Caça ao tesouro e a Festa della Repubblica Italiana

Revista Casa D’Italia, Juiz de Fora, Ano 2, n. 12, 2021 – Rafael de Souza Bertante | Caça ao tesouro e a Festa della Repubblica Italiana


Há 75 anos, os italianos elegeram a República como o modo de governo para a Itália. Se em um primeiro momento parte da população desconfiou do ocorrido, com o passar dos anos, a República não só se afirmou como o modelo de governo italiano, mas como também ganhou um feriado nacional para celebrar tal marco. Neste texto, pretendemos elencar alguns fatos sobre a Festa della Repubblica Italiana e, a partir de uma atividade desenvolvida por três professoras da Bolonha, perceber como a festa ainda permanece na memória das gerações atuais.

Para pensarmos na Itália enquanto um país, precisamos retornar ao século XIX. Desde 1815, um movimento chamado Risorgimento — que apesar de suas singularidades — tinha como fima junção dos Reinos da Península Itálica. O processo de unificação era dividido entre aqueles que queriam implementar uma República e os que defendiam uma Monarquia. Após anos de disputa pela unificação, durante congresso em Turim, no ano de 1861, foi oficializada a existência da nação italiana e a Monarquia se estabeleceu como modo de governo. O projeto arquitetado pelo Risorgimento ainda se estendeu por mais um tempo, se concretizando em 1870, quando os italianos tomaram os Estados Papais e fizeram de Roma a Capital da Itália (BERTANTE, 2017).

Desse modo, a Monarquia atuou por 85 anos na Itália, sendo que, em 20 deles, esteve regida pelos ideais fascistas. Com o término da II Guerra Mundial e a queda do fascismo, os cidadãos italianos foram convocados a escolher o modo como o país deveria ser governado. Para isso, ocorreu entre os dias 2 e 3 de junho de 1946 um referendo institucional, realizado em forma de sufrágio universal, onde se propôs a permanência da Monarquia ou a implantação da República. Após a participação de 89,1% da população italiana no referendo, o jornal L’Unità publicou no dia 5 de junho que, com 54% dos votos, a República seria a nova forma de governo da Itália (SANCHEZ, 2021).

A vitória dos republicanos foi relativamente estreita e, por isso, contestada pela oposição. Em Nápoles, onde a maioria optou pela permanência monárquica, chegou a acontecer uma agitação que terminou com a morte de nove pessoas. Sobre os resultados, também chamou a atenção o fato de algumas personalidades terem votado a favor da Monarquia e depois terem se integrado ao governo republicano, como aconteceu com o economista e político Luigi Einaudi, que, apesar de ter escolhido a permanência dos monarcas, em 1948 foi eleito presidente da República.

Outros elementos merecem destaque sobre esse referendo. Talvez o mais importante, tenha sido o sufrágio universal na Itália. Desse modo, pela primeira vez, as mulheres puderam exercer seu direito ao voto e fizeram isso com maestria. As mulheres eram a maior parte entre os mais de 20 milhões de cidadãos com direito de voto. Outro ponto é o fato de o Norte do país ter sido mais favorável à República. Se dividíssemos a Itália ao meio, para analisar a porcentagem dos votos, observaríamos que, no Norte, 66,2% dos votos indicaram a República como modelo a ser seguido, enquanto, no Sul, a República venceu com 53,8% da preferência (SANCHEZ, 2021).

Apesar de algumas incertezas, a escolha pela República foi mantida. Dez dias após o término do referendo, o chefe do governo provisório, Alcide De Gasperi, anunciou oficialmente o fim da Monarquia na Itália e o rei Umberto II, junto a sua corte, partiu para o exílio em Cascais, Portugal, sendo que os bens da coroa foram confiscados. Já no dia 28 de junho, a assembleia constituinte se reuniu e elegeu o primeiro presidente da República italiana, Enrico de Nicola, que assumiu o poder a partir do mês de julho de 1946 (SANCHEZ, 2021).

A definição do dia 2 de junho como data símbolo da República italiana, marcada pelo feriado e pelas paradas militares, tão conhecidos por nós hoje em dia, não aconteceu de imediato. A primeira vez que se festejou a Festa della Repubblica Italiana foi em 1948. No ano de 1950, os desfiles militares foram apresentados no protocolo de comemorações oficiais. Na década de 1970, o dia de comemorar a República passou a acontecer durante o primeiro domingo de junho. Somente nos anos 2000, com o governo do primeiro ministro Giuliano Amato, é que a data se restabeleceu no dia 2 de junho, mantendo as características atuais (BUENO, 2017).

E como são essas comemorações tradicionais? Os festejos oficiais da Festa della Repubblica Italiana acontecem no dia 2 de junho em Roma. Logo pela manhã, o presidente da República coloca uma coroa de loro no Altare della Patria, em homenagem ao Milite Ignoto[1]. Trata-se de um rito, onde o responsável oficial do país presta uma homenagem a todos os mortos e desaparecidos nas guerras. Nesse monumento, localizado em Roma, se enterrou o corpo de um militar, morto e não identificado, após a I Guerra Mundial (BUENO, 2017) — vale a pena conhecer mais sobre a história do Altare della Patria e seus significados.

