A imigração italiana em Minas Gerais a partir de uma experiência pessoal: um breve relato

Revista Casa D’Italia, Juiz de Fora, Ano 2, n. 10, 2021 – Lucimar Grizendi | A imigração italiana em Minas Gerais a partir de uma experiência pessoal: um breve relato


Até então, eu nunca tinha parado para pensar em como era minha vida dentro de uma família italiana. Tudo sempre pareceu bem natural! Convivi com meus avós paternos, de criança a adolescência (até os quinze anos de idade), quando eles faleceram. No almoço de domingo, a macarronada, o barulho dos homens com o jogo de baralho, o brilho nas panelas de alumínio e as rosas no quintal são algumas das lembranças que tenho.

Em agosto de 2014, fiz uma viagem à Itália que me fez prestar atenção aos sentimentos e lembranças que eu desconhecia. Minha primeira inquietação era descobrir onde meus avós haviam nascido na Itália. Eu tinha somente a cópia do passaporte da família de meu avô, Giuseppe Grisendi, em que constava que o documento havia sido emitido em Montechiarugolo, província de Parma, em 1897. Eu e minha irmã conseguimos nos comunicar com uma funcionária do “MUNICIPIO” de Montechiarugolo, que gentilmente se dispôs a fazer a pesquisa de nascimento de meu avô naquela localidade. A resposta negativa veio por e-mail.

Passaporte Familia Grisendi – Acervo Pessoal

Eu também não tinha informações quanto ao local de nascimento de minha avó, Angélica Giselda Pelagaggia (o original é Pelagaggi). Foi então que,  encorajada por meus parentes, decidi pesquisar onde eles haviam nascido. Sempre contei com a ajuda de meus familiares e isto trouxe uma aproximação prazerosa, um sentimento de pertencimento e de afinidade com a Itália. De início, criei um grupo no Facebook e convidei os irmãos, sobrinhos, primos, que por sua vez convidaram outros primos. Um reencontro através de fotos, histórias, documentos e lembranças. A outra iniciativa foi me aproximar da língua, da cultura e da história italiana.

Procurei informações em todos os documentos a que eu tinha acesso, partindo da minha certidão de nascimento. As primeiras informações sobre a família Grisendi foram fornecidas pelo pesquisador italiano Corrado Trufelli, responsável pelo Centro di documentazione sull’emigrazioneparmense, queme enviou a imagem do registro da família Grisendi em Quattro Castella (Emilia-Romagna), onde constava o nascimento do meu tetravô, em 1789. Isso me instigou a estudar minha genealogia e também a temática da emigração/imigração italiana. Descobri mais tarde, analisando as possíveis trajetórias que a família havia feito em busca de trabalho e de melhores condições de vida, que meu avô nascera em Gattatico, província de Reggio Emilia, também na Emilia-Romagna.

Com relação à família Pelagaggi, as descobertas vieram através de dados compartilhados no Family Search por descendentes do meu tio-avô, que emigrara para a Argentina no início do século XX. A árvore genealógica e as imagens disponibilizadas nesse site, em parceria com o Portale Antenati, permitiram-me ter o registro de nascimento de minha avó na pequena frazione de Isola di Fano, Fossombrone, província de Pesaro e Urbino, em Marche. O acesso aos registros me levou até meu tetravô, nascido na primeira década de 1800. Tive ainda o privilégio de conhecer e me relacionar com primos residentes em Fossombrone.

Isola di Fano – Acervo pessoal

Ao pesquisar nos livros da Hospedaria Horta Barbosa, digitalizados e disponibilizados no site do Arquivo Público Mineiro (APM), encontramos informações importantes sobre as famílias, como a composição familiar, a idade, a profissão do chefe da família, o local de procedência e de embarque na Itália, o nome do navio, a data de entrada e de saída da hospedaria, o local de trabalho para onde foram encaminhados e o nome de quem os contratou. Essa hospedaria, localizada onde hoje funciona o 10° Batalhão da Polícia Militar em Juiz de Fora, recebeu imigrantes de várias nacionalidades durante o período de 1888 a 1901.

