Giovana Castro, Luis Roberto Silva Cruz e Vanessa Lopes pelo Centro da Memória Negra Virtual de Juiz de Fora

Revista Casa D’Italia, Juiz de Fora, Ano 2, n. 8, 2020 – LABHOI/Afrikas UFJF | Giovana Castro, Luis Roberto Silva Cruz e Vanessa Lopes pelo Centro da Memória Negra Virtual de Juiz de Fora


CONSIDERANDO a importância que tem a colônia italiana da formação histórica de nossa cidade consubstanciada na cultura e trabalho de sua gente cujo símbolo concreto é a Casa D’Italia[1]

Escrever um texto sobre a cidade em que a gente nasceu é sempre um exercício de equilíbrio entre os ditos, os esquecidos e as construções de narrativas feitas na brecha entre os anteriores. Quando recebemos o convite para produzir um material a ser publicado pela revista da Casa de Itália nossa primeira reação veio na pergunta: o que o Centro Virtual da Memória Negra tem a dizer numa revista produzida por um espaço que nasceu para louvar a presença italiana na cidade sem relaciona-la ao passado escravocrata? E, confessamos, nossa primeira resposta era uma recusa. Mas, seduzidos pela proposta de ressignificação do espaço, acabamos nos rendendo e cá estamos para uma conversa com vocês.

Me lembro de ter estado na Casa de Itália umas cinco vezes nesses meus 46 anos de vida. Uma delas foi profundamente significativa: minha festa de formatura em História foi lá, fato que pesou profundamente para dar vida a esse texto que vocês leem agora. Me lembro que a época procuramos diversos espaços que coubessem em nossos parcos recursos e, dos mais centrais, a Casa de Itália tornou-se o mais viável. Quando contei pros meus pais minha mãe perguntou: mas eles vão deixar a gente entrar lá? Curiosa, deve ser lindo lá dentro…. Meus pais nasceram em 1940 e nunca haviam posto os pés dentro da Casa de Itália.

Todo esse circunlóquio é para marcar quantas questões estão envolvidas na gestão e conservação de espaços de memória urbana e como, mesmo em sua centralidade visual e territorial, essa memória se faz numa perspectiva do que decide lembrar e de como essas histórias são narradas a partir de um olhar particular sobre cultura. A Casa de Itália foi um dos primeiros imóveis tombados em Juiz de Fora e um dos argumentos utilizados para sua preservação foi seu papel na preservação da cultura juiz-forana. Essa Juiz de Fora que passa todo século XIX como uma das maiores cidades escravistas da Zona da Mata e que, no pós abolição, recebeu levas sucessivas de libertos vindos de cidades próximas em busca de uma vida menos áspera.

Assim, chegamos no que poderia ser considerado um paradoxo. Como uma das maiores cidades escravistas do Brasil no XIX, que já contava com uma grande população de pessoas negras libertas e nascidas livres aqui fincando raízes, mesmo antes do 13 de maio, pode ter sua cultura representada de forma “concreta” na Casa D’ Itália? E aqui é fundamental frisar que não se trata de questionar a legitimidade do tombamento do garboso edifício do n° 2585 da Av. Rio Branco, nem tampouco colocar em xeque a imigração italiana para a região. Nossa provocação é um chamado à reflexão que nos permita pensar uma solução para esse paradoxo: quais os signos recebem a chancela de traduzir a cultura e as memorias de uma cidade direta e visceralmente ligada à ancestralidade negra?

E então? Pensaram? Se sim, o convidamos a ler nossa resposta, que por fim, é bem simples. Não existe um paradoxo! A Casa D’ Itália, bem como a cultura juiz-forana que ela representa e abriga, historicamente, não fazem parte da mesma cidade em que vive o povo negro. A questão levantada pela mãe da formanda (e hoje doutoranda) Giovana, é imperativa para essa conclusão. Quando ela questiona se a família poderá de fato entrar no local escolhido para a festa de formatura, não o faz de forma ingênua. É muito mais uma pista para refletirmos como Juiz de Fora tem gerido os seus espaços ao longo do tempo e como essa gestão é permanentemente atravessada pela lógica segregacionista.

