Arquitetura, educação patrimonial para crianças e a ideia de um Manual lúdico para exploração de edifícios históricos: a Casa D’Italia

Revista Casa D’Italia, Juiz de Fora, Ano 2, n. 13, 2021 – Thais Filgueiras | Arquitetura, educação patrimonial para crianças e a ideia de um Manual Lúdico para Exploração de Edifícios Históricos: A Casa D’Italia


“A Arquitetura existe para permitir outras coisas, e fica enriquecida por uma ligação íntima com essas coisas.”

PAUL GOLDBERG 

As construções têm a importante função de abrigo necessário para nossa sobrevivência, porém a importância da arquitetura ultrapassa essa esfera prática. A arquitetura nos envolve e está presente em nosso cotidiano, exercendo efeitos sobre nossas vidas individuais e coletivas. As edificações e a forma como configuram o espaço urbano com o qual se relacionam e ao qual transformam representam ideais sociais comunitários, as culturas que as constituem e também suas afirmações políticas, refletindo quem somos e o que queremos construir como sociedade (GOLDBERGER, 2011). O papel do ambiente construído está profundamente entrelaçado à criação de um senso de lugar e de nossas memórias, afetando diretamente nossa qualidade de vida individual e social e dotando-a de significados. Por isso, o ensino de arquitetura e urbanismo não deve de maneira alguma permanecer restrito às salas de aulas universitárias, sob pena do comprometimento da capacidade de construção de nossas identidades e das relações de pertencimento que devem ser experienciadas para que possamos perceber nossas realidades e afirmá-las ou transformá-las, na busca por um futuro melhor para todos. 

Com a maioria da população brasileira vivendo em cidades e com uma realidade sócio-econômica que demonstra desigualdades abissais, é necessário que as pessoas sejam capazes de desenvolver um pensamento crítico acerca desse ambiente construído. Ao conhecer a lógica construtiva e seu patrimônio, serão capazes de participar de forma ativa e responsável dos muitos debates que surgem na dinâmica da vida nas cidades. O período da infância é quando o impulso construtor está em seu auge e parece ser o momento mais adequado para que sejam introduzidos assuntos relativos ao meio no qual passamos grande parte de nossa vida social e particular.

A educação em arquitetura para o público infantil, dentro do currículo de ensino nacional, já foi abordada em muitos países europeus com êxito. No Brasil, as iniciativas ainda são incipientes, mas já podemos identificar algumas obras pioneiras que apontam para esse caminho, como a Série Casacadabra, produzida pela Editora Pistache, que traz, em seus dois volumes já lançados, informações e atividades lúdicas para que os pequenos possam fazer uma “leitura” das cidades através de seus elementos e vivenciá-la como local de encontro, aprendizado e construção de memórias. Acredita-se que esse processo participativo, de interação dinâmica com o ambiente construído, incutido desde a infância, seja capaz de proporcionar uma melhor percepção e maior riqueza nas formas de interação com o espaço urbano e seus edifícios, criando pessoas capazes de perceber de forma mais sensível a cidade e seus códigos, conscientes de que fazem parte da criação desse espaço físico e social e precisam participar de forma ativa na sua concepção e preservação.

A construção de uma identidade pessoal e social fomentada desde os primeiros anos de vida, pautada no respeito e na valorização da diversidade de indivíduos e grupos em relação a suas pertenças e opções, busca auxiliar a compreensão do conceito de evolução social através da contribuição de formas arquitetônicas e espacialidades urbanas, além de trazer à luz a ideia de que a salvaguarda do patrimônio deve ser inerente a todos nós, através da participação ativa na vida cívica. Ao valorizar projetos de educação patrimonial, estaremos estimulando educadores a trabalhar de forma prática e lúdica tais conceitos, possibilitando que o conhecimento seja disseminado de maneira divertida através de jogos e descobertas, estimulando desde a infância o apreço pela identificação e pela experimentação de elementos espaciais, arquitetônicos e decorativos, ensinando a enxergar a cidade e as edificações de maneira mais crítica e perspicaz.