Conforme os registros, a família Grisendi embarcou em Gênova no Vapor Les Alpes, desembarcou no Rio de Janeiro e deu entrada na Hospedaria de Juiz de Fora em 22 de maio de 1897. Junto com as famílias Borognesi, Ebalini e Tozzi, que vieram no mesmo navio, seguiram de Juiz de Fora para a fazenda Sant’Anna, no distrito de Sarandira, contratados pelo Major Alexandre Belfort Arantes. Pesquisando sobre esse navio, identificamos no APM o registro de chegada de italianos em maio, agosto e novembro desse mesmo ano. Quanto aos destinos das famílias, receberam imigrantes a região de abrangência de Juiz de Fora à época (Matias Barbosa, Pequeri e Coronel Pacheco), outras cidades da Zona da Mata, do Campo das Vertentes, do Sul/Sudoeste, da Região Metropolitana de Belo Horizonte,  do Oeste de Minas e outros locais mais distantes, como as cidades de Minas Novas (Jequitinhonha), Sacramento (Alto Parnaíba/Triângulo Mineiro) e Teófilo Otoni (Vale do Mucuri). Grande parte dos imigrantes eram agricultores e foram para as lavouras de café. As cidades absorveram trabalhadores com qualificações como pedreiro, alfaiates, carpinteiros, ferreiros e tijoleiros. Inaugurada em 1897, Belo Horizonte recebeu grande parte dessa mão de obra.

A família Pelagaggi também embarcou em Gênova no vapor Bearn, desembarcou no Rio de Janeiro e deu entrada na hospedaria de Juiz de Fora em 22 de março de 1899. Junto com outras duas famílias, Berluti e Valentino, seguiram para Bicas. No registro não há menção do contratante, mas indica que vieram “a chamado” de uma pessoa cuja grafia não identificamos. Segundo os registros, os italianos vindos pelo vapor Bearn deram entrada na hospedaria em janeiro, março e junho. Observamos um número expressivo de agricultores que ficaram na então região de abrangência de Juiz de Fora, bem como em Leopoldina e em Muzambinho.   

Tia avó Maria Pelagaggi e a filha Nilza. Casa d’Italia 1957 – Acervo Pessoal

No mesmo distrito de Sarandira, as famílias Pelagaggi e Grisendi se encontraram ainda no final do século XIX e, em 29 de janeiro de 1910, Angelica e Giuseppe se casaram.

Essas descobertas não teriam sido possíveis sem os acervos disponíveis. Os “locais de memória” têm que ser preservados e estruturados de forma a possibilitar essas pesquisas, democratizando o acesso. Entendo serem importantes os recursos humanos e tecnológicos para as consultas on-line. Infelizmente, a consulta às imagens dos livros da hospedaria está inacessível porque o programa utilizado, o Adobe Flash Player, foi encerrado, o que inviabilizou a continuidade dessa pesquisa.

Esses locais nos possibilitam conhecer a história dos que nos antecederam, ajudam-nos a reforçar a identidade de quem somos. Enfim, são imprescindíveis à nossa existência enquanto ser humano. Em nossa cidade, um dos “locais de memória” mais importante que temos, a Casa D’Italia, atiça nossas lembranças, não somente pela estrutura física que sobrevive há 80 anos, mas pelas histórias que carrega e que precisam ser reveladas.


Fontes:

Arquivo Público Mineiro: http://www.siaapm.cultura.mg.gov.br

Centro di Documentazione Sull’Emigrazione Parmense: www.emigrazioneparmense.it

Family Search: https://www.familysearch.org

GRIZENDI, Lucimar T. Mobilidade do Imigrante Italiano em Minas. IX Seminário da Imigração Italiana em Minas Gerais: https://www.youtube.com/watch?v=s5MzTVSPl2U&t=157s

GRIZENDI, Lucimar T. A produção de conhecimentos sobre a imigração italiana na Zona da Mata Mineira, Microrregião de Juiz de Fora, a partir dos dados da Hospedaria Horta Barbosa e outras fontes: http://www.ponteentreculturas.com.br/revista/GRISENDI_PELAGAGGI.pdf

GRIZENDI, Lucimar T. FAZENDA OU CIDADE: O DESTINO DOS IMIGRANTES ITALIANOS NA ZONA DA MATA MINEIRA, JUIZ DE FORA, NO PERÍODO OITOCENTISTA: http://www.ponteentreculturas.com.br/revista/2019/fazenda_ou_cidade_o_destino_dos_imigrantes_italianos_na_zona_da_mata_mineira,_juiz_de_fora,_no_per%C3%ADodo_oitocentista.pdf

Portale Antenati: http://www.antenati.san.beniculturali.it


Lucimar Grizendi

Graduada em Serviço Social pela UFJF e Mestre em Serviço Social pela PUC-Rio. Pesquisadora na área de imigração italiana em Minas Gerais.


2 comentários em “A imigração italiana em Minas Gerais a partir de uma experiência pessoal: um breve relato

  1. Obrigada por partilhar um pouquinho sobre os descendentes Italianos, tenho um grande desejo de investigar sobre os meus avós por parte de pai, mas não consegui encontra nada até agora. Só sei que foram para Senador Cortes.

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