Outro marco é a parada militar na Via dei Fori Imperiali. Nesta, representantes de todas as forças armadas se enfileiram para um grande desfile, ao lado de voluntários da Cruz Vermelha e outros. A Banda do Exército Italiano se apresenta tocando o Hino da Itália e a La Fedelissima, sua marcha oficial. Além, é claro, da já clássica exibição das Frecce Fricolori, ou a Patrulha Acrobática Nacional da Força Aérea Italiana, que marca os céus de Roma com manobras arriscadas e fumaça nas cores da Bandeira Italiana (SANCHEZ, 2021).

Mesmo com o isolamento social causado pela Covid-19, a Festa della Repubblica Italiana não foi apagada. Aconteceu de modo diferente, como praticamente todas as comemorações vêm sendo readaptadas. Neste ano de 2021, o presidente Sergio Mattarella colocou a tradicional coroa de folhas de louro diante da sepultura do Milite Ignoto, no Altare della Patria, mas não houve a parada militar. O movimento foi mais sóbrio e esvaziado, porém contou, também, com a Frecce Fricolori, que cortou os céus da capital italiana levando as cores da bandeira tricolor à celebração (SANCHEZ, 2021).

Mediante a falta de interação presencial e a readequação das comemorações da Festa della Repubblica Italiana, as professoras Corticelli, Carpigiani e Gabrielli desenvolveram uma pesquisa, junto com duas turmas de uma escola primária na Bolonha, para analisar a percepção dos alunos a respeito do Dia da República. O trabalho foi nomeado de Caccia al tesoro della Repubblica. A ideia inicial do projeto era apresentar fontes históricas que intrigassem as crianças a respeito do evento. Para isso, selecionaram dois cine-jornais de 1946, disponíveis no Arquivo Histórico do Istituto Luce. Mas, para fazer valer a ideia da caça ao tesouro, as crianças precisaram seguir coordenadas em espécies de mapas que continham as instruções para encontrar os vídeos e as próximas coordenadas do trabalho (CORTICELLI et al, 2020).

Seguindo esse percurso digital, as crianças descobriram fatos históricos sobre a Monarquia, como, por exemplo, ter sido ela conivente com a ditadura fascista, ter aprovado a participação nas guerras, além de ter aprovado, em sua história, leis racistas. A partir de elencar os ocorridos ao longo da história da Itália, colocou-se o referendo de 1946, quando a os italianos escolheram a República como modo de governo. Ali os alunos encontraram o tesouro, a República, e o direito de escolherem por si só o modo como a nação deveria ser conduzida (CORTICELLI et al, 2020).

Após toda essa caminhada precisava-se, então, ouvir das crianças o que Festa della Repubblica Italiana significavam para elas. E o resultado foi fantástico! A maioria das respostas mencionou a importância de se ter a liberdade de escolha, o direito à participação da vida política e a relevância da democracia. Logo, Corticelli, Carpigiani e Gabrielli concluíram que o calendário civil está, sim, presente no horizonte dessas crianças e que os seus itinerários podem ser carregados de conotação históricas, de forma diretamente proporcional ao tempo dedicado à sua contextualização histórica. As conquistas históricas de hoje, e mesmo do passado, permanecem vivas a partir do momento que encontram espaço na memória individual e coletiva. Portanto, quando se consegue ligar os direitos e deveres de hoje com as conquistas obtidas pelos esforços no passado, compreende-se a relevância de demarcar e comemorar esses feitos. Foi essa a mensagem transmitida pelo projeto (CORTICELLI et al, 2020).

A partir da história da Festa della Repubblica Italiana e da experiência dessa escola bolonhesa, podemos perceber que hoje a Itália é, sim, uma nação democrática, que conta com a efetiva participação de sua população nas deliberações políticas, possibilitado pela implementação de um sistema de governo que conta com uma base extensa e sólida.

[1] Em tradução livre, Soldado Desconhecido.


Referências bibliográficas:

BERTANTE, Rafael de Souza. Um olhar sobre a sociabilidade italiana em Juiz de Fora: italianos maçons e a “Unione Italiana Benso di Cavour”. Dissertação (Mestrado em História). UFJF, Juiz de Fora, 2017.

BUENO, Barbara. 02 de Junho – Feriado da República Italiana. Disponível em: <https://www.brasilnaitalia.net/2017/06/02-de-junho-feriado-da-republica-italiana.html>, 2017.

CORTICELLI, G., CARPIGIANI, C., & GABRIELLI, G. (2020). Caccia al tesoro della Repubblica (a distanza). Due classi quinte di due scuole primarie a confronto con la festa del 2 giugno. Didattica Della Storia – Journal of Research and Didactics of History, 2(1), 129-138. https://doi.org/10.6092/issn.2704-8217/11917

http://pesquisaitaliana.com.br/2-de-junho-festa-della-repubblica/

http://www.radioitaliana.com.br/02-de-junho-italia-comemora-o-dia-da-republica/

SANCHEZ, Anelise . Feriado de 2 de junho na Itália e a festa da República. Disponível em: <https://post-italy.com/feriado-2-junho-na-italia/>, 2021.


Rafael de Souza Bertante

Graduado e mestre em História pela UFJF, com ênfase em sociabilidade e cultura italiana, atou em atividades patrimoniais no Laboratório de Patrimônios Culturais. Pós-graduado em Ciência da Religião. Cursa atualmente doutorado em Ciência da Religião pela UFJF e atua com pesquisa em arquivos.


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