Os imigrantes portugueses e a Sociedade Auxiliadora Portuguesa em Juiz de Fora

Revista Casa D’Italia, Juiz de Fora, Ano 2, n. 11, 2021 – Antonio Gasparetto Júnior | Os imigrantes portugueses e a Sociedade Auxiliadora Portuguesa em Juiz de Fora


Foi com o vínculo entre a exportação do café e os investimentos em atividades industriais que a região da Zona da Mata incrementou sua vida urbana na década de 1880. Muitos incentivos contribuíram para a chegada de imigrantes, como a construção da rodovia União & Indústria, a construção da Hospedaria de Imigrantes Horta Barbosa e os benefícios concedidos pela província para plantação do café.

Ao se emancipar de Barbacena, em 1850, Juiz de Fora já nasceu como um dos principais municípios cafeicultores de Minas Gerais. A construção da rodovia União & Indústria permitiu a integração econômica e a expansão das sociabilidades, elementos que ajudaram a cidade a desempenhar um papel típico de polo urbano e de capital regional no seio de uma economia agroexportadora. Mas o que consolidou definitivamente a posição de Juiz de Fora foi a introdução da malha ferroviária, a qual causou um impacto muito maior no mercado do que a rodovia União & Indústria. A dinamização econômica dinamizou também a mão-de-obra[1].

A abertura da estrada, a cargo da Companhia União & Indústria, foi acompanhada pela introdução de imigrantes, contratados por Mariano Procópio Ferreira Lage, para suprir a falta de técnicos e artífices na região. Os alemães constituíam a grande maioria dos trabalhadores estrangeiros contratados para construção da estrada, a qual teve início no ano de 1856. A construção da rodovia União & Indústria facilitaria o escoamento do produto gerado nas lavouras de café, mas trouxe consigo também o grupo pioneiro de imigrantes em Juiz de Fora. Assim, foi fundada na cidade a colônia Dom Pedro II para abrigar esses trabalhadores estrangeiros envolvidos com a construção da estrada.

Com o fim das obras da rodovia, a maioria dos colonos contratados para as obras já tinha se radicado em Juiz de Fora. Alguns aproveitaram as poupanças conquistadas ao longo dos anos para se associarem montando pequenas fábricas, ou estabelecerem-se no ramo comercial e de serviços, mas são casos bem específicos. Alguns fazendeiros tentaram ainda cooptar esses ex-colonos para suas lavouras, aproveitando a dispensa dos custos de imigração. Era um momento de crescimento do incentivo à imigração. Em 1883, uma Circular do Palácio da Presidência estimulava os fazendeiros de Juiz de Fora a contratar imigrantes oriundos das Ilhas Canárias e Açores para substituir o trabalho escravo[2]. Da mesma forma, os jornais também tentavam convencer os fazendeiros das qualidades do imigrante, ressaltando a necessidade de realização de contratos[3].

Juiz de Fora elaborou uma nova política de introdução de imigrantes que se iniciou com a fundação da Associação Promotora de Imigração, em 1888, formada por indivíduos representativos da economia da Zona da Mata. Abriu-se um novo panorama para entrada de imigrantes em Minas Gerais e na Zona da Mata. No mesmo ano o Governo Provincial promulgou a Lei nº 3.417, determinando a criação de uma hospedaria de imigrantes em Juiz de Fora[4], a qual suprimiria as outras da província.

Os alemães e os italianos ocuparam posições centrais nos debates sobre o desenvolvimento econômico de Juiz de Fora. A historiografia tradicional repetiu a imagem do imigrante germânico como agente do progresso e da ordem, além de iniciadores do processo industrial da cidade. Entretanto, foi uma seleta minoria que alcançou desenvolvimento econômico. Por sua vez, os portugueses também marcaram presença na vida social de Juiz de Fora através de suas atuações no mercado de trabalho. De acordo com o levantamento feito por Cláudia Maria Ribeiro Viscardi, eles eram provenientes principalmente das regiões de Douro Litoral, Beira Alta e Beira Litoral. Em Juiz de Fora, desenvolviam atividades de pedreiros, caixeiros, comerciários e trabalhadores de pouca qualificação que recebiam a alcunha de galegos[5]. Alguns deles se destacaram como empreendedores proeminentes na vida econômica da cidade.

