Resgatando histórias, reverenciando nossos antepassados: memórias das famílias Altomar e Scanapieco

Revista Casa D’Italia, Juiz de Fora, Ano 2, n. 11, 2020 – Lucínia Altomar Scanapieco | Resgatando histórias, reverenciando nossos antepassados: memórias das famílias Altomar e Scanapieco


Juiz de Fora, como tantas outras cidades do Brasil, teve a contribuição de imigrantes italianos na sua formação.

Passeando pela cidade, e com um olhar pesquisador e curioso, podem-se perceber vários indícios dessa contribuição, como no nome de ruas, nas placas de comércio, nas construções e também nas artes.

Esses imigrantes chegaram ao Brasil e a Juiz de Fora trazendo em suas bagagens seus poucos pertences e seus misteres. Alfaiates, mecânicos, pintores artísticos, músicos e sapateiros — os chamados “calzolaio”. A essa profissão pertenciam meus dois avôs, o Francisco Altomar, calabrês de Luzzi, Cosenza, e o Antonio Scanapieco, de Caselle in Pittari, Salerno.

Francisco começou com uma fábrica de calçados, nos fundos de sua casa na Av. XV de Novembro, atual Av. Getúlio Vargas, e aposentou-se como proprietário da conhecida loja “Calçados Altomar”, na Av. Barão do Rio Branco, 2.145, em frente ao Parque Halfeld.

Etiqueta das caixas de sapato fabricadas por Francisco.

Já Antonio tornou-se aprendiz de seu sogro Giuseppe Lettieri e, como sócio de seu cunhado Giovanni Lettieri, montou a Fábrica de Calçados Lettieri & Scanapieco, na Av. dos Andradas, onde atualmente é o Instituto Vianna Júnior. Mas, por problemas de saúde, não pode continuar na profissão e voltou-se para a área têxtil, com o comércio de resíduos de tecidos. Teve loja na parte baixa da Rua Marechal Deodoro, mudando-se  depois para a Av. dos Andradas. Com a enchente de 1940, perdeu muito de sua mercadoria e com isso, desistiu do comércio. Em 1937, criou a primeira usina de beneficiamento de algodão na Zona da Mata mineira, a “Usina Ypê”, situada na Av. Sete de Setembro, 1.496. Dotada de maquinário moderno, empregava muitos operários, sob orientação de criteriosos técnicos no assunto. A Usina Ypê chegou a produzir 10 mil quilos de algodão beneficiado por dia. Sua produção era escoada pelas companhias ferroviárias Leopoldina e Central do Brasil. O prédio existe em parte até hoje e, há pouco tempo, tive a oportunidade de visitá-lo e registrar algumas fotos para meu arquivo pessoal. Foi uma emoção adentrar aquele espaço e deixar o pensamento viajar no tempo, imaginando como deveria ter sido em seus momentos de glória.

Portão na lateral direita do prédio, que dava acesso aos pavilhões internos.
O telhado mantém a forma original.

Preservar essas memórias é um tributo especial aos nossos ancestrais, além de contribuir para contar, muitas das vezes, uma parte da história de nossa cidade. Acredito que cabe à família coletar e registrar esses dados e, quando possível, compartilhá-los. É a melhor maneira de manter viva em nossa memória e nossos corações a imagem de nossos avós e pais, que deixaram sua terra natal para criar um novo lugar para se viver, com o suor de seu trabalho e o amor às suas tradições.

Por falar em tradições, nossas famílias conservam algumas até hoje.

Dentre muitas, os Scanapiecos mantiveram o hábito do cafezinho, servido em canequinhas de esmalte verde, e os Altomares o delicioso macarrão com sardinha, que teve sua receita adaptada às condições locais, mas não perdeu sua essência nem o sabor.

Resgatar, preservar histórias e tradições familiares é algo maravilhoso. Para mim, é uma visita ao passado, de onde volto revigorada e feliz a cada vez que revolvo meus guardados.

Juiz de Fora está encontrando, junto à Casa D’Italia, uma oportunidade fantástica de preservação da memória dos imigrantes italianos, através do projeto Raízes Italianas, onde recebem e digitalizam fotos e documentos que fazem a identificação de famílias, os quais ficam arquivados para quem por eles se interessar.

Fachada da casa na Av. XV de Novembro, onde funcionou a primeira oficina de calçados de Francisco Altomar, tendo à frente parte de família: Francisco com o filho Jurandy ao colo; ao seu lado, o filho Elpídio Ramos (o Raminho); à sua frente, o filho Dâmaso, tendo ao lado o irmão Dirceu e a irmã Dirce. Os dois homens são amigos da família.

Então! Que tal fazer uma busca nos guardados de família e, quem sabe, trazer para nossa apreciação mais algumas histórias e com isso enriquecer esse arquivo?


Lucínia Altomar Scanapieco

Formada no Curso Técnico de Contabilidade pela Fundação Educacional Machado Sobrinho. Exerceu a profissão por pouco tempo, pois se casou e, depois do nascimento do primeiro filho, decidiu que artes, criação e artesanato eram suas aptidões maiores. Sempre curiosa, se permitiu executar algumas técnicas de artesanato e trabalhos manuais, sendo o crochê o seu favorito. Aos poucos, se encantou pela pesquisa de suas origens italianas e se tornou a guardiã das memórias familiares. Uma eterna apaixonada por minha ancestralidade, foi convidada a participar do grupo de etnia italiana para a realização da Festa das Etnias, promovida pela Funalfa, e hoje está com a função de Diretora Cultural do Grupo de Dança Folclórica Italiana Tarantolato, com o qual compartilha a caminhada há mais de oito anos.


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