O educar para o patrimônio: um desafio de todos

Revista Casa D’Italia, Juiz de Fora, Ano 2, n. 7, 2021 – Carine Silva Muguet | O educar para o patrimônio: um desafio de todos


O caminhar pelo centro da cidade pode assumir novos aspectos quando nos abrimos a sons, cores e cheiros do cotidiano urbano. Quem nunca se guiou pelo Apito do meio dia no calçadão da Halfeld e marcou um encontro no pirulito do Parque Halfeld? E quem nunca se referiu à pipoca do Cine Palace mesmo que o cinema nem exista mais? O patrimônio cultural se faz nessa percepção do cotidiano, dos símbolos que figuram nossa identidade e através da forma em que nos conectamos com o espaço em que habitamos.

A diversidade de sentidos que uma imersão pelo simples caminhar atento pela cidade pode provocar e a percepção dos elementos culturais que fazem parte do contexto urbano – sejam elas positivas ou não – podem configurar projetos diversos. Esse processo educativo faz parte do reconhecimento do repertório de cada indivíduo, formado por suas vivências e percepções do meio. Quando pensamos em eventos de educação para o patrimônio, normalmente relacionamos a produções de entidades ligadas ao poder público. Porém, é preciso que a sociedade assuma cada vez mais o papel de agentes do patrimônio cultural, numa relação de participação ativa dos processos de patrimonialização de bens culturais.

Folia de Reis no bairro Ipiranga em 6 de janeiro de 2020. Autoria: Carine Muguet

Nos espaços de gestão percebemos, ainda que a passos lentos, um movimento positivo de rompimento com as práticas naturalizadas de educação formal – da mera exposição de fatos históricos e caracterização de estilos das construções tombadas. Ainda que sejam recentes os debates em torno da necessidade de ressignificar elementos patrimonializados pelo Estado e ratificados por muitos centros culturais, museus e afins, se faz necessário mais do que acompanhar. A ação passa pelo envolvimento com a sociedade.

A educação para o patrimônio requer o caminhar no roteiro da “memória exemplar”, nos termos de Todorov (2000), para transformar o “lugar de memória” num espaço de reflexão crítica, que tem o indivíduo como agente ativo no processo de ressignificação. A partir disso, ao pensar nos espaços públicos edificados e no processo histórico de formação deles, devemos levar em consideração os sujeitos, numa construção coletiva e democrática do conhecimento. 

É comum a crítica a espaços culturais como museus, bibliotecas e prédios públicos em geral, como locais pouco atrativos, seja pela arquitetura rebuscada, pelo tipo de uso ou por não representar o sentimento de pertencimento, ou seja, distantes do repertório do sujeito. Nessa perspectiva, Pierre Nora (1993) identificou que quando a sociedade passou a considerar um elemento material ou imaterial, como significativo elo, parte da identidade coletiva, foi possível compreender os sentidos de preservação de determinados elementos.

Em recente publicação local, a professora do Centro Cultural Brasil Angola (CCBA), historiadora Ana Paula Bôscaro analisou os lugares de memória na cidade de Juiz de Fora, sobretudo, ruas com nomes de grandes escravocratas que, por décadas, estamparam placas de homenagens, bustos e denominaram edifícios. (TRIBUNA DE MINAS, 12 de julho de 2020) Na análise, ela verificou a cristalização de memórias da elite juiz-forana, reforçada pelos escritos tradicionais sobre a cidade e replicada não apenas pelos gestores públicos, mas por muitos proprietários e administradores de bens tombados, centros culturais e até na educação formal, sem que haja o devido olhar crítico.

O processo de reconhecimento de todos os indivíduos que fizeram parte da formação da cidade é um direito à memória. Nesse sentido, a ocupação dos espaços culturais preservados deve ser incentivada e potencializada. Na proposta de educação “para” o patrimônio, o objetivo é romper com os modelos tradicionais, buscando aproximar o público do objeto. O cidadão deve ser visto, portanto, como sujeito ativo, produtores e protagonistas da cultura. Embora seja comum o relato de moradores que nunca visitaram um prédio tombado ou já passaram por praças e monumentos sem notar ou refletir sobre seus significados, o desafio é fomentar diferentes meios de contato com os bens culturais.

Assim, é fundamental não perder de vista que a construção de novos sentidos aos bens culturais é um movimento coletivo e multifacetado. E isso requer atenção aos interesses do presente, buscando a compreensão de como esses bens foram tomados como de interesse de preservação no passado. A integração dos centros de ensino, comunidade, gestores desses bens culturais e dos espaços públicos é fundamental, devendo buscar ampliar os meios de diálogo e estabelecer políticas públicas de preservação consonantes com o interesse social.

Nesse sentido, toda a comunidade pode compreender o seu papel de mediador na educação para o patrimônio, atuando em conjunto ao poder público, na busca por instrumentos mais cidadãos de diálogo, em prol da construção coletiva de estratégias de ressignificação dos bens culturais. Ao estimular a participação ativa das comunidades nesse processo de apropriação dos patrimônios, estaremos potencializando o interesse das comunidades na preservação e salvaguarda.


Fontes:

TODOROV, Tzvetan. Los abusos de la memoria.  Barcelona: Paidós, 2000

NORA, Pierre. Entre memória e história: a problemática dos lugares. Projeto História. São Paulo: PUC-SP. N° 10. 1993

OLIVEIRA, Ana Amélia R.; GOMES, Alexandre O. A construção social da memória e o processo de ressignificação dos objetos no espaço museológico. Revista Museologia e Patrimônio. V. 3, N.2, jul-dez.2010

BÔSCARO, Ana Paula Dutra. Lugares de memória. Juiz de Fora: Tribuna de Minas. Caderno Tribuna Livre. Edição 12 de julho de 2020. Acesso em 10 de janeiro de 2021 <https://tribunademinas.com.br/opiniao/tribuna-livre/12-07-2020/lugares-de-memoria.html>


Carine Silva Muguet

Mestre em História Social pela UFRJ, Licenciada e Bacharela em História com ênfase em Patrimônio pela UFJF. Atualmente é servidora pública da Fundação Cultural Alfredo Ferreira Lage (Funalfa), onde desempenha trabalhos de pesquisa para reconhecimento e salvaguarda de bens culturais no município de Juiz de Fora. Atuando como historiadora na gestão e conservação de acervos da Fundação, é ainda supervisora de Pesquisa, Memória e Educação, desenvolvendo projetos educativos e atendimento a pesquisadores.


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