ENTREVISTA: Iriê Salomão

Revista Casa D’Italia, Juiz de Fora, Ano 2, n. 12, 2021 – Departamento de Cultura | ENTREVISTA: Iriê Salomão


1 Como nasceu o menino Iriê e como nasceu o Iriê Salomão artista? O que cada um deles
enxerga (ou enxergou) pela janela?

Eu nasci aqui em Juiz de Fora, no bairro Santa Terezinha. Meu pai era advogado, perito em grafoscopia, e minha mãe, dona de casa. E meu pai, como era um grafoscopista e um calígrafo de mão cheia, sempre se dedicou muito a me ensinar a ter uma caligrafia bonita, a arredondar as letras e a observar as coisas à minha volta. Então, desde criança, sempre tive um olhar mais para a arte. E, na minha infância e adolescência, o mundo estava fervendo com o movimento hippie. Então eu, jovenzinho — sei lá, com 14, 15 anos —, comecei a fazer artesanato em couro, desenhar tamancos, que estava muito na moda… Tinha uma fabriqueta de tamanco perto da minha casa e eu desenhava. Com 14 a 16 anos, mais ou menos, eu conheci um senhor, chamado Nei Martins, que foi o homem que me ensinou a desenhar. Ele era um gigantesco, um monstruoso de um talento incrível para o desenho. E eu convivi com ele muitos anos, muitos anos mesmo. Sempre desenhando. Ficava até de madrugada, fim de semana, na casa dele, aprendendo a desenhar. E o meu primeiro quadro — que, vamos dizer assim, marcou início da minha carreira de artista — foi o primeiro prêmio municipal do salão de artes do Antonio Parreiras, em 1978. De lá para cá eu fui desenhando e estou desenhando até hoje.

Mas o menino e o artista… eles são uma coisa só. Não tem como você separar, porque o desenho, a arte em geral, é um ofício que te acompanha no modo de vida. Você vive como um artista, você trabalha como artista, você pensa como artista e principalmente, no meu caso de desenhista, eu olho como artista. Então, tudo que eu olho, olho procurando alguma coisa que, naquela imagem, possa se transformar numa obra de arte. Então, não há como separar. Eu não aguento quando a pessoa diz assim: “Eu enquanto artista, eu enquanto ser humano”… Você nunca deixa de ser humano. Se você faz o que você faz com o coração de quem quer fazer, com o estudo… Porque o tempo maior do artista nós passamos estudando. A obra que nós mostramos é resultado de um grande, longo, imenso período de observação e treino. Às vezes, você vê uma imagem e leva 10, 15, 20 anos para ter condições técnicas, até mesmo de produto, para poder fazê-la. Então, não há como separar o homem do artista e o artista do homem. Eles são uma coisa só.


2 A exposição Da Minha Janela é formada por 12 obras. Elas foram pensadas desde o início como um conjunto? Em que elas se aproximam e se distam?

Depois que a gente chega a uma certa maturidade de tanto estudar, pesquisar e trabalhar, a gente vai escolhendo quase que instintivamente. Por gosto, por desafio, vamos escolhendo os objetos, as imagens que nós queremos perpetuar nas telas. Então, essa exposição da Minha Janela é um resumão de muita coisa que eu venho desenhando ao longo dos anos. E é da janela mesmo. É da janela da alma, é da janela do olhar, é da janela da observação que nós vamos guardando as imagens, escolhendo o que vamos desenhar. Então, existe, sim, um conjunto, mesmo que não seja proposital falar: “Vou desenhar isto”. Mas existe um conjunto, que é o que você escolhe. Como você gosta de música. Eu falo isso porque é mais comum a pessoa ter um estilo de música. Às vezes, ela varia, pula para uma música diferente, mas ela sempre retorna ao mesmo lugar das músicas que ela gosta. O desenho é assim. Sempre retorno o meu olhar para dentro de Minas Gerais.


3 Como é seu processo artístico? A experiência da mineiridade permeia todo o seu trabalho?

O processo artístico é da pesquisa. Pesquisa, pesquisa, pesquisa, fotografa, olha. Alguns amigos, às vezes, mandam uma foto, a gente olha, analisa e recorta e faz, mas sempre pesquisa. Sempre pesquisa. Como dizia o Albert Einstein: “É 90% de transpiração e 1% de inspiração”.

E a mineiridade está presente porque eu sou mineiro, né? Eu sou mineiro e daqueles enjoados. Eu gosto de Minas Gerais, eu gosto de cidade pequena, eu gosto de estrada de terra, daquela gente calada, agachada na beira da estrada, eu gosto de olhar, eu gosto de ouvir, às vezes gosto de ficar vendo, simplesmente parado olhando. Quando você está parado olhando, na verdade, você não está olhando a paisagem. Você está olhando a sua alma, olhando as suas lembranças, olhando as histórias que alguém te contou, as histórias que nós vimos. Então, a mineiridade é muito presente no meu trabalho sempre.


4 Parece haver muito do historiador nessa mostra… Como é essa relação entre a formação em História e as artes plásticas?

A formação em História vem de um desejo que eu sempre tive de conhecer a história do Brasil. Eu sou um curtidor profundo. Não tenho uma visão acadêmica como a maioria das pessoas. Eu gosto do estudo solto, de ler sobre as pessoas, ler biografias, porque na biografia você conhece o mundo em volta. Eu gosto da história impessoal, da história das cidades, conhecer as cidades como eram 100, 200, 300 anos atrás. A história da cidade que nasce, cresce, se incha e depois murcha e vira quase que um museu a céu aberto. A história é fundamental. A história e a arte estão sempre de mãos dadas e sempre juntas comigo.


5 Além de Aleijadinho, tão presente nessa exposição, quais suas outras referências artísticas?

O mestre Antônio Francisco é uma presença constante pela riqueza do seu trabalho e eu sou um encantado com o barroco, o barroco mineiro, o barroco português, então eu estou sempre olhando essa escola como uma referência, porque ela está entranhada na história do Brasil, na construção de Minas Gerais, não é? Que é onde o Brasil nasce. Eu costumo dizer que o Brasil foi descoberto no Maranhão, depois foram para a Bahia, mas ele nasceu em Minas Gerais. É aqui que as raças se unem, se fundem. Negros, portugueses, índios, a gama de seres humanos que vem para esse país se reúne aqui. Agora, a influência tem de todo mundo. Todo mundo que a gente olha, estuda a obra dele, a gente recebe uma pitadinha de influência, né? Então, todos os pintores do passado falam alto, às vezes, com um pouco de luz, um pouco de cor, às vezes no traço do pincel, e eu gosto particularmente, demais, demais do Modigliani. O Modi anda presente na minha lembrança, na minha memória e na tentativa de ser tão bom ou chegar um pouco mais perto dele.


Iriê Salomão de Campos

Graduado em História pela UFJF. especialista em Gestão do Patrimônio Cultural pela Faculdade Metodista Granbery/Permear. Articulista convidade do Jornal Tribuna de Minas. Professor de História do Brasil. Escritor e palestrante Espírita. Artista Plástico e palestrante de Cursos Livres sobre a história das religiões com ênfase no conhecimento sobre a história de Deus.

Intagram: @iriesalomao


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