O patrimônio cultural

A ideia do que pode ser considerado patrimônio cultural se mostra muitas vezes contraditória em virtude das diferentes escolas de pensamento que estão presentes na sua construção como conceito. No entanto, é indispensável para que possamos apreciar qual é seu papel na constituição de uma sociedade mais desenvolvida, pautada pela qualidade de vida de todos. Como acredita o professor António Lamas, da Universidade de Lisboa, “Só se pode proteger e valorizar o que se conhece e reconhece ter importância”.

O patrimônio cultural é um bem da comunidade e para a comunidade, uma herança que devemos reconhecer e da qual devemos participar para que seja possível conceber nosso futuro de maneira ativa. O acervo cultural de uma comunidade pode ser classificado em diversas categorias que perpassam os bens materiais e bens imateriais, entendendo que nossas vidas são feitas de memórias e simbologias. No presente caso, nos interessa a ênfase no conceito de patrimônio material, para que possamos reconhecer a importância que uma edificação construída pode agregar ao representar fisicamente valores e significados da vida de uma comunidade. Os bens construídos que possuem um valor representativo que extrapola a construção em si, de maneira isolada ou conjunta, são aqui denominados “Patrimônios Construídos” e podem constituir parte da história de uma região, país ou mesmo mundial. Essa classificação permite que a história e nossa cultura sejam preservadas. 

Bens que recebem essa classificação contam com instrumentos legais próprios de proteção, sendo o tombamento uma das possíveis ações utilizadas para que possam ser preservados, impedindo que venham a ser demolidos, destruídos ou mutilados. Através desse instrumento, ao qual está subordinado o Edifício da Casa D’Itália, os proprietários passam a compartilhar com o órgão público a gestão sobre seu imóvel. Preservar o local e sua memória é uma forma de reapropriar nossa cidade como espaço político e social, local onde podemos exercer nossa cidadania e resgatar nossos sonhos e vivências coletivas. Muitas vezes nossas memórias encontram-se guardadas nas paredes e formas de um edifício construído, constituindo assim um vínculo entre o subjetivo e o objetivo que as atividades de educação patrimonial esperam despertar.

Educação patrimonial na infância e a Casa D’Itália

A proposição de um processo educativo que tem como objetivo a vivência e a experimentação relativas a alguma forma de patrimônio cultural, buscando seu reconhecimento, valorização e preservação, pode ser considerada como forma de educação patrimonial.

Ao se pensar em um projeto de educação patrimonial, em primeiro lugar precisamos conhecer a realidade sociocultural do grupo para o qual esse projeto será direcionado, a fim de torná-lo significativo e capaz de despertar o processo de conhecimento, apropriação e valorização da herança cultural, através do contato direto com esse patrimônio e as experimentações possíveis. Assim, é importante que o local a ser explorado seja próximo da comunidade e suficientemente específico para permitir atividades interessantes e atrativas que se relacionem de maneira direta com o objeto de estudo.

Através da utilização desse importante instrumento, busca-se “alfabetizar” o indivíduo para que ele possa de fato ler e apreender sua cultura, de forma a compreender seu contexto em termos históricos, culturais e sociais e estar habilitado a interagir de modo que possa realizar as transformações necessárias para uma melhor convivência entre os indivíduos e seu meio-ambiente.

O processo de apropriação e (re)elaboração de conteúdos culturais se inicia no período da infância. Possibilitar a crianças vivências e diálogos com a cidade, através de atividades que abrangem a ludicidade necessária para despertar interesse e curiosidade pelo meio que habitam, pode contribuir de maneira positiva nesse processo de construção do conhecimento, ampliando relações de afeto, cuidado e responsabilidade, terminando assim por gerar o sentimento de pertencimento necessário para que se tornem, no futuro, engajados na construção desses ambientes.