Essa geografia da exclusão, herdada de uma lógica de estruturação racializada pelo viés escravocrata, parece se dar de maneira especialmente natural nessa Manchester Mineira que em 2018 aparece rankeada com a terceira cidade brasileira com maior desigualdade entre negros e brancos[2]. Essa desigualdade também se expressa na memória do município, que via de regra, sempre procura elevar de forma ufanista as “raízes” europeias da cidade moderna, numa narrativa que se perpetua no imaginário, mas também nas construções e imagens que ratificam como os desejos de preservação, representação e significação se constituíram silenciando e ocultando a presença negra na cidade. Assim, locais como a Casa D’ Itália, onde a “boa sociedade” reunia-se para fortalecer seus vínculos e marcar a presença de determinados sujeitos na espacialidade urbana acabaram por se transformar em modelos basilares de histórias parciais, que pouco a pouco, foram se confundindo com uma história única promovida pela ação prática e discursiva de invisibilização de tudo aquilo que não era entendido como digno de narrativas, atravessados por uma perspectiva que dizia que ali não era seu lugar.

Dilui-se assim nosso aparente paradoxo, solucionado pelo desenho da face de Juiz de Fora como uma cidade partida: distinta em suas duas faces. Uma que se proclamou central e que se firmou como signo da modernidade a partir da negação de seu passado escravista, e outra, fruto vivo desse passado, marginalizada, esquecida, alijada das histórias das efemérides e das construções cujo trabalho erigiu.  Essas dinâmicas que marcaram a formação histórica dessa “cidade partida” têm impacto direto nas relações sociais, econômicas e políticas da atualidade e urge que sejam revistas através de um comprometimento coletivo na construção de uma sociedade que não mais silencie ou hierarquize memórias.

É com base nessa urgência, misto de resgate memorialístico e reparação histórica, que o LABHOI/AFRIKAS UFJF vem procurando reunir os resultados das pesquisas bem como registros de toda natureza que contribuam para a reversão da invisibilidade da experiência negra que ainda persiste na memória pública da cidade. É também nesse espírito que foi criado em O “Centro Virtual da Memória Negra de Juiz de Fora”, projeto empreendido pela rede de pesquisa LABHOI/Afrikas UFJF e que tem como cerne a defesa permanente da necessidade dialógica e colaborativa que nos permita construir um compromisso público de ressignificar uma história da cidade e seus espaços efetivamente comprometida com TODAS as memórias, de forma a que possamos, em breve, traçar uma linha discursiva que coloque essas duas cidades num mesmo plano.   


[1] Processo de tombamento da Casa D’Italia de Juiz de Fora, pg 04.

[2] https://globoplay.globo.com/v/7177920/ . Juiz de Fora é a terceira cidade do país com maior desigualdade racial. 7 min. Exibição em 21 nov 2018


Referências bibliográficas:

BATISTA, Rita de Cássia Souza Félix. O negro Trabalho, sobrevivência e conquistas em Juiz de Fora de 1888 a 1930. Juiz de Fora – MG: Funalfa Edições: 2006.

FRANCISCO, Raquel Pereira. Pequenos Desvalidos: a infância pobre, abandonada e operária de Juiz de Fora (1888-1930). 2015. Tese (Doutorado em História) – Universidade Federal Fluminense.

GUIMARÃES, E. S.. Múltiplos Viveres de Afrodescendentes na Escravidão ao e no Pós-Emancipação: família, trabalho, terra e conflito (Juiz de Fora – MG, 1828-1928). 1ª. ed. São Paulo, Juiz de Fora: Annablume, FUNALFA Edições, 2006. v. 1000. 348p .


LABHOI/Afrikas UFJF

Foi criado em 2018, como extensão da linha de pesquisa Memória, Áfricas, Escravidão do LABHOI – REDE DE PESQUISA, com sede na Universidade Federal Fluminense. Fundado na UFF, em 1982, desde então o LABHOI se consolidou como um centro de referência, nacional e internacional, na produção, arquivamento e análise de fontes orais e visuais, na construção de arquivos digitais, discussão sobre história pública, memória e educação.  Ver mais em: https://www.ufjf.br/labhoi/


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