Conselhos de Murilo sobre a experimentação do tempo

Revista Casa D’Italia, Juiz de Fora, Ano 2, n. 13, 2021 – Gyovana Machado | Conselhos de Murilo sobre a experimentação do tempo


Alguns irão dizer que, em Murilo Mendes, a ideia de o homem pertencer ao futuro está intimamente ligada a uma perspectiva de eternidade. Dando cabo a esse tipo de reflexão, o autor nos trouxe, ao fim, um conselho. Um conselho de sabedoria, um conselho para esperança, um conselho enquanto resistimos.

Pensar História é pensar que o ser humano no tempo está imerso em seu respectivo momento, coberto das razões de ser e viver de sua determinada estação. Por isso, costuma-se enaltecer algumas figuras que, nascendo em um determinado presente, agiram com uma sensibilidade inédita e, assim, dizem: “fulano (a) foi uma pessoa fora de seu tempo!”. Veja, aqui, entendemos por sensibilidade um conjunto de ações que formam um sujeito, por exemplo, a observação do entorno. Essa movimentação, inserida na História, também diz respeito a experimentações do tempo e como tais experimentações (sejam elas coletivas ou não) expressam certa dominância temporal umas sobre as outras. Explico. A forma com que um grupo ou algum indivíduo interpreta e julga o presente em que está é fundamental para que, este mesmo grupo/sujeito, se lance naquilo que Reinhart Koselleck chamou de “horizonte de expectativa”, ou seja, a forma com que se atribuirá ideias num tempo futuro.

A experimentação do tempo para o cristianismo, por exemplo, foi marcada pela primeira vinda de Cristo e pela promessa de retorno; assim, a comunidade cristã que aderiu a essa teleologia age em seu determinado presente atribuindo ações que corroboram com um fim que “quanto ao dia e à hora ninguém sabe, nem os anjos dos céus, nem o Filho, senão somente o Pai” (Mateus 24:36) – portanto, situa-se no futuro. Existe, nesse último caso, a dominância do futuro sobre o presente, como podemos observar, inclusive, em um trecho da Carta que Paulo, o apóstolo, escreveu aos romanos: “Porque para mim tenho por certo que as aflições deste tempo presente não são para comparar com a glória que em nós há de ser revelada” (Romanos 8:18). Há sempre uma expectativa situada no futuro, pois, estando a promessa nesse tempo, de um respectivo presente lançam-se ideias direcionadas ao futuro.

Para François Hartog, há uma reflexão, ainda, sobre “presentismo” (que seria uma estrutura de experimentação temporal) onde se encontra no presente uma ampla prevalência sobre passado ou futuro, assim, a ideia de expectativa (horizonte de expectativa) sequer existiria, bem como a experiência (espaço de experiência), que é um conceito também do Koselleck que anda em conjunto com o primeiro suscitado.

Aqui, já percebemos que a proposta de Murilo Mendes diz de uma forma de experimentação do tempo, ainda que busque a libertação dele. A transcendência (que seria o modo de libertação do tempo) do sujeito encontra no futuro certa visibilidade, como se o que estivesse opaco pudesse ser melhor contemplado e, para que isso ocorra, basta um toque na eternidade, ou seja, basta que nos desprendamos da condenação do corpo a morte. O conselho de Murilo é subversivo pois, lançando o sujeito a um espaço de contemplação (veja, no futuro temos o poder de observar o que se passou), promove a ampliação daquele que mantém os pés no presente. Bom, pés no presente e olhos no futuro.

Sobre a esperança: “Um dia a morte devolverá meu corpo, estes olhos verão a luz da perfeição e não haverá mais tempo.” (MENDES, 1994, p. 108) e, sobre a forma: “E ilumina-nos fora do tempo, (…)” (MENDES, 1994, p. 251). Um espaço sem o domínio do tempo é fadado à morte, essa é a luz da perfeição. Eis aqui os conselhos de Murilo.


Referências:

MENDES, Murilo. Poesia Completa e Prosa. Rio de Janeiro: Ed. Nova Aguilar, 1994.


Gyovana Machado

É cristã, formada no Seminário Rhema Brasil, graduanda em História pela UFJF, bolsista no LAHES, interessada nas grandes áreas de teologia, política e feminismo.


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