Como grupo majoritário em Juiz de Fora, foram os imigrantes portugueses que sofreram maior preconceito. Todos os grupos étnicos ou nacionais residentes na cidade mineira conviviam com uma sociedade excludente, que se manifestava através do preconceito e da rejeição aos imigrantes. Mas os portugueses falavam a mesma língua e tinham ligações históricas com o Brasil de longa data, gerando uma imagem diferente dos grupos que constituíam colônias em separado. Eram majoritários no mercado de trabalho e disputavam cada posto intensamente com trabalhadores nacionais e outros estrangeiros, o que aumentava a hostilidade sobre o grupo. Embora vários fossem os pontos de similitude com os nacionais, também constituíam uma colônia em separado, celebrando suas próprias datas e cultivando a cultura natal, pois, de acordo com Fredrik Barth, “as distinções étnicas não dependem da ausência de interação e aceitação sociais, mas, ao contrário, são frequentemente a própria base sobre a qual sistemas sociais abrangentes são construídos” [6].

Nesse contexto, a cidade de Juiz de Fora contou com um aumento da população urbana que esteve ligado ao desenvolvimento do setor de serviços e comércio na cidade. Surgiram novas indústrias que atraíram o trabalhador livre e imigrante, dando impulso a um mercado consumidor amplo e diversificado. Mas as condições de trabalho não eram adequadas no município mineiro, o proletariado enfrentava condições que ofereciam dificuldades até mesmo para sobreviver, muito por causa dos baixos salários que eram praticados na região. Essas carências que excluíam a seguridade do trabalhador levaram a participações em sociedades de mútuo socorro, tanto os nacionais como os imigrantes.

Desde sua emancipação, em 1850, até o ano de 1934, houve em Juiz de Fora 63 associações de ofício, 54 filantrópicas, 36 seguradoras, 25 étnicas, 24 literárias e de lazer, 15 patronais, 12 científicas e seis mistas e regionais. Nesse panorama, as associações de ofício eram as mais numerosas, representando 26,8% do total, em função do agregado de manufaturas e pequenas fábricas que reunia grande volume de trabalhadores na cidade. Enquanto isso, as mutuais de imigrantes representavam 10,63% do total e eram locais utilizados pelos trabalhadores estrangeiros para reforço da identidade, proteção mútua e promoção de atividades de lazer. A primeira mutual em Juiz de Fora foi exatamente de imigrantes, a Sociedade Alemã de Beneficência, fundada em 1872[7].

A união entre indivíduos de uma mesma origem étnica ou nacional ganha destaque em casos de associativismo. Formam-se representações de grupos específicos não por ofício, mas por naturalidade. Essas representações mantêm seus laços com suas tradições históricas e culturais, reforçando identidades, em primeiro lugar, e também oferecendo recursos de seguridade. As associações de imigrantes não eram restritas a ofícios determinados, mas destinadas a pessoas que comungassem de uma mesma origem nacional ou étnica.

Em Juiz de Fora, o quadro das mutuais de imigrantes refletiu o contingente populacional de imigrantes. Ou seja, italianos, portugueses e alemães possuíam as associações mais expressivas. A comunidade portuguesa foi representada pelo Clube União Luso-Brasileira, fundado em 1882, com o objetivo de oferecer serviços consulares gratuitos aos portugueses pobres e criar espaços de lazer para os associados[8]; e pela Sociedade Auxiliadora Portuguesa.

Entre as mutuais portuguesas, a Sociedade Auxiliadora Portuguesa, fundada no dia primeiro de dezembro de 1891 por iniciativa de Joaquim Dias da Silva, Antônio Gomes Schmith, Daniel Pinto Corrêa, José Joaquim Pinheiro Machado, Joaquim Gonçalves Coelho e Joaquim Pinto Corrêa, tornou-se a principal entidade de organização dos portugueses em Juiz de Fora e foi agraciada com o título de Real pelo próprio rei português Dom Carlos I, em 1898. Tinha como objetivo prestar auxílio a seus associados em caso de doenças e, em caso de falecimento, arcar com os custos do funeral. Além disso, a Sociedade Auxiliadora Portuguesa oferecia aulas noturnas para os sócios e seus filhos com menos de 18 anos, tornava disponível uma biblioteca erguida através de doações das obras e também custeava a passagem de retorno a Portugal a todos os portugueses que necessitassem tratar graves doenças fora do Brasil, atendendo associados ou não.

A organização lusitana passou por carências estruturais durante a Segunda Guerra Mundial, no entanto, as atividades mutualistas já apresentavam nítido declínio no decorrer da década de 1940, muito em função do aparato previdenciário que o Estado brasileiro havia implementado. Na década seguinte, a associação passou a se dedicar mais enfaticamente à cultura e à instrução. Por iniciativa de Cleonice Rainho Thomaz Ribeiro e de seu marido Jacy Thomaz Ribeiro, fundou-se o Departamento de Cultura Luso-Brasileira, em 1955, no interior da Sociedade Auxiliadora Portuguesa. A sede social fora vendida no ano anterior e o viés cultural daria o tom de uma nova associação. A mutual permaneceu ativa até 1958, quando passou por uma reformulação e se tornou um clube recreativo denominado Sociedade Portuguesa, que se mantém ativo até hoje. Conta, em seu quadro social, com membros de qualquer nacionalidade. Já o Departamento assumiu rumo próprio e emancipou-se como Associação de Cultura Luso-Brasileira. Funciona como associação independente desde 1961[9].


