O encontro feliz do poeta brasileiro Vinicius de Moraes com a Itália

Revista Casa D’Italia, Juiz de Fora, Ano 2, n. 12, 2021 – Pedro Bustamante Teixeira | O encontro feliz do poeta brasileiro Vinicius de Moraes com a Itália


No livro O mistério do samba, Hermano Vianna cunhou o termo “mediadores transculturais” para se referir a personagens da elite intelectual brasileira que, interessados pelas manifestações de uma cultura popular afro-brasileira, favoreceram o encontro cultural do Brasil com o samba, os sambistas e com uma parte significativa desse universo. No sétimo capítulo de Macunaíma, “Macumba”, Mário de Andrade escancara esse encontro e um dos locais onde ele se dava: exatamente, a casa da Tia Ciata, metonímia de todas as tias (baianas) do samba do Rio de Janeiro.

Da mesma forma que um dia membros da elite se interessaram pelas manifestações afro-brasileiras de expressão popular, depois, outros grupos se aproximaram e, por conseguinte, o próprio governo federal, verificando a força do ritmo e o poder de comunhão dessa expressão popular, apadrinhou o samba, tornando-o a música popular brasileira por excelência. Nos anos Vargas, o samba se tornava um patrimônio nacional, mas, nesse percurso, teria que se enquadrar na cartilha do Estado Novo. Assim, mudam as personagens: sai o malandro, o boêmio da orgia, a cabrocha; entra o trabalhador, o pai de família, a dama. Surge daí o “samba-exaltação”, cujo exemplo mais vibrante é “Aquarela do Brasil”, de Ary Barroso, gravada por Francisco Alves e orquestra, sob a batuta de Radamés Gnattali; mais adiante, na contra-luz, o samba-canção.

Entre os mais proeminentes “mediadores transculturais” poderíamos incluir o nome do poeta e diplomata Vinicius de Moraes. Tanto para o poeta quanto para o embaixador, a mediação transcultural é um ofício. No entanto, enquanto o primeiro opera na mediação de sua poesia no mundo, como autêntico representante de uma escrita, o segundo representa um país, uma nação, uma pátria. Mas é claro que Vinicius de Moraes misturou tudo isso. Deve-se lembrar que, nesse tempo, a diplomacia não era uma profissão de carreira, os cargos diplomáticos eram muitas vezes oferecidos a escritores de relevância nacional como João Cabral de Melo Neto ou Guimarães Rosa. Moraes não seria diplomata sem antes se destacar como poeta. E, assim, não estaria condizendo com a sua condição de diplomata se deixasse de lado logo aquilo que o fez merecer o posto.

Em busca de uma poesia total, popular, que escapasse do círculo restrito da poesia escrita, o poeta pensou em escrever uma peça que recriasse o mito de Orfeu numa favela carioca. Com elenco composto exclusivamente por atores negros e atrizes negras e muito samba, Orfeu da Conceição ainda trazia uma novidade que seria fundamental para o surgimento da Bossa Nova: a parceria entre Tom Jobim e Vinicius de Moraes. Poucos anos depois, a peça seria adaptada para o cinema pelo diretor Francês Marcel Camus e ganharia o Festival de Cannes, em 1959, e o Globo de Ouro e o Oscar de Melhor Filme Estrangeiro, em 1960. Foi o estopim para o sucesso internacional da Bossa Nova, que nesse momento já contava com Chega de Saudade, o primeiro disco de João Gilberto.

Mas, como diria Vinicius numa parceria com Jobim: “tristeza não tem fim, felicidade sim”. O breve período de otimismo da história brasileira, explícito em vários movimentos artísticos nos anos JK, foi bruscamente interrompido com uma grave crise político-institucional que resultou no golpe civil-militar de 1964. De 64 a 68, a ditadura não impediu que a esquerda mantivesse certa hegemonia na área cultural. São os tempos do Cinema Novo, do Teatro do Oprimido, do Teatro de Arena, do Teatro Oficina, do surgimento da canção de protesto, da MPB, da Tropicália. Vinicius participa ativamente da Bossa Nova, de 1958 a 1962, quando começou a pensar nos afro-sambas com Baden Powell e, em paralelo a isso, já compunha o Hino da UNE com Carlinhos Lyra, abandonando de vez qualquer compromisso com as temáticas desenvolvidas pela Bossa Nova e inaugurando a canção de protesto. E tudo isso ele fazia nos contra-turnos de seu ofício. No dia 13 de dezembro de 1968, a promulgação do AI-5 encerra com terror essa hegemonia da esquerda. Com o ato, muitos dos artistas ligados à esquerda ou a movimentos que contestavam o regime passaram a ser perseguidos pelo estado. Em 1969, após uma ordem do presidente Arthur da Costa e Silva, Vinicius de Moraes é exonerado do cargo de diplomata.

Desde então se intensificaria a relação de Vinicius de Moraes com a Itália, que se torna um refúgio para artistas como Chico Buarque e Toquinho, que fazem por lá parceiros para toda a vida. Fazem não, reconhecem, já que, seguindo o bordão do poeta: “amigo não se faz, amigo se reconhece”. Na Itália, Vinicius é traduzido pelo amigo e também poeta Ungaretti, em 1969, em uma publicação artesanal, de luxo, com uma tiragem de 44 exemplares, intitulada: Poesie. Com Ungaretti, Sergio Endrigo e o letrista Bardotti, Vinicius lança no mesmo ano um disco muito celebrado, La vita, amico, è l’arte dell’incontro, e, em 1972, ainda lançam um dos discos de maiores sucessos da história da música infantil na Itália: L’Arca.

Junto a Sergio Bardotti e ao argentino radicado na Itália Luis Bacalov, Endrigo compusera Canzone per te para o Festival de San Remo de 1968 que, interpretada por Roberto Carlos, tornara-se a grande vencedora desse festival. No mesmo ano de 1968, o AI-5 encerraria os movimentos musicais veiculados pela indústria cultural brasileira: Jovem Guarda, MPB, Tropicália. A canzone d’amore italiana se tornaria o modelo para o Rei da Jovem Guarda, que desde então, assumindo de vez a sua face romântica, tornar-se-ia apenas: o Rei.

Como dizia Vinicius, “a vida é a arte do encontro” e o poeta conseguiu ensinar isso aos italianos. Promovendo uma parceria cultural inédita entre Brasil e Itália, Vinicius conseguiu replicar na Itália o reconhecimento que já tinha no Brasil. Conquistou crianças e adultos, poetas, cantoras e cantores, e, ainda hoje, é lembrado na terra de Dante, Petrarca e Pasolini. Recentemente, o disco La voglia, la pazzia, l’incoscienza e l’allegria, gravado e lançado em 1976 na Itália com seu parceiro Toquinho e a diva da canção italiana Ornella Vanoni, figurou em uma lista elaborada pela revista Rolling Stones como um dos cem discos mais importantes da história da música italiana e, em 2019, o pop-star italiano Jovanotti regravou “Accendi una luna nel cielo”, uma das canções do disco. E isso não é tudo. A história do encontro de Vinicius de Moraes com a Itália, parte ainda obscura da biografia do poeta, ainda carece de muita leitura, estudo e reflexão.


Referências:

MORAES, Vinicius de. Vinicius de Moraes: obra reunida/ organização Eucanaã Ferraz. 1. ed. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2017.

TEIXEIRA, Pedro Bustamante. Do samba a bossa nova: inventando um país. 2 ed. Curitiba: Appris, 2020

VIANNA, Hermano. O mistério do samba. Rio de Janeiro: Jorge Zahar ed. : Ed. UFRJ, 1995.

http://www.toquinho.com.br/toquinho-e-vinicius/


Pedro Bustamante Teixeira 

Professor de Língua e Literatura Italianas no Departamento de Letras Estrangeiras Modernas da Faculdade de Letras e Professor permanente do Programa de Pós-Graduação em Letras – Estudos Literários da Universidade Federal de Juiz de Fora. É autor dos livros Do samba à bossa nova: inventando um país (2015) e Transcaetano Trilogia Cê mais Recanto (2017).


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