Juiz de Fora conta com um rico acervo arquitetônico, com muitos edifícios de caráter histórico que devem ser reconhecidos e ressignificados por nossa população atual. Ao propor o trabalho de exploração lúdica de edifícios da cidade, sugerimos como primeiro modelo o Edifício da Casa D’Itália, pela facilidade de acesso, visto que está localizado na área central; por sua arquitetura histórica e representativa para a cidade, perpassando por momentos históricos importantes desde sua inauguração em 1939; e, principalmente, por sua forte ligação com questões educacionais e de instrução, visto que, em sua concepção, o edifício foi construído para abrigar, entre outras funções, um centro de instrução, biblioteca e escola. Além disso, é importante notar que ainda hoje a edificação representa a força de uma cultura e busca promover o estreitamento de laços com a comunidade local, contribuindo de forma bastante ativa para o fortalecimento do cenário cultural, instrutivo e educacional de nossa cidade, através de ações implementadas pelo atuante Departamento de Cultura implementado em 2015.

Por se tratar de um interessante exemplar arquitetônico no estilo Littorio, de características imponentes, erguido em composição bastante simétrica e geométrica, por vezes se assemelhando ao estilo Art Déco na marcação de linhas retas verticais e horizontais, permite que sejam trabalhadas as geometrias e escalas de maneira simples e apreensível para crianças. A observação de elementos construtivos — como as proporções de vão de aberturas de janelas, as alturas de pé-direito e suas relações com um maior ou menor conforto térmico do edifício, a identificação de símbolos culturais nos elementos decorativos, a associação dos materiais utilizados e a tecnologia em desenvolvimento no momento de sua edificação — traz mais uma dimensão ao aprendizado, ligada à sua condição histórica. Por fim, as novas apropriações de uso do local, ajustadas à realidade atual, diferentes do momento de sua concepção, que se deu durante um período de ascensão do regime fascista no exterior, tornam-no um objeto que representa de maneira simultânea períodos de dor, mas também momentos de virtude e força de uma comunidade em sua luta. Sua significação, ainda que em certos momentos controversa em termos de memória, encontra-se constantemente repensada e redefinida, aplicando-se assim o que Meneses (1992) expõe como conceito de memória mutável, ou seja, como algo a ser elaborado no presente para responder a demandas da sociedade atual, e não apenas um acúmulo de informações que toma lugar no passado e permanece imutável.

Contribuindo para gerar reflexões sobre os caminhos de nossa sociedade, a promoção de atividades de educação patrimonial relacionadas à arquitetura e ao urbanismo pode ser vista como um modo de se criar instrumento capaz de proporcionar a diminuição da grande lacuna existente entre a sociedade e os debates sobre o urbano e o reconhecimento sobre o que é, ou pode ser, o espaço da cidade. Ao começarmos pelas crianças, podemos imaginar que a semente plantada no início da formação do indivíduo como ser social possa gerar olhares mais críticos e apurados para essa construção. 


Referências bibliográficas:

ENCINAS, Javier. Formación en Arquitectura desde la educación reglada: algunas líneas para el debate. Disponível em: https://arquitecturayeducacion.wordpress.com/2016/01/13/formacion-en-arquitectura-educacion-reglada/. Acesso em 22 junho de 2021.

GOLDBERGERGER, Paul. A relevância da arquitetura. (tradução Roberto Grey). São Paulo: BEI Comunicação, 2011.

GRUNBERG,  Evelina. Manual de Atividades Práticas de Educação Patrimonial. Brasília, DF:  IPHAN, 2007.

MENESES, U. T. B. de. A História, cativa da memória? Para um mapeamento da memória no campo das Ciências Sociais. Revista do Instituto de Estudos Brasileiros. Disponível em: https://www.revistas.usp.br/rieb/article/view/70497. Acesso em: 21 Junho de 2021.

NAVARRO, Virginia. Por que ensinar arquitetura para as crianças? Disponível em: https://www.archdaily.com.br/br/895416/por-que-ensinar-arquitetura-para-as-criancas. Acesso em: 25 Junho de 2021.


Thais Filgueiras

Possui graduação em Arquitetura e Urbanismo pela Universidade Federal de Juiz de Fora e Especialização em Gestão Cultural. Atualmente é arquiteta sócia e coordenadora no Escritório Falabella Arquitetura. Possui interesse nas relações entre arquitetura, cultura e sociedade.


%d blogueiros gostam disto: