Qual foi o papel das mulheres no cristianismo primitivo?

Revista Casa D’Italia, Juiz de Fora, Ano 2, n. 12, 2021 – Alex Fernandes Bohrer | Qual foi o papel das mulheres no cristianismo primitivo?


Quem foi, de fato, Maria Madalena ou o que sabemos sobre Júnia, uma mulher que foi chamada de apóstolo, e quais os impactos disso nos dias atuais?

Em meu recente livro “Jesus — um breve roteiro histórico para curiosos” (Chiado Books, 2021) abordo alguns temas polêmicos, mas que julgo de suma importância para entendermos a conformação do mundo ocidental. Sob esse aspecto, o papel que foi relegado às mulheres na religião teve impactos profundos que permearam toda a existência feminina, com suas dores e lutas. E esses impactos, logicamente, foram muito além das questões de fé, abrangendo a vida familiar, direitos, educação, trabalho, política etc. Selecionei alguns trechos de um dos capítulos balizares, com o intuito de discorrer sobre essa temática espinhosa, mas fascinante.

É notório que a administração atual das igrejas da cristandade seja um lugar essencialmente masculino. No caso dos catolicismos, é vedado o sacerdócio às mulheres, razão pela qual somente homens são papas, patriarcas, cardeais, bispos e padres. Contudo, quando recuamos até a época dos apóstolos, parece que elas tiveram um papel mais incisivo na propagação da nova fé. Supõe-se, inclusive, que ajudavam a sustentar Jesus e o movimento incipiente, como podemos perceber no caso de Joana de Cuza, Susana e Maria Madalena.

Pouco sabemos sobre Suzana e Joana para além do fato interessantíssimo de que uma delas era esposa de um procurador de Herodes (o que nos faz supor que, ainda Jesus estando vivo, sua mensagem se entranhou nos bastidores do poder judaico). A mesma Joana ainda é citada em Lucas com Maria Madalena e Maria, mãe de Tiago, quando encontraram o túmulo vazio (note-se que todos os evangelhos canônicos, com poucas variações, são unânimes em afirmar que foram mulheres que primeiro relataram a ressurreição).

Porém, a mais comentada e polêmica das citadas é, claro, Maria Madalena. Muito se escreveu sobre essa personagem paradigmática e misteriosa. Com o tempo, se viu nela a figura de uma mulher pecadora e promíscua. Contudo, isso não é dito nos evangelhos. Parece que a tradição uniu várias mulheres — como a que lava os pés de Jesus, uma adúltera e uma prostituta — em torno de uma só, atribuindo-lhe um único nome de destaque: Maria Madalena. A verdade é que ela talvez fosse uma mulher rica, advinda da vila de Magdala (daí o nome, por corruptela, Madalena), um lugar próspero comercialmente. E dinheiro seria importante para sustentar os pregadores no começo do cristianismo.

Escritores mais recentes afirmaram que Maria Madalena poderia ter sido esposa de Jesus, mas sobre isso não há respaldo algum. Afirmações como a de que se beijavam se baseiam no Evangelho de Filipe, encontrado em 1945 no conjunto de Nag Hamadi e do qual só sobrevive um códice, cujo famoso trecho diz: “A companheira de […] Madalena […] mais do que a todos os discípulos […] a beijou na […]”. As partes entre colchetes estão faltando no manuscrito e muitos sugerem completar o último hiato com a palavra ‘boca’. Há, contudo, alguns problemas nessa hipótese: primeiro, o evangelho é séculos posterior aos canônicos; segundo, há as lacunas citadas; e, terceiro, beijar na boca, se considerarmos ser essa a frase real, não quer dizer um relacionamento amoroso, como hoje em geral significa.

Após a crucificação, as mulheres continuaram tendo papel de destaque, como bem testifica o exemplo de Júnia. Na sua Carta aos Romanos, Paulo a chamou de ‘apóstolo’. Parece que essa Júnia tinha muita importância no cristianismo primitivo. Paulo ainda ressalta que ela era cristã antes dele próprio. Se ela estava entre os seguidores originais de Jesus, não sabemos, mas podemos afirmar que era uma personagem ativa na comunidade de cristãos em Roma no primeiro século.

Existe até certo debate sobre o gênero de Júnia, alguns afirmando que o nome se refere a um homem. Contudo, a tradição antiga sempre a representa como mulher e o debate parece mais uma contenda de sexos que de semântica. A explicação disso é que a hierarquia patriarcal que depois se consolidou na Igreja, distante temporalmente dos acontecimentos originais, não conseguiu entender como uma pregadora podia ser contada entre os apóstolos, mas a verdade é que ela está, possivelmente, no cerne da fundação do cristianismo em Roma, daí o epíteto honroso.

O próprio São Paulo se liga a várias pregadoras e, até mesmo, patrocinadoras da nova fé, como ocorreu com Lídia, Evódia e Síntique, que davam ajuda financeira ou forneciam estrutura para hospedagem ou pregação. Há também, nos textos de Paulo, a citação de casais missionários, como Áquila e Priscila (também chamada de Prisca), que o acolheram em Roma. Priscila, inclusive, converteu Apolo, que se tornou um personagem de destaque. Outro trecho epistolar nos fala sobre Febe, uma cristã com o título de diaconisa, que tinha, portando, voz política e administrativa.

Isso quer dizer que não havia restrições quanto às mulheres na igreja primitiva? É óbvio que os primeiros cristãos eram fruto de seu tempo e viam a mulher como submissa ao homem, como se dá a entender, inclusive, em diversos trechos das cartas do próprio Paulo, que insta, paradoxalmente, as mulheres a se manterem submissas. E foi essa última linha que se sobressaiu finalmente.

Há duas certezas, de qualquer forma:

  • as mulheres foram importantes no cristianismo primitivo, participando como patrocinadoras, pregadoras e administradoras. A mensagem de Jesus, de um reino dos céus para todos, devia ter especial apelo para elas;
  • as mulheres foram paulatinamente alijadas da administração central, da pregação pública (o que não quer dizer que não tenham surgido grandes propagadoras posteriormente) e, até mesmo, do sacerdócio (cujo status foi formado nos três séculos seguintes).

Alex Fernandes Bohrer

Professor brasileiro, natural do estado de Minas Gerais. Possui licenciatura e bacharelado em História pela Universidade Federal de Ouro Preto, mestrado e doutorado em História Social da Cultura pela Universidade Federal de Minas Gerais. Foi historiador da Prefeitura Municipal de Ouro Preto, produzindo uma série de textos sobre a história deste sítio, importante Patrimônio da Humanidade (Unesco). Foi membro titular do Conselho de Patrimônio e do Conselho de Turismo de Ouro Preto. Foi professor da Faop (Fundação de Arte de Ouro Preto), onde lecionou as disciplinas História da Arte, Iconografia Cristã e Barroco Mineiro. É fundador e coordenador do Nealumi (Núcleo de Estudos da Arte Luso Mineira). Atualmente é professor efetivo do IFMG (Instituto Federal de Minas Gerais), onde leciona as disciplinas História, História da Arte, Estética e Iconografia e Simbologia. Entre outras obras, é autor dos livros “Ouro Preto — um novo olhar”, “O discurso da imagem — invenção, cópia e circularidade na arte” e “Jesus — um breve roteiro histórico para curiosos”.


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