Notas de uma viajante: a turbulência vivida pelos estados latinos – a brutalidade humana em contraste com a natureza bruta.

 Como as manifestações afetam a vida dos vizinhos hermanos e geram arte urbana

Revista Casa D’Italia, Juiz de Fora, Ano 2, n. 20, 2021 – Renata Vargas |  Notas de uma viajante: a turbulência vivida pelos estados latinos – a brutalidade humana em contraste com a natureza bruta.


Os efeitos “cavalares” da pandemia de Covid-19 demoraram a chegar na América Latina, uma das últimas regiões afetadas pelo vírus e a implementar as medidas de combate ao contágio. Mas o pandemônio vivido pela região vem se arrastando em doses homeopáticas com efeitos brutais. Há anos temos sofrido com o aprofundamento da crise econômica que sucateou sistemas públicos de saúde, precarizou as condições de vida dos trabalhadores, provocou impacto nos indicadores de bem-estar dos latinos e fortaleceu ainda mais o abismo entre ricos e pobres. Resultado? O lado mais fraco desta corda histórica resolveu denunciar as falências de seus Estados, escancarando a crise do sistema capitalista que coloca em xeque a vida do planeta.

O vírus foi apenas a cereja do indigesto bolo que colocou em evidência o colapso vivido por países como o Chile, Paraguai, Argentina, Peru, Equador, Colômbia, Venezuela, Bolívia, Guatemala, Haiti e, agora, o Brasil. As manifestações de rua promovidas pelos colegas vizinhos derrubaram um presidente interino (Peru), exigiram nova Constituição (Chile), reivindicaram dignidade alimentar (Argentina) e pedem (a conjugação é esta mesma, no tempo presente) o fim de governos corruptos que colocam em risco as democracias de seus países. 

Outubro de 2019 e o início da série de manifestações. O movimento dos chilenos é considerado o maior desde a volta da democracia. Eles exigem a implementação de reformas sociais profundas.
Fonte: G1 25/10/2019 – Foto: Pedro Ugarte/AFP

A expectativa (sempre otimista) é de que haja mudanças nos parâmetros econômicos e uma tendência de ampliar o questionamento sobre o atual modelo político adotado na região colocando o Estado liberal contra a parede. É ele que provoca a insatisfação com a desigualdade, neste momento, abissal! Mas, a indignação é secular. São séculos e séculos de dependência econômica, concentração de riquezas, pobreza abundante, corrupção e violência. 

Violência brutal. Uma brutalidade humana em contraste com a natureza bruta de um continente premiado pela beleza. Acompanhar esta movimentação com o olhar de quem pesquisa as relações humanas é ter a certeza da inserção histórica. Participar de um momento em ebulição como jornalista, professora, doutoranda em História é desembarcar de uma aventura que jamais terá fim no meu “circuito interno”. Talvez a palavra “bruta” tenha sido a mais usada por mim desde que cheguei da última viagem, um mês antes do pandemônio se instalar por todo o mundo. 

Apesar do verbo “chegar” denotar o fim de um movimento, são os meus pensamentos que ainda se recusam a desembarcar em solo firme. Permanecem em trânsito entre o Chile, a Bolívia e o Brasil, vagueando em busca de palavras que lhe deem forma. A natureza bruta ainda impacta na minha mente, em lapidação. O movimento é o responsável pela transformação humana. A gente embarca bruta e retorna em mutação.

Assim encontrei Santiago, ainda em meio à sobrevida de uma convulsão social. Uma cidade mutante depois que mais de um milhão de chilenos saíram às ruas em protesto contra a brutalidade de um sistema que sobrevive às custas da miséria humana. Um jogo bruto. Um embate bruto. O resultado desta guerra impactou meu olhar curioso, orgulhoso e também envergonhado. Impossível sair ilesa de um campo minado. Nem os chilenos, nem eu, ali, em estado bruto, afetada por uma coragem admirável – a deles. 

Nesta disputa entre o gigante e o tacanho, só o grito não resolve. Talvez a brutalidade sirva para chocar e promover a mudança, o movimento. Variar a posição. Mudar a perspectiva. Invadir e abrutalhar as ruas. Do bruto aprimora-se a alma. Da alma flui a arte. E as cores, os traços, os ícones de um movimento histórico misturam-se às pedras lançadas, ao gás lacrimogêneo, às máscaras, aos tiros, aos escudos, às armas, aos tanques. Guerra desigual que destrói, cega a luta pela consciência, promove a cegueira literal mas também provoca o nascimento da arte, em nova perspectiva social.

Esta percepção artística me tirou da terra e me trouxe à vida. Ao sair do metrô, vinda do aeroporto, meu estado bruto de uma viajante sempre “disposta a” foi ao encontro das paredes grafitadas. Meu olhar era do bebê ao nascer. Faminto por ver. Os olhos em sangue nos muros me acompanharam. Me inquietei. A arte tem dessas coisas. Fiquei chocada. A brutalidade assusta mesmo. Me encantei. Me alterei. “A revolução será feminista”, diziam as frases. Sou feminina. Meu movimento circulante pelas ruas e avenidas lapidou minhas reações do que vi na capital chilena.

Persisti na andança. Busquei sentido na bússola interna seguindo em direção ao norte do país: Deserto do Atacama. A natureza em estado bruto. A aridez do clima em contraste com a leveza do belo. Como imaginar uma secura tão atroz tocar tão sensivelmente a alma? Como compreender que as cores seguiriam no meu encalço? De tons vivos e fortes da capital à paleta terrosa do deserto. Do fogo das trincheiras de Santiago aos vulcões da Cordilheira dos Andes. Do centro metropolitano que extravasou a revolta social, à erupção dos elementos químicos nos Geysers. Ah, Chile… um mestre na arte de ensinar vida! A descoberta de que homens são a natureza efervescente. E que a natureza ferve nas entranhas da terra que cospe lava e rochas que se amontoam com a precisão do traço do artista. As pedras lançadas na capital. A natureza que as esculpe. 

Lagoas coloridas, vegetação de cores nunca vistas. A simulação da superfície da lua. Região inóspita é o deserto de onde a capital parece ter se inspirado – ruas e avenidas sem condições de habitabilidade. Como permanecer ereto num ambiente em que a sobrevivência é ameaçada dia após dia pela exploração brutal do lucro? Diante da natureza bruta, animais buscam a existência sem a intervenção humana. É o homem que desvirtua o sentido natural da vida. Não seria o equilíbrio? As condições igualitárias? Por isso, resistir para existir. 

Deixo para trás as cores atacamenhas e me cedo aos rigores da altitude. 4.900 metros na fronteira entre os dois países, Chile e Bolívia. Penso se a intenção é avaliar meus limites da existência. Resistir para existir. Respirar é pirar. Cair para fora de si, saltar no abismo do desconhecido. Tive medo do coração disparado mesmo inerte, mas segui para o Salar de Uyuni, o maior do mundo e a melhor enganação acerca das fotos em perspectiva.

E foi assim, brincando com a imagem, que me despedi desta expedição que testou meus limites físicos, espirituais e humanos. Saí de casa bruta. Voltei lapidada. As cores e vozes que vi e ouvi alteraram meus ruídos internos. Nunca mais serei eu mesma. Gosto disso. Minha natureza bruta dá lugar à inquietude itinerante, de viajante. Rumo à próxima manifestação da minha alma! Resistindo e vivendo! Que nós e nossos vizinhos encontremos na natureza bruta o estímulo à brutalidade da transformação. Que seja um caminho sem volta! 


Renata Vargas

Jornalista, professora do UniAcademia e doutoranda em História / UFJF