tendo em vista a capacidade de o homem produzir cultura em todas os períodos históricos. Isso constitui o caráter socialmente construído das estruturas sociais, bem como das instituições das nossas sociedades. 

  Toda estrutura social, entretanto, é formada, por agentes sociais, ou seja, os sujeitos que produzem a ação nas sociedades. Assim, as sociedades são passíveis de transformação social e mudança, pois os sujeitos da ação empreendem esforços para mudar os rumos da história cotidianamente – ainda que, como diz Marx, limitados pelas condições que lhes são dadas. Nesse sentido, porque é importante pensarmos sobre o racismo estrutural e branquitude enquanto debates relacionais e urgentes? 

  Tenho sentido certa banalização do debate acerca do racismo estrutural, quando muitos sujeitos brancos, mais precisamente , se utilizam do entendimento trazido por Almeida (2018) de que “o racismo não é resultado de uma irracionalidade ou de um desvio comportamental, pois é a manifestação da normalidade/normatização da estrutura social vigente”, com fins de mitigarem suas responsabilizações no espectro da luta-antirracista. Noto que a compreensão do racismo enquanto um problema da estrutura social não exime a branquitude e demais sujeitos de conduzirem os movimentos da história e promoverem as mudanças necessárias em seu entorno.

  Vi muitos intelectuais, professores universitários, artistas, colegas de faculdade brancos que, alicerçados na contribuição teórica que os estudos sobre o racismo estrutural tem trazido para a compreensão das dinâmicas raciais, usam deste argumento para não repensarem sobre suas próprias ações e privilégios raciais, alegando que o problema está na estrutura social, e não na individualização dos sujeitos, dentro dessas estruturas.

   Há de fato, certos cuidados que precisamos tomar para não individualizarmos problemas que são sociais. Entretanto, acredito que não há possibilidades de avançarmos na luta antirracista, que é uma luta de todos, brancos, pretos e indígenas, se a branquitude não se enxergar enquanto sujeitos nesses processos sociais. Pensarmos, portanto, nos processos sistêmicos das sociedades capitalistas requer também a saída de um lugar cômodo e acrítico da branquitude brasileira, deslocando este debate para a dimensão subjetiva. 

  Mas, o que é branquitude? Segundo Steyn (2004) e Schucman (2012), branquitude é a identidade racial do branco, concebida enquanto construto ideológico de poder, que nasceu no contexto do projeto moderno de colonização europeia (aput, SILVA, 2017). Nesse sentido, temos nos anos 90, no Brasil, o surgimento dos estudos de teoria social crítica da braqnuitude, buscando racializar o branco e pensá-lo enquanto possuidor de um ethos sociocultural que lhe foi concedido pela herança colonial e reconfigurado pelo sistema capitalista moderno (SILVA, 2017). 

  Como salienta Liv Sovik (2004): “a branquitude brasileira é um lugar de fala, envolvendo relações socioeconômicas, socioculturais e psíquicas, como Ruth Frankenberg afirma sobre a norteamericana. Está arraigada em questões de imagem e autoimagem, como dizem Muniz Sodré e Guerreiro Ramos. E é formada ao longo de uma história.” 

  Esta negação do branco de se inserir enquanto sujeito racializado na estrutura social nos leva a reflexões sobre os entraves sociais e de desigualdades impostos à população preta e à indígena desse país, pois por trás desta negação está a deificação do branco enquanto sujeito universal e a coisificação do negro enquanto sujeito que representa a encarnação absoluta do mau (FANON, 1952).

  Ainda que o lugar de privilégio atravessado pela branquitude não seja absoluto, este lugar social molda e modifica as relações raciais de toda a estrutura social. Em todos os estágios do capitalismo, mercantil, industrial, administrado pelo Estado ou financeiro, entretanto, vemos que a branquitude sempre conseguiu se manter enquanto hegemonia. Nesse sentido, urge a branquitude repensar a prerrogativa que carrega ao poder fazer-se “neutra”, quando seus privilégios são questionados ou estão em jogo. 

  Debater acerca do racismo estrutural requer, portanto, repensar o lugar do branco na estrutura social, suas heranças sociais, culturais e simbólicas que perpassam as gerações familiares, desde o período colonial. Nesse sentido, devemos expandir o debate sobre a branquitude na medida em que o tema a respeito do racismo estrutural tem se tornado mais popularizado nos diferentes espaços sociais. 

Falar sobre a branquitude não é individualizar problemas sociais, mas chamar para a reflexão e a responsabilização à população que simbólica e materialmente contribui com a espoliação e a marginalização das populações negras e indígenas desse país. A prática antirracista deve ser cotidiana, da mesma forma que as pessoas não brancas são lembradas da cor de sua pele todos os dias de forma violenta ou velada. Somente, assim, transformaremos mentalidades e alcançaremos efetivas mudanças na estrutura social.


Referências bibliográficas:

SILVA, Priscila Elisabete da. O conceito de branquitude: reflexões para o campo de estudo. In:  Branquitude: estudos sobre a identidade branca no Brasil. Curitiba: Appris,  2017, p.  19-31.

ALMEIDA, Silvio Luiz de. O que é racismo estrutural? Belo Horizonte (MG): Letramento, 2018

STEYN, M. Novos matizes da “branquitude”: a identidade branca numa África do Sul multicultural e democrática. In: WARE, V. (Org.) Branqquitude: identidade branca e multiculturalismo. Rio de Janeiro: Garamond, 2004.

SCHUCMAN, L. V. Entre o ‘encardido’; o ‘branco’ e o ‘branquíssimo’: raça, hierarquia e poder na construção da branquitude paulista. Tese de Doutorado em Psicologia Social – Instituto de Psicologia, USP. São Paulo, 2012

SOVIK, Liv. Aqui ninguém é branco: hegemonia branca e mídia no Brasil. In: WARE, V. (Org.) Branquitude: identidade branca e multiculturalismo. Rio de Janeiro: Garamond, 2004.

FANON, Franz. Pele negra, mascara branca. Tradução de Alexandre Pomar. Porto: Edição A Ferreira, 1952.


Milena Regina

Mestranda no Programa de Pós Graduação em Ciências Sociais pela UFJF e graduada em Bacharelado em Ciências Sociais pela mesma instituição. É professora dos anos iniciais da Educação Básica. Atua como bolsista voluntária no projeto de extensão REVIR- “Mulheres encarceradas de volta a vida extramuros”, do Núcleo de Estudos de Violência e Direitos Humanos – UFJF, atua voluntariamente do GT de Ações Afirmativas da APG (Associação de Pós-Graduandos) UFJF. Integra as organizações sociais Coletivo Negro Resistência Viva e a Frente Preta UFJF.