[1] PIRES, Anderson. Café, Finanças e Indústria: Juiz de Fora, 1889-1930. Juiz de Fora: FUNALFA, 2009. (P. 60)

[2] Circular do Palácio da Presidência de Minas Gerais de 1883. Fundo Câmara Municipal no Período Imperial do Arquivo Histórico da Cidade de Juiz de Fora.

[3] OLIVEIRA, Mônica Ribeiro de. Imigração e Industrialização: os italianos em Juiz de Fora – Minas Gerais (1888-1920). In: A Presença Italiana no Brasil, Vol. III. BONI, Luis A. de. (Org.). Porto Alegre: Fondazione Giovanni Agnelli, 1990. (P. 173)

[4] MONTEIRO, Norma de Góes. Imigração e Colonização em Minas Gerais (1889-1930).Belo Horizonte: Editora Itatiaia Limitada, 1994. (P. 26)

[5] VISCARDI, Cláudia Maria Ribeiro. O cotidiano dos portugueses de Juiz de Fora (1840-1940). In: Solidariedades e Conflitos: História de vida e trajetória de grupos em Juiz de Fora. BORGES, Célia Maia (Org.). Juiz de Fora: EDUFJF, 2000. (P. 22-24)

[6] BARTH, Fredrik. O Guru, O Iniciador e Outras Variações Antropológicas. Rio de Janeiro: Contra Capa, 2000. (P. 27)

[7] VISCARDI, Cláudia M. R. & GASPARETTO JÚNIOR, Antonio. O Mutualismo em Juiz de Fora: as experiências da Associação Beneficente dos Irmãos Artistas. In: À Margem do Caminho Novo. VISCARDI, Cláudia M. R. & OLIVEIRA, Mônica R. de. (Orgs). Rio de Janeiro: Editora FGV, 2011. (P. 218-220)

[8] VISCARDI, Cláudia Maria Ribeiro. Op. Cit.. (P. 34-35)

[9] OLIVEIRA, Wanderley Luiz de. “Por Mares Nunca d’Antes Navegados”.Juiz de Fora: FUNALFA Edições, 2006.


Referências bibliográficas:

BARTH, Fredrik. O Guru, O Iniciador e Outras Variações Antropológicas. Rio de Janeiro: Contra Capa, 2000.

MONTEIRO, Norma de Góes. Imigração e Colonização em Minas Gerais (1889-1930).Belo Horizonte: Editora Itatiaia Limitada, 1994.

OLIVEIRA, Mônica Ribeiro de. Imigração e Industrialização: os italianos em Juiz de Fora – Minas Gerais (1888-1920). In: A Presença Italiana no Brasil, Vol. III. BONI, Luis A. de. (Org.). Porto Alegre: Fondazione Giovanni Agnelli, 1990.

PIRES, Anderson. Café, Finanças e Indústria: Juiz de Fora, 1889-1930. Juiz de Fora: FUNALFA, 2009.

OLIVEIRA, Wanderley Luiz de. “Por Mares Nunca d’Antes Navegados”.Juiz de Fora: FUNALFA Edições, 2006.

VISCARDI, Cláudia Maria Ribeiro. O cotidiano dos portugueses de Juiz de Fora (1840-1940). In: Solidariedades e Conflitos: História de vida e trajetória de grupos em Juiz de Fora. BORGES, Célia Maia (Org.). Juiz de Fora: EDUFJF, 2000.

VISCARDI, Cláudia M. R. & GASPARETTO JÚNIOR, Antonio. O Mutualismo em Juiz de Fora: as experiências da Associação Beneficente dos Irmãos Artistas. In: À Margem do Caminho Novo. VISCARDI, Cláudia M. R. & OLIVEIRA, Mônica R. de. (Orgs). Rio de Janeiro: Editora FGV, 2011.


Antonio Gasparetto Júnior

Pós-doutorando em História pela Universidade de São Paulo (USP), doutor (2018), mestre (2014), bacharel e licenciado (2010) em História e bacharel em Administração Pública (2017) pela Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF), com estágio de doutoramento (Chercheur Invité) na École Doctorale d’Histoire Moderne et Contemporaine da Université Paris IV — Sorbonne (2015-2016). Professor permanente do Mestrado Profissional em Administração Pública (PROFIAP) da UFJF. É autor, dentre outros livros, de Direitos Sociais em Perspectiva: seguridade, sociabilidade e identidade nas mutuais de imigrantes em Juiz de Fora (1872-1930) (Fino Traço/Funalfa, 2014).


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